RUDOLF STEINER E A ANTROPOSOFIA - A CIÊNCIA ESPIRITUAL

RUDOLF STEINER E A ANTROPOSOFIA
Nascida como uma dissidência da Sociedade Teosófica, a Antroposofia, fundada por Rudolf Steiner em 1913, espalhou-se pelo mundo com uma visão das mais interessantes a respeito da missão do ser humano no planeta, com resultados práticos como o desenvolvimento da Pedagogia Waldorf.

Por Gilberto Schoereder

No site da Sociedade Antroposófica no Brasil existe uma: passagem interessante que diz o que a Antroposofia “não é”. Assim, ela não é um “movimento ou edifício místico de idéias”. A Antroposofia entende que o misticismo é baseado essencialmente em sentimentos e na transmissão de conhecimentos em forma de imagens e metáforas, enquanto a Antroposofia é transmitida ao pensamento consciente sob forma de conceitos.

Portanto, também não é uma religião, pois não tem cultos; é cultivada individualmente ou em grupos de estudo abertos, além das instituições. Não emprega mediunismo. Ela fala sobre o desenvolvimento e o uso de órgãos de percepção supra-sensível, que deve ser feito em plena consciência, em estado de vigília. Também não é sexista, racista ou nacionalista. Nossa missão na presente Terra é a evolução da essência de cada ser humano, o “Eu Superior”, que não tem sexo, raça, religião ou nacionalidade.

Também não é moralista, de modo que não existem normas de conduta para os que adotam a Antroposofia como princípio de vida. Não é dogmática; o própria Rudolf Steiner, o fundador da Antroposofia, se referiu ao fato de que não se deveria acreditar naquilo, que ele expôs, mas sim tomar como hipótese de trabalho à espera de comprovação pessoal. Da mesma forma, a Antroposofia deve acompanhar a evolução da humanidade.


Não é uma seita, e não é secreta, uma vez que tudo está publicado e os grupos de estudo podem ser freqüentados por qualquer pessoa. Não é uma sociedade fechada, pois qualquer um pode se tornar membro.

Então, o que é a Antroposofia? O termo vem do grego, significando “conhecimento do ser humano”, e está diretamente ligada às atividades do austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), que por algum tempo esteve ligado à Sociedade Teosófica. A definição diz que se trata de um método de conhecimento da natureza, do ser humano e do universo que amplia o conhecimento obtido pelo método científico convencional, bem como trata da aplicação desse conhecimento em praticamente todas as áreas da vida humana.



RUDOLF STEINER UTILIZAVA A PALAVRA “OCULTO”, mas com um sentido diferente do que é geralmente usado hoje em dia. Para ele, o oculto era aquilo que não estava acessível aos nossos sentidos físicos, considerando os cinco sentidos. Segundo Valdemar W. Setzer – responsável pelos textos do site e estudioso da Antroposofia desde 1961, a membro desde 1971 - com os sentidos conhecidos não é possível observar certas atividades interiores do ser humano, coma a volição, os sentimentos e os pensamentos. Ninguém nunca viu nossos impulsos de vontade, nossos sentimentos e pensamentos. Aparelhos como o da ressonância magnética, por exemplo, podem detectar alguma reação física do organismo àquelas atividades, que Steiner chamava de atividades anímicas -, mas não estará detectando as próprias atividades. Portanto, nossos sentimentos são ocultos, no sentido que Steiner quis dar à palavra. Da mesma forma, explica Setzer, aquilo que dá vida a um ser vivo é oculto, ou seja, podemos perceber sua manifestação através do próprio ser, mas a “força” que é a essência da vida não é perceptível aos nossos sentidos físicos.

Assim, diz-se que uma contribuição fundamental de Steiner foi chamar a atenção para o fato de que esse “oculto” pode ser investigado com a mesma clareza com que se investigam os fenômenos físicos, ainda que essa investigação seja realizada com outros métodos e com outros órgãos de percepção, que também são “ocultos”.

São fornecidos 10 itens que distinguem a Antroposofia de outros conjuntos de idéias, filosofias e praticas. Um é a abrangência; a Antroposofia cobre toda a vida humana e a natureza, podendo ser aplicada em todas as áreas da vida. Uma realização prática é a Pedagogia Waldorf, existente desde 1919, e hoje aplicada em mais de 800 escolas no mundo, 13 delas no Brasil. Ela também é apresentada sob forme de conceitos que se dirigem à capacidade de pensar e à sede de conhecimento e compreensão do ser humano.

Outro aspecto, ligado ao espiritualismo, é que seu método propicia se chegar-se ao fato de que o universo não é constituído apenas de matéria e energia física, mas descobre um mundo espiritual estruturado de maneira complexa em vários níveis. Por exemplo, a Antroposofia diz que os seres humanos têm um nível de “substância” espiritual, não-física, mais complexa do que a das plantas e dos animais, e também descreve seres puramente espirituais, sem expressão física, e que atuam em diferentes níveis de espiritualidade. Entende que alguns desses seres estão em níveis acima dos níveis da constituição humana, mas ainda assim são compreensíveis por meio de uma observação direta “supra-sensorial”. Dessa forma, diz que a substancia física é uma condensação da “substancia” espiritual, não-física, e para ela não existe o paradoxo do espírito atuar na matéria, uma vez que o espírito é a origem de tudo.



A ANTROPOSOFIA TAMBÉM PARTE DA COMPREENSÃO DO SER humano, para que ele entenda não apenas a si próprio, mas todo o universo. Fala a respeito do desenvolvimento de órgãos de percepção supra-sensorial, demonstrando que o mundo espiritual pode ser observado com tanta ou maior clareza que o mundo físico. Para isso é necessário que se desenvolvam individualmente órgãos de percepção que estão latentes em todos os seres humanos. Por exemplo, o que se chama intuição, para a Antroposofia já é uma percepção espiritual, ainda que não consciente e seu autocontrole. Para o desenvolvimento dessa capacidade, indica exercícios de meditação individual baseados na atividade do pensamento consciente, que deve conservar sua clareza, ser totalmente controlado e ser desenvolvido a ponto de não depender de conceitos e imagens provenientes do mundo físico.

A Antroposofia afirma que quatro características humanas devem ser preservadas e desenvolvidas de forma radical: o desenvolvimento da consciência, da autoconsciência, da individualidade e da liberdade. Apresenta uma cosmovisão aberta, ou seja, não há nada de secreto na Antroposofia. No aspecto da perspectiva histórica, o pensamento antroposófico afirma que se pode compreender conceitualmente muito do que foi transmitido na Antigüidade através de imagens como as dos mitos antigos, assim como relatos do Antigo e Novo Testamentos. Essa compreensão resgata a continuidade histórica, mostrando como o ser humano atual é a Conseqüência de uma linha de acontecimentos espirituais e físicos desde os primórdios do universo.

A Antroposofia apresenta indicações de como ampliar a pesquisa cientifica e torná-la mais humana, mais coerente com a natureza, sendo uma evolução do método científico estabelecido por Goethe. E, finalmente, a Antroposofia recomenda um desenvolvimento moral que deve ser feito pessoalmente, fundamentado no conhecimento da essência do ser humano e do universo. Assim, a missão do ser humano na presente Terra é o desenvolvimento moral baseado no amor altruísta, e essas atitudes morais devem preservar a liberdade individual, ou seja, não devem ser baseadas em imposições exteriores, mandamentos, dogmas e leis, mas irradiar do amor e do conhecimento individuais em plena liberdade.



RUDOLF STEINER NASCEU EM KRALJEVEC, na fronteira austro-húngara. Formou-se engenheiro na Escole Politécnica de Viena e obteve seu doutorado em Filosofia ria Universidade de Rostock; na Alemanha. Logo após a formatura, foi convidado a integrar a equipe que estava produzindo uma edição das obras de Goethe, em Weimar, cabendo a ele editar as obras cientificas.

Sua tese de doutorado, Verdade e Ciência, trata da essência do pensar, a posteriormente por expandida na obra filosófica que ele considerava a mais fundamental, A Filosofia da Liberdade, publicada no Brasil pela Editora Antroposófica. Após o período que passou em Weimar, foi para Berlim e trabalhou como redator numa revista de literatura e deu aulas de História e Filosofia numa faculdade aberta para operários, até que entrou em choque com a concepção marxista dos diretores.

Foi em Berlim, freqüentando os círculos literários, que entrou em contata com o movimento teosófico. Segundo disse em sua biografia, foi o único grupo que estava interessado em ouvir o que ele tinha a contar sobre suas pesquisas do mundo espiritual, que vinha realizando há anos. Assim, no começo do século Steiner teve uma carreira como conferencista, expondo suas idéias esotéricas. Tornou-se Secretário-Geral da Sociedade Teosófica na Alemanha, mas entrou em choque com os dirigentes da saciedade, que estavam seguindo uma corrente orientalista e declaravam o jovem hindu Krishnamurti como o novo messias.

A discordância lavou à sua separação da Sociedade Teosófica, em 1913, seguido por várias membros, formando-se assim a primeira Sociedade Antroposófica, com sede em Dornach, na Suíça. Construiu um prédio de madeira que foi chamado de Goetheanurn, considerado uma verdadeira obra de arte. Steiner ainda introduziu, nos congressos do movimento teosófico, atividades e apresentações artísticas, que passaram a ser parte essencial do movimento.

Em 1919, Emil Molt, diretor da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria, pediu que Steiner organizasse uma escola baseada em sua cosmovisão do ser humano; a escola logo se tornou independente e foi a origem da Pedagogia Waldorf, que se espalhou pelo mundo. No mesmo ano – percebendo que a Primeira Guerra Mundial tinha sido fruto de concepções sociais absolutamente incoerente com a constituição do homem moderno – escreveu o livro Os Pontos Centrais da Questão Social, proferindo dezenas de palestras sobre uma nova organização social que ele chamou de A Trimembração do Organismo Social. Essa organização é aplicada hoje em dia na organização de empresas e foi a base do que veio a se chamar de Pedagogia Social.

Posteriormente, a Sociedade Antroposófica e as Escolas Waldorf foram fechadas pelos nazistas. Os livros Steiner foram queimados, e ele mesmo sofreu um atentado, em Munique, de modo que todo o movimento se transferiu para a Suíça. A antroposofia também foi proibida na União Soviética e no leste europeu até a abertura de 1989.



OUTRA DAS APLICAÇÕES PRÁTICAS DA ANTROPOSOFIA que obteve imenso sucesso foi a idéia de se utilizar as atividades artísticas como terapia. A atividade começou na primeira clinica antroposófica, fundada em 1921 pela dra. Ita Wegman e posteriormente desenvolvida pelos que deram continuidade às atividades.

Paralelamente à medicina, também, ocorreu um desenvolvimento de uma farmacêutica antroposófica, produzida principalemente pelos laboratórios Weleda e Wala, o primeiro deles presente no Brasil.

Já em 1912, nos congressos da Sociedade Teosófica, Steiner introduziu duas novas formas artísticas: a arte da fala e a euritmia. Esta última é uma expressão corporal que tenta mostrar, em gestos, a essência profunda dos sons falados ou musicais, e é usada de três formas: artística, terapêutica e educacional.

Em 1924, após ter sido convidado a proferir uma série de palestras sobre agricultura, Steiner deu inicio ao que redundou no movimento chamado Agricultura Biodinâmica, um aperfeiçoamento de agricultura orgânica que leva em conta os ritmos cósmicos e a interação entre plantas, animais e seres humanos.

O Goetheanum foi vitima de um atentado na passagem do ano 1922 para 23, queimando inteiramente. Mas Steiner não perdeu tempo e começou os planos para a construção de um novo prédio, em concreto aparente, o que estabeleceu as bases da arquitetura antroposófica, na qual as edificações são tratadas como obras de arte funcionais que procuram se integrar nas características do meio ambiente. Uma das características que tornam a arquitetura antroposófica facilmente reconhecida é a quase ausência de ângulos retos, a não ser no contato com o solo. A idéia é a de que um ângulo reto não dá margem a quase nenhuma criatividade; mas se ele é evitado, o arquiteto tem de decidir qual ângulo usar, qual corresponde melhor à estática e funcionalidade.

Ainda em 1924, teve inicio a Pedagogia Curativa, outra aplicação prática da Antroposofia que surgiu de outra série de palestras de Steiner. Essas noções originaram o trabalho do dr. Karl König, na Escócia, com o Movimento Camphill, no qual se formam aldeias para deficientes, estimulanso-se a sua auto-suficiencia.

E, seu texto, Setzer ainda expõe que essas aplicações da Antroposofia devem sempre se basear na atuação de pessoas que abraçaram a visão antroposófica do ser humano e do mundo. Segundo explica, não há muito sentido em se aplicar certas técnicas terapêuticas ou pedagógicas sem que elas sejam inspiradas pela cosmovisão introduzida por Steiner. Assim, qualquer dessas aplicações, quando desligada da fonte original, tende a se desviar e se descaracterizar. Em outra palavras, não é possível separar da Antroposofia alguma técnica que tenha sido inspirada nela pois, se uma pessoa trabalha com uma determinada técnica, derivada dos ensinamentos de Steiner, e não concorda com sua cosmovisão, ele não deveria estar de acordo com a técnica em si.

Steiner disse que a Antroposofia deveria mudar com o tempo, o que seus continuadores vêm fazendo, ainda que se diga que não surgiu ninguém com a sua profundidade de visão e conhecimento.


ANTROPOSOFIA NO BRASIL


A Antroposofia chegou ao Brasil ainda na época de Steiner, através de imigrantes europeus. A primeira tradução de um livro de Steiner – a obra Como se Adquirem Conhecimentos dos Mundos Superiores – surgiu no país antes da Segunda Guerra Mundial, e em 1939 já havia Ramos da Sociedade em São Paulo, Rio e Porto Alegre, com todo o trabalho ainda feito em alemão. Isso causou problemas durante a guerra, pois o receio de falar alemão fez com que os grupos de dividissem em pequenos círculos de estudo.

Por volta de 1950, o dr. Rudolf Lanz organizou várias palestras públicas do professor Otto Julius Hartmann, na Universidade de Gratz, que visitava o Brasil, autor de vários bons livros de divulgação da Antroposofia.

Uma Escola Waldorf foi fundada pelos antropósofos Selma e Dirk Berkhout, Ernst Mahle e esposa, e Paulo Bromberg e esposa. Os Berkhout colocaram á disposição uma casa em Higienópolis, em São Paulo, e a escola começou a funcionar em 1956, com Rudolf e Mariane Lanz fundando o Seminário Pedagógico Waldorf, em 1970. Foi através desse movimento pedagógico que a aplicação da Antroposofia chegou a outras cidades do país.

Em 1957, com a visita dos médicos antroposóficos da Ita Wegman Klinik, se estabeleceu os primeiras passos para a introdução da medicina antroposófica e da Weleda do Brasil, fundada em 1959. A primeira clínica antroposófica nas Américas, a Clínica Tobias, foi fundada em 1969, por Gudrun e Pedro Schmidt.

A Editora Antroposófica surgiu em 1981, por iniciativa de Rudolf Lanz e Jacyra Cardoso, e desde então tem publicado as obras de Steiner e do seus continuadores.

Já a agricultura hiodinãmica iniciou suas atividades no Brasil em 1973, na Estância Demétria, em Botucatu.

(Extraído da revista Sexto Sentido 54, páginas 26-31)

Antroposofia - Ciência Espiritual

Por Angélica Justo

Antroposofia - Ciência Espiritual, como podemos definir? Este termo foi usado por Rudolf Steiner em 1913, na época da fundação da Sociedade Antroposófica. Porém, o termo Antroposofia foi usado pela primeira vez por Ignaz Paul Vital Troxler (1780-1866), segundo Nicolla Abbagnano (2000, p. 68), para indicar a doutrina natural do ser humano (Naturlehre der menschlichen erkemmtnis) e utilizado por Rudolf Steiner em 1913, com a fundação da Sociedade Antroposófica.

O termo Ciência Espiritual foi utilizado também por Diltey (1833-1911), que viveu em uma época marcada pelo avanço da ciência, e em particular das Ciências Exatas. A Física e o Método Experimental eram a referência para todas as ciências. A filosofia Dilthey assumiu uma função programática de encontrar um lugar para aquilo que designou por "Ciências do Espírito", as quais denominamos hoje Ciências Humanas (Sociologia, Psicologia, História, Antropologia, etc.).

Às Ciências Exatas atribui-lhes uma vocação "explicativa" dos fenômenos naturais. O seu objetivo é o de estabelecer relações constantes e necessárias entre os fenômenos observados, cujas causas podem ser isoladas e descritas. Explicar é prever aquilo que por natureza é repetível. Às "Ciências do Espírito" atribui-lhes a missão de "compreensivo" dos fenômenos humanos. O seu objetivo é o de procurar elucidar aquilo que é único, isto é, não repetível, onde as causas são múltiplas e dificilmente isoláveis. A principal obra de Diltey é "Einleitung in die Geisteswissenchaften" - Introdução às Ciências do Espírito - 1833.

Processo do pensamento filosófico através das épocas culturais:
Hindus - Para os hindus existem três divindades espirituais que derivam de Brahman: Brahma, Vishnu e Shiva e a realidade era Maya (ilusão). Na cultura indiana não há o ideal de pessoa. Temos as castas; a denominação de Filosofia e Religião não existem.
Egípcios - Visão piramidal onde o faraó era o representante da divindade na terra. As entidades espirituais representadas pelo Antropomorfismo eram Aton, Rá, Ámon, Osíris, Ísis e Hórus. O corpo era embalsamado esperando o retorno da Alma.
Persa-Babilônica - Zoroastrismo (Ahura Mazdao, Ohrmazd). Dualidade luz-treva, corpo-alma, bem-mal. Acreditavam na transmigração da Alma e da Metempsicose (crença na transmigração da alma de corpo em corpo. Essa crença é muito antiga e de origem oriental).
Greco-Romana - A psyché seria uma partícula da “Alma do Mundo”, que fica aprisionada no corpo. Segundo Platão, isto é explicitado no pecado de “Hybris” (a Alma individual diz: “Eu quero ser como você” - Alma Mundi). A civilização grega trouxe a Filosofia e foi marcada por Sócrates, Platão e Aristóteles. Para Platão vivemos no mundo das idéias (transcendente) e para Aristóteles, na matéria - espírito (imanente). A cultura ocidental está alicerçada em duas bases: a tradição judaico-cristã com o ideal de pessoa e a tradição helenística com o ideal racional - logos. Na Índia não temos o ideal de pessoa (castas) e nos países islâmicos o Alcorão domina a razão (ideal racional). O uso da reflexão, a Filosofia e o Direito Humano vieram com a civilização greco-romana.
Idade Média - a fé domina a razão (escolástica). Na mística medieval o místico recebia uma iluminação (lumen naturalis), já no racionalismo temos na nossa razão uma revelação (numinoso).
Modernidade - Marcada pelos iluministas Descartes e Kant.

René Descartes (1596 - 1650)
Cogito ergo sun (Penso logo existo). Autor de “Discurso sobre o Método” (1637) e “Meditações”. A sua concepção de homem era uma dualidade corpo-espírito. O Universo consiste de duas diferentes substâncias: a mente (substância pensante) e a matéria, sendo essa última basicamente quantitativa, teoreticamente explicável em leis científicas e fórmulas matemáticas. René Descartes influenciou o século XVI com a visão mecanicista do coração bomba, pulmão fole e o metabolismo como mecanismo de queima de combustível.
A “redução cognitiva” permite isolar e compreender esquematicamente certos fenômenos, mas perde-se a visão do todo.
Desde o século XVI aparecem correntes epistemológicas, que se contrapõem ao pensamento mecanicista - o Cartesiano. Temos ainda a redescoberta da Alquimia no século XVI com Paracelso (1493-1541), a Homeopatia - Hahnemann (1755-1843), o Vitalismo - princípio vital, com Bergson (1859-1941), o Mesmerismo - Franz Anton Mesmer (1734-1815), a Teosofia - Blavatsky (1831-1891) e o Espiritismo com Allan Kardec (1804-1869).

Kant (1724-1804)
“Crítica da Razão Pura e da Razão Estética” - “Não podemos conhecer a coisa em si, mas apenas aquilo que apreendemos, Deus in se, Deus pro me” (Deus em si, Deus para mim). Kant estabeleceu limites para o conhecimento. Fez uma distinção entre aparência (o mundo dos fenômenos) e a realidade (o mundo dos noumenons). Afirmava que os argumentos metafísicos tradicionais sobre a Alma, a Imortalidade, Deus e o Livre-Arbítrio ultrapassavam os limites da Razão. O emprego legítimo da Razão é na esfera prática, conhecendo o mundo.

Filósofos Românticos:
Nos séculos XVIII e XIX houve uma reação à idéia racionalista iluminista (conflito entre a Ciência e a Religião), que surgiu na Europa com os românticos, representados por poetas, escritores, artistas e filósofos como Goethe, Rosseau, Schopenhauer, Fichte, Shelling, Shiller, Hegel, Wagner e Nietzsche.

Goethe (1749-1832)
Quando jovem foi um motor do Romantismo Anárquico do “Sturm und Drang” (Tempestade & Tensão). Em sua viagem na Itália, Goethe recolhe espécimes de plantas, estuda os ossos dos animais, os minerais, contempla a natureza, coleciona, escreve, desenha e pinta. No Jardim Botânico de Palermo Goethe intui a noção de uma “Planta Primordial”, modelo arquetípico do qual derivariam todas as formas vegetais. Ele quer encontrar o vinculum que reúna a diversidade. Ele via, contemplando as plantas, que todas elas seriam apenas variações diferenciadas de um mesmo modelo arquetípico fundamental e que seria uma “idéia-planta”. Mesmo em uma única espécie, cada parte da planta é metamorfose de outras partes, observa Goethe, e com esse insight iniciará sua obra de botânica meramente classificatória que Linneu havia começado a empalidecer, na medida em que valoriza a percepção das partes, das diferenças, buscando o vinculum “por trás”.
Através de observações botânicas, Goethe buscava uma imagem da Natureza diferente da visão mecanicista de Bacon, Newton ou de Linneu: uma Natureza viva, “Mãe”, dotada de uma espécie de inteligência primordial revelada e visível através dos fenômenos sensíveis. Uma natureza vivente, dotada de um Unus Mundus semelhante ao imaginado por Nicolau de Cusa e pelos Alquimistas do século XVI. A Natureza é uma tecelã, cujos fios são a vida e cujos intervalos entre os fios são a morte.
Seu grande poema “Fausto” levou sessenta anos sendo escrito e foi muito além da reação romântica, terminando nas reviravoltas espirituais e materiais da Revolução Industrial. Fausto acaba vendendo a alma ao Diabo não por dinheiro, sexo ou fama, mas sim pelo direito de controlar a Natureza, para transformar o mundo medieval por meio de uma imensa força de trabalho organizada. Fausto torna-se o primeiro developer - o arquétipo do empresário moderno. Em “Fausto”, Goethe escreve:
“Teço para cá e para lá
Nascimento e túmulo,
Um mar eterno
Um tecer alternante
Uma vida alternante
Eis como trabalho no tear sibilante do tempo
E crio as vestes vivas da Divindade”.

Fichte (1762-1814)
O ego (sujeito) era a matéria fundamental de investigação, o mundo era só “ego absoluto”, uma espécie de sujeito gigante. Essa tese foi adotada mais tarde por Hegel e pelos nacionalistas alemães.

Shelling (1775-1854)
Era muito ligado aos românticos alemães e tentou combinar a filosofia crítica de Kant com uma explanação mais ampla da importância da arte.

Shiller (1759-1805)
Shiller desenvolveu Kant e propôs a arte como uma atividade desinteressada. É fundamental tanto para a vida pública quanto para a individual. Suas idéias faziam parte da atitude romântica predominante que considerava a arte indispensável.

Para o Iluminismo o atributo humano que melhor distingue o homem dos animais é a razão. Para o Romantismo a racionalidade é considerada uma ameaça à individualidade e à criatividade humanas. O homem em seu estado natural desfrutava de uma perfeita harmonia entre as paixões, os desejos, a felicidade e a paz.
Tal movimento se contrapunha à mentalidade cartesiana e mecanicista hegemônica.

Filósofos do Idealismo Alemão
Hegel (1770-1831)
Foi o maior dos idealistas alemães, certamente o mais difícil de entender e possivelmente o mais escandaloso em suas pretensões de ter entendido toda a história da Filosofia. Hegel fundamentava que tudo estava interligado, enquanto a maioria dos filósofos, a partir de Aristóteles, defendia que a realidade tinha de ser separada em partes distintas, quer como fatos, objetos ou mônadas. Hegel afirmava que nada era desconexo. A realidade última era a idéia absoluta - “a verdade é o todo”. Ele equiparava Verdade a Sistema.

Shopenhauer (1788 - 1860)
Aparece como a antítese absoluta de todo o Movimento Idealista Alemão. Não gostava dos grandes sistemas e preferia um pensamento único. Rejeitava a Filosofia Acadêmica e combatia os metafísicos hegelianos, sua filosofia da religião e seu nacionalismo germânico. Declarando-se ateu, pensava no Iluminismo, e, sobretudo em Voltaire. Sua obra mais importante foi “O Mundo como Vontade e Representação”. Shopenhauer parte de Kant e diz que “a coisa em si” tem correspondência com a “Vontade”. A idéia da “primazia da Vontade” influenciou filósofos como Nietzsche (1844-1900), Freud (1856-1939) e Bergson (1859-1942).

Rudolf Steiner (1861-1925)
Com este apanhado histórico filosófico, podemos contextualizar Rudolf Steiner (1861-1925) e suas leituras filosóficas, as quais influenciaram sua obra e o termo Antroposofia - Ciência Espiritual.
Rudolf Steiner foi aluno de Franz Brentano (1838-1917), que com a sua Psicologia Descritiva foi considerado o pai da Escola Fenomenológica. Sua Fenomenologia era chamada de “Filosofia Descritiva da Experiência” na qual as visões de mundo inter-relacionadas preocupam-se com a subjetividade e com uma descrição desta subjetividade. Foi Husserl (1859-1938) que estabeleceu o método básico da Fenomenologia em investigações lógicas.
Seguido por Martin Heidegger (1889-1976), pretendia voltar aos fenômenos. Por fenômeno ele entendia tudo o que aparece à consciência (daí Fenomenologia). Depois que o “Dasein” se junta aos fenômenos - que é como o ser encontra o mundo -, tudo dá errado quando o “Outro” entra em cena. Heidegger estava tentando descobrir a verdade sobre o ser, uma “Ciência do Ser” que explicasse a existência. A angústia e a falta de sentido se instalam, e só se conhece o “Dasein” por meio dessa angústia.
A busca da verdade influenciou Jean-Paul Sartre (1905-1980), que desenvolveu as idéias de Husserl e Heidegger, organizando-as num corpo de pensamento coerente, conhecido como Existencialismo. Em seus romances, peças e atividade política, Sartre preocupou-se com uma filosofia da decisão e da liberdade. Ele queria trazer a Filosofia para as ruas, seu pensamento era sobre um estar-no-mundo.

A Filosofia de Rudolf Steiner
Em seu livro “A Filosofia da Liberdade”, diz Steiner: “... portanto, quando o filósofo começa a refletir sobre sua relação com o mundo, ele acaba sendo pego por um sistema de pensamentos que se dissolvem tão rápido quanto são formados. O processo do pensamento é aquele que pede algo além de uma refutação teórica. Nós temos de viver por meio dele a fim de entender a aberração a qual ele nos leva e, a partir daí, descobrir a saída”.
Todas as filosofias merecem um estudo, podem trazer uma visão libertadora quando paramos de argumentar a favor ou contra elas. O filósofo é aquele que questiona a suposição ingênua de que sua própria visão é igual à visão da realidade de si mesmo (“Os Enigmas da Filosofia -1900”).
“O mundo não pode ser observado a partir de uma posição unilateral de uma cosmovisão, de um pensamento. O mundo apenas se desvenda àquele que sabe ser preciso andar ao seu redor. Assim como o sol, quando nos baseamos na cosmovisão de Copérnico, passa pelo zodíaco para iluminar a terra de doze pontos, também não podemos nos colocar numa posição de idealismo, sensualismo, fenomenalismo ou outra cosmovisão que pode ter um desses nomes. Temos que estar em condições de andar ao redor do mundo e familiarizar-nos com essas doze posições (Idealismo, Realismo, Materialismo, Espiritualismo, Matematismo, Sensualismo, Racionalismo, Fenomenalismo, Psiquismo, Dinamismo, Pneumatismo, Monadismo), a partir das quais podemos observar o mundo (“O Pensamento Humano e o Pensamento Cósmico” - GA 151).
Steiner reformulou suas idéias novamente enquanto reconhecia que estava recuperando algo que havia sido entendido em tempos antigos, e sugeria que isso não precisava ser perdido na questão unilateral para pontos específicos. A necessidade de repensar constantemente está então no coração da Filosofia de Steiner. Ele se opunha profundamente ao tratamento mecânico do problema do conhecimento, como se o fato pudesse ser solucionado assim como uma câmera tirando uma foto do mundo, sem se envolver nele. Para ele, o conhecimento era essencialmente um sistema complexo de vida, uma atividade humana e isso predizia nosso compromisso com um mundo para o qual, em um nível mais complexo, pertencíamos profundamente: o mundo que nos deu a nossa organização como seres inteligentes. Nossa consciência de um mundo “externo” é, para ele, não uma contradição estranha na composição das coisas, mas uma característica enigmática da nossa relação com nosso ambiente, que será solucionada com a ajuda de conceitos de forma, de desenvolvimento e de uma noção mais profunda da evolução.
Da época de seu trabalho pioneiro sobre os escritos científicos de Goethe, defendendo diferentes interpretações de cor e de crescimento biológico referentes às teorias materialistas de sua época, Steiner encontra-se na vanguarda de muitos dos avanços sobre o entendimento da estrutura e da forma, tão importantes no pensamento moderno. No início de seu trabalho ele viu a necessidade de estabelecer uma base epistemológica sobre a qual está a ciência de Goethe em “A Obra Científica de Goethe”. Ele esboçou as implicações dessas idéias para as Ciências Físicas, Biológicas e Humanas, de forma que ele já oferece um vislumbre da direção que seu trabalho tomaria após a virada do século. 
O conhecimento é descrito por Steiner como um processo e uma relação. Ele rejeitava qualquer tipo de visão “metafísica” do conhecimento, baseado na idéia de que podemos, de alguma forma, ficar de fora de nossa posição de envolvimento com o mundo. De uma forma mais simples, conquistamos a objetividade, não por ficar de fora de nossa perspectiva como conhecedores para ver o que as coisas “realmente são”, mas pelo entendimento do ângulo de que nossa visão está do lado de dentro e também das condições que ela envolve.
A filosofia resultante rompeu com as antigas tradições do Idealismo e Materialismo, bem como chegou a um novo modo de pensamento, uma nova visão “antroposófica” da natureza humana na direção de um novo mundo inter-relacionado.
“O resultado dessas investigações é que a verdade não é, segundo o que é suposto, o reflexo de idealizar algum objeto real, mas algo produzido livremente pela mente humana e não existiria de modo algum, se não a trouxéssemos à tona. A tarefa do conhecimento não é recapitular na forma de conceitos o que nos é dado de uma outra forma, mas sim criar um domínio totalmente novo que, quando agrupado com o mundo apresentado pela percepção do sentido, produz, pela primeira vez, a realidade completa. Desse ponto de vista, o modo mais elevado da atividade humana - a atividade criativa da mente - adapta-se organicamente ao processo completo dos eventos cósmicos. Nessa atividade, o processo do mundo não poderia ser compreendido como algo total e completo em si. O ser humano não é um observador preguiçoso frente ao espetáculo do mundo, imitando em seu espírito o que está acontecendo no universo sem se envolver; ele é um participante ativo em um processo criativo cósmico e seu conhecimento é, na verdade, a parte mais evoluída do organismo do universo”. Steiner, Warheit Wissens (Dornach, 1980) pp.11-12.

Steiner teve um processo biográfico marcado por três grandes etapas: a fase filosófica, de 21 a 41 anos, a fase teosófica de 41 a 52 e a antroposófica de 52 a 64 anos.

Resumo Biográfico de Rudolf Steiner

1ª Fase: 0 aos 21 anos

Nasceu em 27 de fevereiro de 1861 em Kraljevec - Ilha Mur, na Hungria, hoje Iugoslávia. Primeiro de três filhos (uma irmã Leopoldine-1864 e um irmão Gustav-1866).
O pai, Johanan Steiner, era nascido em Geraes na baixa Áustria. Foi funcionário da Estrada de Ferro Setentrional da Áustria.
A mãe, Franziska Steiner era nascida em Horn, baixa Áustria.
O pai é transferido para Inzendorf, perto de Viena. Estuda na Academia Técnica as disciplinas de Matemática, Biologia, Física, Química. Seus professores espirituais são Karl Julius Schröer (Literatura alemã), Robert Zimmerman e Franz Brentano (Filosofia) e Otto Karl Lorenz (História). Estudos básicos de Goethe.
· Aos 21 anos é encarregado dos “Escritos científico-naturais de Goethe” e publica os “Fundamentos de uma gnosiologia da cosmovisão Goethiana”.

2ª Fase: 21 aos 42 anos

· Aos 27 a profere uma conferência na Sociedade Goethe de Viena: “Goethe como pai de uma nova estética”.
· Aos 29 anos torna-se colaborador permanente no Arquivo Goethe-Shiller.
· Aos 30 anos já é Doutor em Filosofia e publica “A questão fundamental da gnosiologia, com especial consideração à doutrina científica de Fichte”.
· Aos 31 anos publica “Verdade e ciência”.
· Aos 33 anos publica “A Filosofia da liberdade”.
· Aos 34 anos publica “Friedrich Nietzsche, um lutador contra seu tempo”.
· Aos 36 anos publica “A cosmovisão de Goethe”. Transferere-se para Berlim.
· Aos 38 anos casa-se com Anna Eunike.
· Com 39 anos profere palestra no âmbito da Sociedade Teosófica: “Concepções do mundo e da vida no século XIX”, dedicada a Ernst Haeckel.
· Aos 41 anos marca sua entrada para a Sociedade Teosófica.

3ª Fase: 42 aos 63 anos

· Com 43 anos, fala em Stuttgart: “Goethe como Teósofo”.
· Com 44 anos está em atividade discursiva e de extensão da Sociedade Teosófica em Berlim. Publica o “Evangelho segundo João”.
· Aos 47 anos faz 12 conferências em Nuremberg sobre “Teosofia com base no apocalipse”.
· Aos 48 anos publica o “Evangelho segundo Lucas”.
· Aos 49 anos publica o “Evangelho segundo Mateus”.
· Aos 50 anos publica “Fisiologia oculta”. Morre Eunike, sua mulher.
· Fala no Congresso Internacional de Filósofos em Bolonha sobre “Os fundamentos psicológicos e a posição teórico-cognitiva da Teosofia”.
· 51 anos: criação da Eurritmia.
· 52 anos: saída da Sociedade Teosófica e constituição da Sociedade Antroposófica.
· Aos 53 anos casa-se novamente, com Marie von Sivers.
· 58 anos: fundação da Escola Waldorf em Stuttgart. Representações do “Fausto” no Goetheanum.
· 59 anos: conferências para jovens médicos e estudantes de Medicina.
· 61 anos: destruição do Goetheanum por ato incendiário.
· Aos 63 anos publica “Minha vida”. Ministra cursos para jovens médicos, curso de agricultura, curso de Eurritmia Verbal, curso para moldagem da fala e arte dramática, curso para teólogos.

4ª Fase: 63 aos 70 anos

· 64 anos: Escreveu em conjunto com a Dra. Ita Wegman “Elementos fundamentais para uma ampliação da arte médica segundo conhecimentos científico-espirituais”.
· Em 30 de março de 1925 falece Rudolf Steiner.

Resumo Biográfico de Rudolf Steiner

Trimembração segundo a Antroposofia

A Antroposofia de Steiner retoma, devidamente reelaborada, uma das formas mais tradicionais de se ver a natureza: a forma trimembrada.
No uno temos a Sophia. No binário o Feminino e o Masculino e no ternário podemos ter o arquétipo da Mãe - Pai - Filho.
Na tríade alquímica revivida no século XVIII - Saint Martin, temos o sal, onde ocorre o coagular, o súlfur que seria tudo que tende a dissolver e o mercúrio buscando o equilíbrio.
Na natureza cósmica podemos observar o mundo físico, o anímico e o espiritual. Na natureza do homem observamos o corpo, a alma e o espírito.
Nas origens da civilização ocidental cristã, a ontologia humana era ternária: pneuma, psique e soma.
No Concílio de Constantinopla (870 d.C.) a visão ternária passa a ser binária, assim, a denominação de espírito e alma, passam a ter o mesmo sentido. Como já foi visto anteriormente, René Descartes no século XVI define o homem de res cogitans (a coisa pensante) - mental (Espírito-Alma), e a res extensa (a coisa extensa). Sendo assim o homem foi reduzido a uma dinâmica somato-psíquica ou mental-psíquica.
O Materialismo que emerge a partir do século XVII quando a Alquimia é substituída pela Química; elege a matéria como real e elimina o Espírito; a Alma decai para a condição de um epifenômeno da química das substâncias: “a mente é resultado da química cerebral”. O espírito romântico do século XVIII vem resgatar o intermediário mercurial e restabelecer a noção de um ternário. Steiner compreendeu a importância dessa vocação para a cultura moderno-ocidental e a reelaborou durante a construção das bases da Antroposofia.

Pensar – Sentir – Querer

Essas são as três expressões da alma. No trabalho de conscientização, o pensar deveria estar em equilíbrio com o sentir e com o querer. Em uma hipótese de pensar imbuído de um querer (pensar-querer), vencemos a nossa limitação. Steiner oferece alguns exercícios de concentração, retrospectiva e mudança de hábito. Refletir sobre um ponto de vista oposto cria uma flexibilidade interna; abstermos de julgamentos nos torna objetivos e realistas.
Pensar com o sentir (pensar-sentir) é uma condição essencial da formação ética (pensar com o coração). Quando conscientizamos os nossos sentimentos, fazemos uma educação ética.
Pensar sobre o pensar (pensar-pensar) faz com que a alma se liberte da iluminação subjetiva, penetre na amplidão dos horizontes espirituais impregnando-se de vitalidade, combatendo a insegurança, o nervosismo, as neuroses e depressões, o medo da vida e o pânico.

Através da motricidade, vencemos a força da gravidade de uma forma inconsciente, em um estado de sono profundo. E a criança de 0 a 3 anos adquire o que Steiner chama do “alicerce da vida humana”: Andar - Falar - Pensar, onde fundamentamos todo o processo da nossa existência.
Quando estamos em uma crise, caímos, levantamos, falamos sobre ela e andamos novamente.

Espírito, Eu e Organização para o Eu

Steiner em diversas obras considera que o homem possui um “Espírito” individualizado, ao qual denomina “Eu”, que deve assumir o próprio corpo.
Já o termo usado na Antroposofia “Organização para o Eu” é a organização para uma fisiologia individualizada.
O nosso “Eu” (Espírito) corresponde ao sono profundo, no inconsciente e sua manifestação é dada através da Vontade.

A Vontade e o Inconsciente

O filósofo romântico Shopenhauer escreveu que o mundo é uma vontade manifesta e que a vida é simplesmente a vontade de existir se manifestando.
Em Nietzsche, a vontade é potência, “querer mais estar no mundo”, como um leão que come sua presa simplesmente para sobreviver.
Já para Goethe, a vontade aparece como a eterna insatisfação e aspiração do “Fausto”.
Na obra “O Estudo geral do homem - Arte da Educação I” - 1919, Steiner detalhou a Vontade em 7 passos (resolução, propósito, aspiração, motivo, desejo, impulso e instinto) que é uma classificação trimembrada.

Níveis superiores:
Resolução: é a vontade do espírito - “Eu”
Propósito: o qual leva ao aprimoramento do “Eu”
Aspiração: através da auto-educação do “Eu”

Nível mediano:
Motivo: razões para o “Eu” elaborar o caminho cotidiano da nossa biografia.

Níveis inferiores:
Desejo: ele se torna manifesto através do animal em nós.
Impulso: desencadeado pelas necessidades vitais (fome, sede, etc.).
Instinto: através da reprodução, a forma mais arcaica da vontade.

A nossa cabeça pensante sabe pouco do que queremos. As nossas vísceras, pernas e músculos, sabem mais. Segundo Steiner o pensar com o nosso sistema metabólico-locomotor (vísceras, pernas e músculos) seria um pensar vivo, criativo, ele está no nosso inconsciente.
O “Eu” inconsciente é selvagem, indomado, natural e está aberto em contato com o Todo (Cosmo). Daí ele recebe inspirações e intuições.
Na cabeça consciente somos “Egos Sociais”. Já nos membros e vísceras, na esfera do inconsciente, somos “Eus Espirituais”.
A Vontade inconsciente cria o futuro, a cabeça vive na reflexão sobre o passado.
Steiner observou que no homem sadio a Vontade não pode estar desvinculada do pensar e do sentir. A Vontade permeada pelo Bom, Belo e Verdadeiro transforma-se, respectivamente em Bondade, Estética e Ética, levando o ser humano ao Entusiasmo. Segundo Nicola Abbagnano (Dicionário de Filosofia - pág. 335): “Entusiasmo em sentido próprio seria a inspiração divina, donde o estado de exaltação que ela produz, com a certeza de possuir a verdade e o bem”. O filósofo contemporâneo Jaspers definiu o Entusiasmo de acordo como conceito tradicional e precisou-o positivamente. “Na atitude entusiástica”, disse ele, “o homem se sente tocado em sua substância mais íntima, em sua essencialidade ou, o que dá no mesmo, sente-se arrebatado e comovido pela totalidade, pela substancialidade e pela essencialidade do mundo (Psychologie der Weltanschauunge, I, C, trad. It., pp, 138 ss.). Contudo, Jaspers distinguiu entusiasmo de fanatismo, no sentido de que, enquanto o entusiasta “se obstina em manter firme suas idéias, mas tem vivacidade e vitalidade para aperceber-se do novo”, o fanático “fica fechado em determinada fórmula ou numa idéia fixa” (Ibid,. p.162).
Na Pedagogia Waldorf a educação da Vontade se dá através da repetição nos exercícios com o corpo por meio do brincar, teatro, canto, música, pintura, desenho e da Eurritmia.

A Quadrimembração

A quadrimembração é outra forma de observação do ser humano através do pensamento analógico, oferecida por Rudolf Steiner.
Empédocles, filósofo grego, séc. 490-435 a.C., já falava dos quatros elementos: terra, água, ar e fogo, os quais seriam combinados através do amor e do ódio.
Este conhecimento foi vivificado dentro da Antroposofia na observação do ser humano através dos quatro elementos, oferecendo a sustentação para os “quatro corpos”: corpo físico, corpo etérico, corpo astral e corpo calórico – Eu.
Terra - Corpo Físico: todos os oligoelementos da natureza (ferro, cálcio, cobre, magnésio, etc.) estão presentes na constituição do nosso corpo físico.
Água - Corpo Etérico: corpo vital ou corpo das forças formativas. A água serve como veículo para todos os nossos processos vitais.
Ar - Corpo Astral: o ar é o veículo das nossas emoções.
Fogo - Eu, Consciência: o calor portador do nosso Eu é diferente do calor físico, que segundo Steiner se aproxima quando o vivenciamos um entusiasmo. Segundo Jaspers o entusiasmo é o que aproxima o homem do espiritual.

Podemos subdividir o corpo físico em quatro organismos: sólido, líquido, gasoso e térmico.
Organismo sólido: corresponde a nosso corpo físico e está vinculado à dinâmica do supra-sensível do sistema pulmonar.
Organismo líquido: corresponde a nossa salivação, sudorese, diurese, etc. e está vinculado à dinâmica supra-sensível do sistema hepato-biliar.
Organismo gasoso: corresponde a nossa respiração e está vinculado à dinâmica do nosso sistema renal-genital.
Organismo térmico: corresponde a nossa temperatura corporal e a harmonização do nosso “Eu” ao nosso corpo. Está vinculado à dinâmica do nosso sistema cardiovascular.

Quaternário orgânico: os quatro sistemas orgânicos.
Pulmonar - Terra
Hepática - Água
Renal - Genital - Ar
Cardiocirculatório - Fogo

Segundo Rudolf Steiner em seu livro “Teosofia”, quando falamos do nosso corpo, estamos nos referindo aos nossos corpos físico, corpo etérico e corpo astral.

CORPO ETÉRICO

Matriz invisível do corpo físico. Podemos entendê-lo fenomenicamente através da observação goetheanística como sendo ele constituído pelo éter vital, éter químico-sonoro-fleumático, éter lumínico, éter calórico.

Sólido: éter vital - melancólico - terra - pulmão.
Líquido: éter químico-sonoro-fleumático - fígado.
Gasoso: éter lumínico - sanguíneo - rim.
Térmico: éter calórico - colérico - coração.

Contraface sutil dos quatro elementos:
Éter calor: funde, aquece. Fogo: dissolve, queima.
Éter luz: organiza, tece. Ar: fluir, movimento.
Éter químico: germina, brota. Água: vitaliza, umedece.
Éter vital: tensão para uma futura expansão. Terra: contrair, expandir.

Os sete processos vitais do corpo etérico:
1- Interiorização.
2- Ajuste, estabelecer uma relação.
3- Digestão.
4- Assimilação.
5- Manutenção.
6- Desenvolver uma nova habilidade.
7- Reproduzir.

Ao se fazer um conto de fadas para a criança, estamos solicitando a participação do seu corpo etérico, onde ela irá ouvir o conto e desenvolver os sete processos de aprendizado, criando através das imagens do conto uma nova habilidade, reproduzindo-a. Por isto nas escolas Waldorf se ensina através de imagens que irão estimular a inspiração, deixando espaço para a intuição. O conto, o mito e as lendas usados para adultos produziram o mesmo processo no nosso corpo etérico.

CORPO ASTRAL

É o corpo animal no ser humano. Nos permite a excitabilidade, as sensações, a dor ou o prazer, a fome, a sede e a libido. O corpo astral pode ser lido fenomenicamente na face do indivíduo, medo, ansiedade, dor, etc.
O corpo astral hipertrofiado manifesta no ser humano inquietação, agitação e excitabilidade.
Podemos observar o corpo astral através do acordar, do sentir e do desejar. O acordar lento deduz um corpo astral não tão desperto; o contrário seria um corpo astral muito desperto. O sentir de uma forma muito intensa irá definir um corpo astral com grande intensidade na esfera do sentir. O desejar poderá nos orientar em que estágio o nosso corpo astral está, se ele está no nível do reino animal ou humano.
O corpo astral contém o elemento desequilibrador, podendo levar à doença e o corpo etérico contém o elemento harmonizador, levando à saúde.

Na Antroposofia usamos a terminologia de Homem Superior e Homem Inferior, nos referindo da seguinte forma:
Homem Superior: seria o “Eu” ligado ao corpo astral.
Homem Inferior: seria o “Eu” ligado ao corpo etérico.

O nosso “Eu” se revela na nossa face, nos olhos, na fala, na gesticulação, e também determina em nós o que temos de forças espirituais.
A “Organização para o “Eu” se expressa na estruturação dos tecidos, forma do esqueleto e no sistema imunológico. A “Organização para o Eu” pode ser entendida tanto do ponto de vista somático-fisiológico quanto do ponto de vista psicológico. A percepção do “Eu” de uma pessoa se faz através do calor que ela irradia. Ex.: Esta pessoa é calorosa.

DIAGNÓSTICO ATRAVÉS DO OLHAR TRIMEMBRADO E QUADRIMEMBRADO

Trimembrado: Corpo, Alma e Espírito.

- Corpo: Sistema Nervoso Central (SNC), Sistema Rítmico, Sistema Metabólico-Locomotor.
- Alma: Pensar, Sentir, Querer.
- Espírito: Imaginação, Inspiração e Intuição.

Quadrimembrado: Corpo Físico, Corpo Etérico, Corpo Astral e Corpo Calórico (Eu)

- Corpo Físico: os quatro elementos (terra, água, ar e fogo) e os quatro temperamentos (melancólico, fleumático, sanguíneo e colérico).
- Corpo Etérico: éter vital (terra), éter químico-sonoro (água), éter lumínico (ar), éter calórico (fogo).
- Corpo Astral: ele se torna expressivo pelo acordar, sentir e desejar.
- Corpo Calórico: portador do nosso “Eu”, ele se expressa pelo calor não físico, mas pelo o “calor do entusiasmo”, que segundo Steiner é o que se aproxima deste calor espiritual.

Para que o acordar esteja bem desperto e alerta é necessário que o corpo astral esteja bem engajado dentro do corpo etérico e físico.
Um pensar lerdo, confuso, obnubilado e delirante pode indicar uma relação anormal, tendente ao afastamento do corpo astral. Uma vida passional com sentimentos, sensações e emoções fortes, indica uma astralidade presente, desgastando o corpo etérico e físico.
A afetividade do corpo astral é a simpatia e antipatia, gostar ou desgostar, paixão ou aversão. O corpo astral não ama, ele deseja e apaixona. Amar é atribuição do “Eu”.
Um elemento qualitativo do corpo astral é a sua constituição planetária e zodiacal, o qual também se insere nas dinâmicas etérica e física.
Segundo Rudolf Steiner, o corpo astral pode ser imaginado como um animal predador incorporado em nós, do qual o corpo etérico é o seu alimento.
Quanto mais acordados mais astralidade e maior é o desgaste do corpo etérico. Quando dormimos, ele se retira e o corpo vital recupera as funções físicas e biológicas. O corpo astral contém o potencial adoecedor e o corpo etérico contém a revitalização.

“Eu”

Homem Superior: eu e corpo astral - onde acontece a nossa atividade anímica - espiritual.
Homem Inferior: corpo etérico - corpo físico - parte somático-orgânica.

No sono há um desligamento e na morte um desligamento total. O que sobrevive após a morte, segundo a Antroposofia, é o Homem Superior.
O “Eu” é responsável pelo senso interno de individualidade, ou seja, pelas qualidades humanas superiores (ética, aptidão para o amor, crise existencial, senso estético, curiosidade científica, especulação filosófica e religiosa).
Não se deve confundir a atuação do “Eu Humano” com o pensar. O pensar é uma função etérica, tecida de sensações e de sentimentos pelo astral. Temos o pensar através do sensorial com as leis físicas, mecânicas, esquemáticas e lógicas, enquanto que o pensar com criatividade, mais artístico, plástico, fluente, vivo, imaginativo é feito pelas forças etéricas. Através dos contos, mitos e lendas fortalecemos a nossa capacidade de imaginação, nutrindo o nosso corpo etérico através de imagens.
O Eu é apenas o direcionador e observador dos próprios pensamentos. Ativamos as lembranças através do nosso corpo astral e a memória pela força do nosso corpo etérico.
Como disse anteriormente o “EU” se revela na face, nos olhos, na postura ereta, na fala e em seu conteúdo, na dinâmica imunológica e nos conteúdos de pensamentos.

PAPEL DO TERAPEUTA

Na Antroposofia observamos que o ser humano tem em sua formação um micro-cosmo (terra, água, ar e fogo; planetas; zodíaco).
As Terapias Antroposóficas lidam com esse microcosmo complexo, que é o ser humano, onde todos os arquétipos se encontram reunidos, configurando uma constelação individualizada e centralizada por um “Eu” que percorre trajetórias biográficas singulares e tem vínculos específicos.
Caminhos terapêuticos: Terapias do “Eu”, Terapias da Alma e Terapias do Corpo.
Terapias do “Eu” (espírito, nooterapias): terapia biográfica, psicoterapias cognitivas (filosofia clínica).
Terapia da Alma: psicoterapia e terapia artística
Terapia do Corpo (somatoterapias): massagem rítmica, quirofonética, eurritmia, dietas, reorganização neuro-funcional.

O terapeuta biográfico utiliza os três tipos de terapias antroposóficas. A Terapia do “Eu” acontece quando o terapeuta convida o “Eu consciente” do indivíduo de forma afetiva e volitiva a refletir sobre a sua conduta, sobre a sua valoração, suas instâncias irracionais e inconscientes. Por meio do diálogo podemos conseguir uma interação humana eficaz criando uma atmosfera terapêutica favorável, que segundo Steiner cria uma “teia etérica”. Com isto o “Eu” do biografado é tomado de um assombro primordial de reconhecer a si mesmo, de se auto-apresentar e de se autodesafiar. E ele pode medir a distância entre o que ele é ou o que ele está sendo, e o que ele desejaria ser.
O biografado pode reconhecer que seu modo de pensar, seu sistema pessoal de valoração e de moral, seus padrões afetivos, sua conduta sobre si mesmo e sobre os outros é determinada, na verdade, por uma constelação de arquétipos: são os padrões zodiacais (corpo astral) e os planetários (corpo etérico). Ele toma consciência e racionalidade, porém necessita das forças e da capacidade de transformação interna necessária.

CASO CLÍNICO

M. F. G, sexo feminino, nasceu em 26 de outubro 1949, Minas Gerais, mãe de quatro filhos, doméstica.
Foi encaminhada à minha clínica por uma colega psiquiatra com o diagnóstico de depressão.
Tinha queixa de dores articulares e musculares. Medicamentos em uso: Florais de Bach.
Ao entrar a paciente tinha um semblante triste e pesado, um aperto de mãos fraco, mãos frias e úmidas, não me olhava, desviava o olhar e falava baixo e com pouca articulação das palavras. Sentou-se timidamente e um pouco encurvada e segurava a bolsa com muita força de encontro ao peito. Disse que estava ali encaminhada pela sua psiquiatra. Desconhecia a Medicina Antroposófica. Sentia muitas dores musculares e articulares, fazia hidroginástica, mas pensava em parar, pois as dores pioravam muito após os exercícios, tinha dores fortes no estômago e boca amarga.
Perguntei porque ela estava com a psiquiatra e ela respondeu que estava fazendo um tratamento para depressão, mas não era louca apesar dos filhos e marido acharem que sim. Ela continuou o relato dizendo que tinha perdido o entusiasmo pela vida, tinha insônia e um aperto muito grande no peito.
Passei para o exame físico, o qual estava dentro do padrão de normalidade.
Ela trouxe exames laboratoriais feitos anteriormente, estavam normais.
História patológica pregressa: depressão, gastrite, artroses de MMII, hipertiroidismo.
Hipótese diagnóstica atual: depressão.
Foi feita a conduta terapêutica e sugerido o trabalho biográfico.

2a consulta:
Houve melhora do quadro clínico e começara o trabalho biográfico de 15 em 15 dias.

3a consulta:
Resumo do primeiro setênio (0 - 7 anos):
Seus pais moravam com o avô paterno, que tinha uma pequena área rural de onde tiravam o sustento da família. Seu pai era expedicionário das Forças Armadas e sua mãe era doméstica. Na época de seu nascimento a mãe tinha 23 anos e seu pai 32 anos e era a terceira de sete irmãos.
Passou o seu primeiro setênio em uma casa simples no campo que não tinha jardim e sim horta, pomar, roça de milho, arroz, feijão, fumo, mata fechada, curral, chiqueiro e galinheiro.
“A minha infância foi quase mágica, desde bem pequena eu acompanhava meu avô para o curral onde tomava leite fresco bem espumante. Gostava de alimentar as criações com ele e me divertia milho jogando milho para os animais. Os bois recebiam milho cocho, as galinhas o milho debulhado, e para os porcos o milho debulhado era colocado de molho anteriormente”.
“A harmonia da natureza e a mudança das estações no campo eram muito marcadas e visíveis. O outono me lembrava tristeza e saudade. O inverno representava recolhimento, o dia custava mais a despontar. Na primavera a manifestação da natureza era de alegria, cores, as plantas se enchiam de flores, os pássaros ficavam alegres e cantantes. O verão era a liberdade, a leveza, a descontração e o sol mais vibrante”.
“Deus era o céu e a natureza. Tínhamos o hábito de rezar o terço em família, digo minha mãe e nós as filhas, pois meu pai sempre foi espírita. Quando eles se casaram fizeram o pacto de que os filhos seriam educados na fé da religião católica. O Deus da minha mãe era o Deus lá da Igreja de Padre João, um Deus bravo. Eu preferia o Deus da natureza. Minha mãe dizia: minha filha você tem que rezar muito porque você é muito levada. Ensinava também que Nossa Senhora é a mãe de Jesus e também nossa. Fui crescendo e logo associando que o Deus era um só e que as pessoas o viam diferente”.
“Sofria castigos e proibições, ouvia acusações injustas e não tinha o direito de falar”.
“Aos quatro anos de idade meu avô materno me trouxe para um centro maior onde fiquei internada durante três meses para uma cirurgia de amídalas, pois tinha infeções repetidas de ouvido e garganta. O meu avô e uma tia sempre me visitavam aos domingos. Meus pais não me visitaram no hospital e isto me marcou muito”.

Cena 1:
Local: hall do hospital, ela assentada segurando um pacote de biscoitos de polvilho e laranjas. À sua direita uma imagem de Nossa Senhora e à esquerda a porta do elevador. Na frente o avô e a tia.
Sentimento: eram visitas feitas aos domingos, durante três meses. Ficava muito apreensiva na esperança de ser visitada por seus pais, porém eles nunca foram.

4a consulta:
Foi feito um conto “A Pipa e a Flor” - Rubens Alves - Ed. Paulus.
Houve melhora dos sintomas clínicos. A paciente sorria ao contar a biografia, estava mais solta e feliz. Os medicamentos foram mantidos. Fez o relato do segundo setênio.

Segundo setênio (7 - 14 anos):
Foi para uma escola estadual aos sete anos de idade em Piraúba. Morava na casa de sua tia paterna Diva. Era uma aluna desatenta, mais muito ativa, costumava brincar em sala de aula. Teve noções de religião, música, pintura, arte dramática, expressão corporal e relacionamento humano.
Durante a semana na casa de sua tia tinha as tarefas de varrer o quintal, carregar água para cozinhar e beber. Na casa não tinha água encanada, mas só uma bica que vinha de um ribeirão. Nos fins de semana tinha que cuidar de seus pertences, varrer o quintal que era muito grande, descascar e debulhar milho para durante toda a semana alimentar os porcos e as galinhas.
Estava ainda muito ligada à natureza. Certa vez seu pai passou uma tarefa de descascar e debulhar o milho, mas esta não foi cumprida, pois ela foi para o campo e perdeu a noção do tempo observando os pássaros. Gostava de descobrir os ninhos e observar como eles alimentavam os seus filhotes e os ensinavam a dar o primeiro vôo e seguirem o seu próprio caminho. A sua mãe não deixou as irmãs fazerem a tarefa, quando seu pai chegou deu uma surra em todas com o relho. Então, depois do ocorrido, enterrou o relho no paiol para ninguém mais apanhar. O curioso é que sentia um certo prazer quando o seu pai batia. Gostava de vê-lo arrependido a pedir desculpas pois era o momento em que ele se dirigia a ela.
"Certa vez, em uma época de colheita e fumo, minha mãe pegou uma empreitada para tirar talos da folha de fumo. Era uma tarefa bem paga pelos agricultores da região. Eu fiz mais do que minhas irmãs. Com o dinheiro adquirido minha mãe comprou um cordão de ouro para minhas irmãs e para ela, mas eu não ganhei. Ela me disse que se eu me tornasse caprichosa ela me daria o dela e até hoje não o recebi”.
A educação religiosa continuava sendo os ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana, e o seu pai continuava espírita.
Participava da vida dos colonos ajudando-os nas tarefas pesadas como cortar lenha, cana e lavar roupa no ribeirão. Isto permitia uma alegre expansão de sua individualidade. Tinha uma preocupação com o social apesar de não ter idade para compreender.
Teve a menarca com onze anos, já tinha um corpinho de mocinha e passou ser mais vaidosa. Aos treze anos, a família foi para Juiz de Fora. Aos quatorze anos trabalhava fora de casa e o salário era entregue integralmente para mãe.

Cena 2:
Local: à margem de um rio que cortava a cidade, ficava observando as lavadeiras cantando ao lavar as roupas. Tinha crianças que se banhavam no rio. Ela ficava com os pés na água e brincava com uma vara.
Sentimento: era totalmente absorvida pelas atividades, sentia prazer e bem-estar no local.

5a consulta:
Terceiro setênio (14 - 21 anos):
O despertar sexual começou aos 12 anos se interessando por rapazes mais velhos.
Aos quatorze anos trabalhava em uma fábrica de sapatos como pespontadeira e estudava a noite. Começou a namorar e então o seu pai a fez escolher entre o estudo ou o namoro. Ela escolheu o namoro. Aos quinze anos ficou noiva. Dava uma parte do salário para a mãe e a outra parte fazia o enxoval. Trabalhar fora de casa dava-lhe a sensação de liberdade e de autonomia. Pensava em casar e construir família. Casou-se com dezoito anos. Levou como força positiva a possibilidade de construir uma família própria.

Cena 3:
Local: fábrica de sapatos onde costurava e arrematava o couro.
Sentimento: liberdade, capacidade de aprendizado.

6a consulta:
Quarto setênio (21 - 28 anos):
Não houve oportunidades para escolha de parceiro, o seu primeiro e único namorado é o seu marido e pai de seus filhos.
Após o casamento não estudava e nem trabalhava mais, apenas em casa. Pegava algumas costuras ou bordava enxoval de bebê. Estava totalmente dependente do marido. Só teve uma certa independência no período de 15 a 18 anos.

“Este período foi muito bonito e de muita realização como mulher. Engravidei do meu primeiro filho em 1971 após um longo tratamento de trompas obstruídas, e depois de Andréa em 1973. Eu me realizava com os papéis de dona de casa, de esposa devotada e de mãe educadora. Mas com o passar do tempo percebi que estava perdendo minha identidade. Quando meus dois primeiros filhos foram para o Jardim de Infância, senti um grande vazio, pois eles começaram a depender menos de mim. Procurei preencher o meu tempo, mas não sentia apoio do meu marido. Ele dizia que mulher dele seria para cuidar dele, dos filhos e da casa. Sempre fui religiosa, então comecei a participar de movimento religiosos, visitar doentes nos hospitais, mas tinha quer ser rápido, pois meu marido controlava a minhas saídas de casa e até para visitar minha mãe eu tinha que pedir sua permissão”.
Em 1976 sofreu um acidente de carro com a família. Até hoje culpa o marido por estar, no momento do acidente, discutindo com ela. A partir do acontecimento perdeu a confiança que tinha no marido. “A minha relação com ele sempre foi conflituosa, pois tem um gênio dominador e agressivo”. Começou a pensar em mudanças. Não queria ser mais uma boneca de porcelana e sim uma mulher de verdade.
Nesta época foi diagnosticado um hipertiroidismo que foi tratado em seguida.

Cena 4:
Local: maternidade
Sentimentos: grande alegria, preenchida pela maternidade.

7a consulta:
Quinto setênio (28 - 35 anos):
Em 1978 engravidou novamente, mas perdeu a gravidez após um resfriado muito forte. O fato a deixou muito deprimida e com um grande vazio.
Desejou ter mais filhos, mesmo contra a vontade de seu marido. Em 1979 engravidou e teve o seu terceiro filho, mas continuava deprimida e oprimida por ele.
“A relação com o meu marido continuava conflituosa. Se eu fosse boazinha concordando com tudo sem ter opinião própria estava tudo perfeito. Comecei a perder a minha identidade. A relação com os filhos era boa.
O conceito de amor era muito confuso. Quando penso no amor fraterno um amor de família, amor de mãe ou até mesmo no amor de esposa, percebo que eu tenho esse amor e dou esse amor; mas desejava um amor que me completasse, um amor mais livre."
Continuava exercendo a profissão de costureira em casa. Neste período foi voluntária no serviço de Pediatria em um hospital.
Teve o quarto filho.

Cena 5:
Local (Vivências): perda da maternidade, desencontros com o marido.
Sentimentos: angústia, depressão e decepção.

8a consulta:
Sexto Setênio (35 - 42 anos):
Sentia um grande vazio que relacionava ao período pré-menstrual.
"As pessoas sempre me achavam alegre e solta, eu sou, porém às vezes esta situação não é verdade, aparento uma alegria que não existe. Tenho que manter uma aparência de forte e sou muito severa comigo."
Voltou trabalhar fora no período de 1986 a 1989, mas não deu certo. O marido tinha aposentado nesta época e ficava em casa. Voltou a trabalhar em casa e estudar a noite, mas também parou. Atualmente trabalha em casa com a profissão de costureira e tem um espaço físico reservado para isto.
Relata ter perdido o controle da educação dos filhos.
Fez tentativas de conquistar liberdade, mas não conseguiu.

Cena 6 :
Local: (Vivências) busca da liberdade
Sentimentos: aprisionamento, não realização de si.

9a consulta:
Sétimo setênio (42 – 49 anos):
Aos quarenta dois anos sentiu um vazio maior e uma frustração muito grande. Não queria mais lutar, não acreditava mais em si e nos outros e entrou em um período de resignação.

Cena 7 :
Local: (Vivências) peça única, com duas faces refletidas
no espelho.
Sentimento: dualidade.

10a consulta:
Após fechamento do processo biográfico pedi a paciente para fazer uma representação de si na argila, de como gostaria de ser.
Ela fez um rosto e disse exclamando: “Parece com o meu marido!!!”
A partir deste momento paciente tomou consciência do seu processo, e da necessidade de buscar a sua individualidade.
Continuou o tratamento por algum tempo fazendo o Aconselhamento Biográfico.

CONCLUSÃO DO CASO CLÍNICO:

Considerações sobre a depressão segundo a Medicina Antroposófica:
Se entendermos o fígado como instrumento da vida anímica da índole deve ser considerado que toda vivência triste e não elaborada pesa sobre o fígado, tudo fica muito pesado e difícil.
Surgem distúrbios hepáticos como pressão e empachamento, gosto amargo, cólicas biliares.

Formas de depressão:
1- Depressão endógena: a alma não consegue vibrar com a vida e os processos hepáticos ficam estagnados.
2- Depressão reativa: o fígado reverbera a vivência anímica.
3- Depressão por esgotamento: desgaste do corpo físico levando ao desgaste etérico.
4- Depressão puerperal
5- Depressão climatério
6- Depressão involutiva: esclerose cerebral

Metamorfose da alma da sensação, intelecto-afetiva e da consciência:
Alma da sensação: metamorfose do corpo astral (querer) pelo Eu, atuando no sistema urogenital.
Alma intelecto-afetiva: metamorfose do corpo etérico (sentir) pelo Eu, atuando no sistema hepato-biliar.
Alma da consciência: metamorfose do corpo físico (pensar) pelo Eu, em um pensar cognitivo.

Fonte:http://www.formacaobiograficamg.com/antroposofia.php


Ciência Espiritual ~ Textos de Rudolf Steiner.




Antroposofia também chamada de "ciência espiritual" , ("conhecimento do ser humano") é uma filosofia e uma prática que foi erigida por Rudolf Steiner.


"um caminho de conhecimento para guiar o espiritual do ser humano ao espiritual do universo."

"O artista não traz o divino para a terra deixando-o fluir para dentro dela, e sim apenas elevando o mundo para a esfera divina".------------------------------- 
"O belo não é o divino em sua vestimenta sensoriamente real; não, é o sensoriamente real em sua vestimenta divina".

-------------------------------
"Na flor a lei vegetal atinge sua suprema manifestação, sendo a rosa apenas o ápice desse fenômeno".
------------------------------
"Aquele a quem a Natureza começa a desvendar seu segredo manifesto
experimenta um anseio irresistível por sua intérprete mais digna: a Arte".

------------------------------
"O conteúdo da Arte é o mesmo da Ciência, pois ambas têm por fundamento a eterna verdade, que é ao mesmo tempo beleza".
-------------------------------
"Toda beleza sensória é apenas um reflexo pálido daquela beleza infinita que jamais podemos perceber com os sentidos".
-------------------------------

"Nós desaprendemos de ver na simples Natureza o sumo bem pelo qual nosso espírito anseia".


Rudolf Steiner


Textos de Rudolf Steiner


Rudolf Steiner
Todos os textos de Rudolf Steiner foram gentilmente cedidos pela Sociedade
Antroposófica do Brasil, e podem ser copiados
para leitura própria. 
É proibida a reprodução para comercialização.
Para saber mais acerca da Antroposofia e seu fundador, Rudolf Steiner, clique nos links:
http://www.sab.org.br
http://www.sab.org.br/antrop/antrop.htm
http://www.sab.org.br/edit/nocoes/ 
Os textos abaixo: "O Mistério de Micael", fazem parte da apostila "Máximas Antroposóficas - O Mistério de Micael (2ª parte de GA-26)".
Esta apostila e também a outra aqui publicada "A Missão de Micael", estão disponíveis para compra na Sociedade Antroposófica do Brasil. 
Sociedade Antroposófica no Brasil
Rua da Fraternidade, 156
Alto da Boa Vista, Sto. Amaro
04738-020 São Paulo, Brasil
Tel. +55 (11) 5687-4252, 5523-0537
sab@sab.org.br



Fonte:
http://seresdeluz.portaldosanjos.net/2013/05/ciencia-espiritual-textos-de-rudolf.html