SOBRE A MEDICINA TIBETANA

Medicina Tibetana
O princípio da Medicina Tibetana diz que tudo o que seja benéfico é medicina, e o que quer que traga infelicidade ou cause problemas é doença.
Todas as doenças que experienciamos no nosso corpo têm uma condição e uma causa. Existem quatro condições: clima desequilibrado, alimentação desequilibrada, comportamento do corpo e as bactérias. São estas quatro condições que fazem com que a doença não manifestada, se manifeste. Diz-se que todas as doenças são, primeiramente, não manifestadas. Pois as qualidades da doença já existem no corpo, mas são as quatro condições que fazem com que esta se manifeste.
Existem três causas de doença: ignorância, apego e raiva. Nós temos sempre estas três emoções não manifestadas. Quando estas se manifestam, causam doença física.
Assim como, quando as doenças físicas se manifestam, manifestam-se também as doenças mentais, que são as três emoções. Portanto, corpo e mente são interdependentes; afectam-se um ao outro.
Quando uma parte não está bem, afecta a outra. Quando a mente está em desequilíbrio isto afecta o corpo, e vice-versa. Além disto, se as condições exteriores – as quatro condições mencionadas acima – saírem do equilíbrio, também alterará o nosso equilíbrio físico. Uma mudança no equilíbrio físico afecta o equilíbrio da mente, são interdependentes. Assim sendo, se quisermos ter um corpo saudável e uma mente feliz temos que ter cuidado. Temos que cuidar os três níveis: os factores externos, o corpo e a mente.
Na Medicina Tibetana, todas as doenças são relacionadas com a bílis, fleuma e vento no corpo.
Bílis é o elemento fogo, Fleuma combina os elementos terra e água e o Vento é o elemento vento. Basicamente, todas as doenças – tudo - estão ligadas a estes elementos.
Adicionalmente, os tipos de doenças da Bílis, Fleuma e Vento estão ligados às três emoções negativas. A Bílis está relacionada com a raiva, a Fleuma está relacionada com a ignorância e o Vento está relacionado com o apego.
Em conclusão, o princípio da Medicina Tibetana diz que toda a doença é ignorância e que a derradeira Medicina é a sabedoria.

Fonte:http://www.tulkulamalobsang.org/index.php?page=knowledge&menu=medicine&lang=pt

Sobre medicina tibetana

 A medicina tibetana é parte importante da medicina tradicional chinesa, acumulando ricas experiências e práticas pelas etnias tibetanas ao longo de sua história. A medicina tradicional tibetana é difundida principalmente no Tibete, nas províncias de Qinghai, Sichuan, Gansu, bem como na Índia e no Nepal.
A medicina tibetana nasceu no planalto Qinghai-Tibete com características muito regionais e naturais. Situado na faixa muito fria e com difícil acesso ao exterior, a medicina tibetana mantém suas próprias especialidades. Por exemplo, com menos animais, a medicina tibetana usa mais plantas e ervas resistentes ao frio, naturais de grandes altitudes e com ar rarefeito.
 No Tibete, o budismo é a religião mais popular, sendo uma força espiritutal, razão pela qual a medicina tibetana implica um toque de budismo tibetano.    
Teorias fundamentais da medicina tibetana
Nas atividades de produção e na vida cotidiana, a medicina tibetana tem se formado seu próprio sistema teórico.

Doutrina de três humores:

Segundo a doutrina da medicina tibetana, no corpo humano existem três humores: o pneuma, na bacia e na cintura pélvica; a bile, na parte média do tronco, mais particularmente no fígado e na vesícula biliar; a fleuma, no cérebro; sete matérias mais importantes - sangue, carne, medula, esperma, ossos, gordura e digestão; e três evacuações - urina, fezes e suor. Os três fatores importantes sustentam  a movimentação dos 7 matérias e 3 evacuações. Esses três ramos se apóiam, se restringem e se equilibram. Quando um dos três encontrar-se numa fase fraca ou mais forte, a pessoa poderá ficar doente, Por isso, o equilíbrio entre os três é importante.
       Segundo a medicina tibetana, as doenças são causadas por desequilíbrio entre os primeiros três humores, que prejudica a vitalidade do homem. Por isso, o tratamento e a cura se baseiam na procura da harmonia entre os três humores.

Anatomia e micro-organismos

Devido à cultura e tradições diferentes, a anatomia tibetana fornece uma descrição quantificada do que deve ser um organismo perfeitamente constituído.
Além disso, avalia-se que o corpo é povoado cinco grandes órgãos, como coração, fígados, baços, pulmão e rins, além de intestinos, estômago, bexiga e visícula biliar. A medicina tibetana antiga ainda toma o coração como o Rei de um estado, pulmão como ministro, fígado e baço como concubinas e estabelece um íntimo relacionamento entre eles. Uma parte deles participa da vida do organismo, consumindo certas matérias; outra parte encontra no corpo apenas seu hábitat, do mesmo modo que a casa onde moramos; outra parte ainda, por causa de seu karma, deve realizar todo tipo de funções. Qualquer que seja a categoria, estamos ligados a eles e sofremos com os distúrbios que os afetam.
 Por isso, a medicina tibetana antiga já contava com ricos conhecimentos do corpo humano.

Métodos terapéuticos da medicina tibetana

Tratamentos
Na medicina tibetana, para tratar as doenças recorre-se a diferentes técnicas, mas emprega-se, principalmente, medicamentos. O Buddha disse que não há substância sobre a terra, mineral, vegetal ou animal que, quando utilizada com habilidade, não possa servir como remédio. Há dezessete maneiras de preparar as substâncias medicinais: em pílulas, em pó, em ungüentos, em infusões, em decocções, misturadas à tsampa, etc.
Acupuntura a moxibustão
Passar remédio em partes do corpo a fim de tirar dores ou curar inflamações.
Banhos terapêuticos com águas minerais 

 
Fonte:http://portuguese.cri.cn/chinaabc/chapter13/chapter130602.htm




A Medicina Tibetana


As cinco ciências

O Buddha, por sua onisciência, possuía a visão completa do que
poderia ser útil para os humanos e do que poderiam compreender.
Nessa perspectiva, enunciou as "cinco grandes ciências tradicionais":
• a gramática, mais particularmente, a gramática sânscrita;
• as artes: pintura, escultura, etc;
• a lógica que, pelo raciocínio, permite estabelecer a validade de
uma teoria, filosófica ou espiritual: no Tibet, o mosteiro de
Ganden, perto de Lhassa, era o grande detentor desta ciência,
sendo o debate um de seus exercícios fundamentais;
• a medicina;
• a ciência do "sentido interior", isto é, o Dharma.
Uma medicina revelada
A medicina tradicional budista foi revelada pelo Buddha quando morava no sul da Índia, no
monte Malaya, em uma região reputada pela abundância de suas plantas medicinais, sobretudo
a arura. Ele tomou, então, a forma de Sangye Menla (sânsc. Bhaishajya Guru, o "Buddha da
Medicina"), depois criou duas emanações, sob a aparência de dois rishis vestidos de branco: de
seu coração saiu o rishi "Sabedoria da Ciência", que ficou pairando no espaço, e de sua
garganta, "Nascido da Mente", que se sentou no chão em frente ao precedente.

"Nascido da Mente", em seguida, apoiou um dos joelhos no chão, juntou as mãos, pediu a
"Sabedoria da Ciência" que concedesse, para alívio de todos os seres que sofrem, a exposição da
ciência médica. Aceitando este pedido, o rishi que estava no céu enunciou, então, os Quatro
Tantras de Medicina, incluindo os oito ramos da terapêutica.
As doenças e a mente
Podemos atribuir a tudo que é produzido no mundo uma qualidade que chamaremos "divina" ou
"demoníaca". O que é benéfico, útil e bom possui a qualidade divina: ao contrário, a qualidade
demoníaca pertence ao que é nefasto e destrutivo. A própria qualidade divina apresenta dois
aspectos: o "divino temporal" a o "divino extra-temporal". O primeiro agrupa o que é benéfico,
no âmbito das necessidades desta vida; o segundo aplica-se à presença e à influência dos
Buddhas, dos bodhisattvas, ou dos yidams. A medicina inscreve-se simultaneamente no quadro
do divino temporal e do divino extra temporal.

Nosso organismo é submetido a uma grande variedade de doenças que provocam inúmeros
sofrimentos. Sua causa primeira é a noção de ego, noção à qual nós nos assimilamos. O Buddha
dizia: "A assimilação a um eu é nosso maior inimigo no universo", nosso maior inimigo por ser a
causa de todos os nossos sofrimentos. Sobre a noção de "eu", implanta-se a noção de "outro"
que causa, por sua vez, duas reações: o apego, se o outro é percebido como agradável ou
gratificante, e a aversão, se ele é percebido como ameaçador ou desagradável. Além disso, pelo
fato de não reconhecermos a natureza vazia da situação, de a tomarmos por real,
permanecemos, também, na cegueira. Apego, aversão e cegueira formam, assim, o tecido de
nosso comportamento.

Por intermédio do corpo, a medicina aplica-se à mente. Suponham que vocês sofram de uma
doença na mão, muito dolorosa. A mão não sente dor; é a mente que a sente e pensa: "Eu
sofro". Assim, cuidar da mão é aliviar a mente. Suponham, agora, que sua mão foi amputada. A
própria mão não sente mais nada, pois ela não tem mais nenhuma conexão com a mente.

As doenças afetam o corpo e a mente; mas como o corpo é apenas uma produção da mente, é
ela, sobretudo, que está implicada. A assimilação a um "eu" é a fonte de todas as nossas
dificuldades e de todos nossos sofrimentos. Sem ela, a noção de doença torna-se caduca.

Os três humores

"Eu", apego, aversão e cegueira nada mais são que a mente funcionando sob um modo
chamado "consciência individualizada", podendo ser também considerada como a força vital ou a
"grande energia sutil" (tib. lung, sânsc. prana). Quando essa mente-prana se encontra no bardo
e aproxima-se de um nascimento humano, ela vê os futuros pais unirem-se e, sob a força do
desejo, entra na matriz.

Quando o corpo se desenvolve, as três emoções conflituosas que vimos — apego, aversão e
cegueira — servem de base à formação de três humores: pneuma, bile e fleuma. As três
emoções podem ser consideradas, portanto, como uma causa e os três humores como um
resultado. Conseqüentemente, um organismo plenamente formado é animado por esses três
humores, cada um localizando-se em uma região do corpo:
• o pneuma, na bacia e na cintura pélvica;
• a bile, na parte média do tronco, mais particularmente no fígado e na vesícula biliar;
• a fleuma, no cérebro.
As doenças, no contexto da medicina tibetana, são consideradas como provocadas por uma
disfunção desses três humores, que pode ser de três tipos: excesso, insuficiência ou
perturbação, este último termo indicando que um dos humores tende a governar uma região do
corpo que normalmente fica sob a influência de um outro humor. O distúrbio dos humores pode
afetar apenas um deles, às vezes dois ou três ao mesmo tempo.
Anatomia e micro-organismos
A anatomia tibetana fornece uma descrição quantificada do que deve ser um organismo
perfeitamente constituído: um peso equivalente a 300 mancheias de carne (a medida é
específica à pessoa concernida), 900 ligamentos, 16 tendões, 72 mil canais sutis, 360
articulações principais, etc.

Além disso, avalia-se que o corpo é povoado por 84 mil microorganismos. Uma parte deles
participa da vida do organismo, consumindo certas matérias; outra parte encontra no corpo
apenas seu hábitat, do mesmo modo que a casa onde moramos; outra parte ainda, por causa de
seu karma, deve realizar todo tipo de funções. Qualquer que seja a categoria, estamos ligados a
eles e sofremos com os distúrbios que os afetam.

A prática do nyung-ne implica um jejum completo — alimento sólido e líquido — de vinte e
quatro horas, jejum que é interrompido pela manhã com uma sopa muito leve. Essa sopa é, de
fato, prescrita pelos textos para proporcionar um alívio apropriado aos micro-organismos que
podem ter sofrido com o jejum.
Tipos de doenças
Enumeramos 404 tipos de doenças principais, repartidas em quatro grupos:
• 101 doenças benignas, que são curadas por si mesmas se lhes damos um pouco de
atenção, ou que necessitam de um tratamento muito simples;
• 101 doenças devidas aos espíritos malignos, tratadas ao mesmo tempo pela medicina e
por rituais específicos;
• 101 doenças graves que, quando tratadas adequadamente pela medicina, podem ser
curadas, mas que de outra forma leva à morte;
• 101 doenças devidas a um karma que atinge a plena maturidade; são o resultado de
karma de vidas passadas de modo que os remédios não têm nenhum efeito sobre elas.

Os oito ramos da medicina

Diante deste conjunto de 404 tipos de doenças, o Buddha revelou uma medicina tradicional
dividida em oito ramos:
• patologia geral;
• pediatria;
• ginecologia;
• demonologia;
• toxicologia;
• traumatologia;
• geriatria;
• rotsawa.
O primeiro ramo, a patologia geral, trata do diagnóstico e do tratamento das doenças que
afetam o organismo, não sendo classificadas em nenhuma das categorias dos outros sete ramos.
O segundo, a pediatria, trata das doenças da primeira infância. O terceiro, daquelas que são
específicas da condição feminina. O quarto, daquelas que são causadas pelos diferentes espíritos
malignos. O quinto, das perturbações causadas pelos venenos, naturais ou preparados pelo
homem. O sexto, mais especialmente dos ferimentos infligidos pelas armas. O sétimo, da
patologia associada à velhice. O oitavo, enfim, rotsawa, trata de certos estados de anemia.
Considera-se que esses oito ramos englobam todos os casos possíveis.

Embriologia

A medicina tibetana compreende também uma embriologia bastante desenvolvida. Antes do
nascimento, a mente permanece no bardo e possui um corpo mental que proporciona às
faculdades mais flexibilidade que a um corpo físico. Graças a isso, ela vê seus futuros pais
unirem-se, o que desencadeia reações emotivas. Se ela estiver destinada a renascer como
homem, experimentará atração por sua futura mãe e aversão por seu futuro pai; se estiver
destinada a renascer mulher, sentirá, ao contrário, atração por seu futuro pai e aversão por sua
mãe. Pela força do karma, e ao mesmo tempo sob a influência dessas emoções, assim como um
imã atrai uma agulha ou o ouvido percebe um som, a mente entra, então, instantaneamente na
matriz. A concepção é, portanto, a reunião de três componentes: o esperma do pai, o óvulo da
mãe e a mente do bardo. Existe, entre esses componentes, uma certa estrutura comum, na
medida em que tanto a mente como os dois suportes materiais incluem os cinco elementos na
sua natureza.

Em seguida, o embrião começa a desenvolver-se. Na primeira semana, sua consistência é
comparada a do queijo fresco mole, depois ele endurece, a carne e os ossos são formados, a
cabeça distingue-se do corpo, assemelhando-se, inicialmente, a de uma formiga, depois os braços, as pernas e os órgãos genitais, como explica em detalhes o Sutra dos Cinco Relicários.
Os sofrimentos do embrião são considerados muito grandes: quando os membros aparecem, ele  sente a mesma dor de alguém que sofreu o suplício do esquartejamento; quando os orifícios dos
olhos e das orelhas são desenhados, é como se perfurássemos seu corpo. Não poder se mexer,
não ver nada, sentir um calor ou um frio excessivos são outros incômodos suplementares.

Quando a hora do nascimento se aproxima, sob o efeito dos ventos interiores, o feto
experimenta um grande pavor e vira-se. Finalmente, o nascimento propriamente dito é muito
doloroso. Não guardamos sua lembrança, mas, sem ter que nos remeter à exposição dos sutras,
sabemos bem que os bebês nascem gritando ou chorando. Pessoalmente, nunca vi nenhuma
criança vir ao mundo rindo.

O diagnóstico

O estabelecimento de um diagnóstico pressupõe que se leve em consideração, inicialmente, a
parte do corpo afetada. Realiza-se, em primeiro lugar, uma divisão em sete partes: os quatro
membros, a cabeça, a parte inferior do tronco e sua parte superior. Diagnosticar uma doença
que afeta uma dessas sete partes é relativamente fácil. As coisas são mais complexas quando se
trata dos órgãos internos, repartidos em dois grupos: os seis órgãos ocos e os cinco órgãos
cheios. Três métodos são, então, empregados para estabelecer o diagnóstico: a observação, a
apalpação do pulso e o interrogatório.
A observação limita-se aqui ao exame visual da língua e da urina. O interrogatório consiste em
perguntas sobre as circunstâncias exteriores, o clima ou a alimentação que podem ter causado a
doença.

Observação da língua

Uma língua vermelha, grossa e com falta de flexibilidade, indicará uma perturbação do pneuma.
Uma doença que afete a bile dará uma cor alaranjada à língua. Uma língua estriada, cinzenta,
apresentando excesso de saliva, será o sinal de um desequilíbrio da fleuma. O exame da língua
oferece, assim, indicações preciosas, que é completado, de uma maneira muito útil, pela
observação da urina.

Observação da urina

Só se deve analisar a urina do paciente se ele estiver em jejum, pois o consumo recente de
bebida ou de alimento perturbaria o diagnóstico. Três elementos são levados em consideração
na urina: a cor, os sedimentos e a espuma. A observação desta última serve, principalmente, no
caso de doenças que supomos terem a influência de um espírito maligno. Ela permite
determinar, então, de qual categoria de espírito se trata. Para isto, pedimos ao paciente para se
virar para o leste e urinar em uma vasilha sobre a qual foram entrecruzados quatro bastões,
delimitando nove espaços. Se as bolhas sobem rapidamente para a superfície e estouram
fazendo um pequeno barulho seco, isto confirma, em primeiro lugar, a atividade de um espírito
maligno; em segundo lugar, o local onde sobem no tabuleiro formado pelos bastões indica qual
categoria de espírito provoca a doença.

O exame do pulso

Quando procedemos à apalpação do pulso, é necessário levar em conta um certo número de

fatores que, negligenciados, levam a erros no diagnóstico. É preciso saber, em primeiro lugar,
que cada indivíduo possui naturalmente um pulso que pode ser de três qualidades: masculino,
feminino ou de "mente do Despertar", isto sem relação direta com o sexo ou a elevação
espiritual da pessoa. A estação do ano também veicula características significantes, relacionadas
aos quatro elementos: terra, água, fogo, ar. Cada estação compreende 90 dias, sendo que os 18
primeiros são influenciados pelo elemento terra e os outros 72 dias seguintes são
sucessivamente marcados por cada um dos outros elementos. É preciso que o médico saiba, no
momento da apalpação, qual elemento dominante exerce uma influência sobre o pulso, a fim de
evitar qualquer interpretação errônea.

Os três pulsos de base

O pulso de tipo masculino é caracterizado por batimentos
potentes e bruscos. Se não for reconhecido como tal, o
médico poderá pensar erroneamente que seu paciente está
atingido por um problema no sangue. Um pulso feminino
apresentará batimentos mais fracos e mais rápidos. Mal
interpretado, levará a pensar em um distúrbio da bile. Quanto
ao pulso "mente do Despertar", lento e regular, poderia
indicar uma doença da fleuma.

A qualidade de base do pulso, excetuando-se toda consideração de natureza patológica, oferece
um certo número de indicações de ordem geral. Diz-se, por exemplo, que um homem dotado de
um pulso feminino terá, sem dúvida, uma vida longa, uma mulher com pulso masculino poderá
ter muitos filhos, a maior parte homens. Quando um casal, homem e mulher, possuem mesmo
tempo um pulso tipo "mente do Despertar", terão relações harmoniosas com seus superiores,
mas mais difíceis com seus subordinados. É provável, além disso, que não tenham filhos.

Uma das primeiras indicações dadas pelo pulso vem de sua relação com a respiração.
Idealmente, uma respiração deve corresponder a cinco pulsações. Um batimento superior a isso
indicará uma doença chamada de "quente"; inferior, uma doença "fria".
Exame dos órgãos pelo pulso
Todavia, a apalpação do pulso permite obter indicações muito mais significativas. Para essa
operação, o médico utiliza três dedos de cada mão: o indicador, o médio e o anular. Cada dedo
possui dois pontos de apalpação, a parte superior em relação aos órgãos cheios e a parte
inferior em relação aos órgãos ocos. Portanto, chagamos a um total de doze pontos de
apalpação — sobre a artéria radial — correspondendo a doze órgãos.

Quando, inicialmente, o médico toma com sua mão esquerda o pulso direito do paciente, ele
obtém informações sobre os seguintes órgãos:
• indicador
o superior: pulmões
o inferior: intestino grosso
• médio
o superior: fígado
o inferior: vesícula biliar
• anular
o superior: rim direito
o inferior: bexiga Depois, com a mão direita, tomando  o pulso esquerdo, ele examina o funcionamento dos órgãos
restantes:
• indicador
o superior: coração
o inferior: intestino delgado
• médio
o superior: baço
o inferior: estômago
• anular
o superior: rim esquerdo
o inferior: samtseu
A artéria radial é chamada "artéria física", mas o médico pode apalpar também a artéria cubital,
chamada "artéria divina", para indicações de ordem geral. Se puder, por exemplo, contar até
cem batimentos sem notar nenhuma alteração do ritmo, ele deduzirá que a pessoa terá
provavelmente uma vida muito longa e uma saúde muito boa. Ao contrário, irregularidades —
sejam pausas ou grupos de batimentos mais rápidos — indicarão, segundo o caso, doenças
futuras, perturbações causadas por espíritos malignos ou acidentes. Em um nível mais sutil
ainda, o médico pode tomar o que chamamos o "pulso secreto", graças ao qual, tateando o
pulso de um filho ou de uma filha, é capaz de conhecer o estado de saúde do pai ou da mãe, ou,
inversamente, qualquer que seja a distância que os separe.

Essas últimas indicações, derivadas unicamente da apalpação do pulso podem nos parecer
inacreditáveis. Entretanto, elas são possíveis pelo fato de que os fenômenos não existem de
maneira independente, mas estão interconectados.

Quando se examina o pulso das crianças para determinar o estado de saúde dos pais, o
examinamos em um ponto que corresponde aos pulmões. Por outro lado, quando se quer saber
sobre a saúde dos filhos apalpando o pulso dos pais, examina-se um ponto que corresponde ao
coração. Isto, porque os sentimentos dos pais são mais fortes em relação a seus filhos que o
contrário, o coração, mais sensível, implicando uma relação mais estreita que o pulmão, um
pouco como reagimos mais vivamente a uma picada no olho do que a uma picada na orelha.
Os tratamentos
Na medicina tibetana, para tratar as doenças recorre-se a diferentes técnicas, mas emprega-se,
principalmente, medicamentos. O Buddha disse que não há substância sobre a terra, mineral,
vegetal ou animal que, quando utilizada com habilidade, não possa servir como remédio. Há
dezessete maneiras de preparar as substâncias medicinais: em pílulas, em pó, em ungüentos,
em infusões, em decocções, misturadas à tsampa, etc.

Às vezes, são empregadas metáforas para descrever o uso de um medicamento. Se ele é
utilizado sozinho para curar uma doença, nós o chamamos "herói", em analogia ao guerreiro que
enfrenta sozinho um grupo de inimigos. No caso de uma febre simples, a cânfora desempenha,
então, a função de herói. Por outro lado, algumas combinações de remédios são chamadas "o rei
e seus ministros". É o caso, por exemplo, de um remédio chamado "agar 35", composto de uma
substância principal (o rei) acompanhada de trinta e quatro componentes secundários (os
ministros).
 A substância mais conhecida da medicina budista é a arura, planta em que cada parte é
considerada dotada de virtudes curativas específicas:
• as raízes para os ossos;
• o tronco para os músculos;
• os ramos para as articulações;
• a casca para a pele;
• as folhas para os órgãos ocos;
• os frutos para os órgãos cheios.
Cinco espécies de arura são utilizadas na medicina. Elas possuem dezessete qualidades: seis
sabores, oito potências, três virtudes gerais. Dessa forma, elas servem como remédio em
praticamente todas as doenças.

O giwang, concreção extraída de alguns órgãos do elefante, é considerada como a rainha das
substâncias oriundas do mundo animal. Ela possui a faculdade de agir não somente sobre os três
humores, mas também sobre as três emoções conflituosas, que são sua raiz.

Além da farmacopéia, a medicina tibetana utiliza, em alguns casos, as sangrias, que podem ser
praticadas em 72 pontos diferentes, ou aplicações quentes sob formas variadas — com madeira,
ferro, cobre ou pedras quentes — classificadas em 360 pontos. No Tibet, também existia um
pouco de cirurgia, que permaneceu rudimentar por falta de meios técnicos.
Unidade fundamental das medicinas
Embora a medicina tradicional budista seja considerada como uma revelação feita pelo Buddha,
isto não significa que ela não considere o valor das outras medicinas. Muito pelo contrário, ela as
vê como sendo também inspiradas pelo Buddha em intenção daqueles que têm uma outra fé —
por exemplo, a medicina ayurvédica na cultura védica da Índia —, ou mesmo em intenção dos
ateus. Nesse sentido, a medicina ocidental moderna permanece ligada à atividade da compaixão
do Buddha, da qual ela é uma expressão.

Médico e doente

A possibilidade de curar uma doença depende de muitos fatores, por exemplo, a disponibilidade
dos remédios. Todavia, diz-se que um dos fatores essenciais é a conexão kármica que liga o
médico e o paciente. Se for boa, desempenhará um papel muito importante no estabelecimento
do diagnóstico correto e na eficácia do tratamento. Se for ruim, ela não permitirá que uma
relação terapêutica eficaz possa surgir.

A medicina é uma das cinco grandes ciências tradicionais enunciadas pelo Buddha. Ela pertence
simultaneamente às ciências temporais e à ciência espiritual que é o Dharma. É espiritual na
medida em que aquele que a exerce, tendo reconhecido que todos os seres foram seus pais nas
vidas passadas, tem como motivação liberá-los dos sofrimentos. Guiado pela compaixão, ele
segue assim o ensinamento fundamental do Budismo e une em sua pessoa a atividade temporal
e a atividade espiritual. Aquele que, em contrapartida, só busca na medicina lucro ou
celebridade, exerce apenas seu lado temporal, sem nenhuma implicação espiritual. O Buddha
disse que a qualidade positiva ou negativa de uma ação depende de fato da motivação daquele
que age.
Uma mão com dois gumes Um médico famoso, que cuida de muitos doentes, às vezes ganha muito dinheiro o que
segundo o Buddha é totalmente legítimo, sobretudo se ele utilizar seus ganhos no
aperfeiçoamento de sua arte e proporcionar, assim, um bem sempre maior a seus pacientes.
Quanto ao paciente, diz-se que ele deve se mostrar generoso, tanto quanto possa, com relação
a seu médico; é um dever de reconhecimento que tem com aquele que lhe evita muitos
sofrimentos, inclusive que lhe salva seu bem mais precioso: a própria vida. Isto não significa,
entretanto, que um médico deva recusar um paciente que não possa pagá-lo. Muito pelo
contrário, ele tem o dever, não somente de cuidar gratuitamente dos indigentes, mas de lhes
dar dinheiro para que possam comprar os medicamentos necessários. Agindo por amor e
compaixão, ele cumpre plenamente seu papel.
O médico tem uma responsabilidade na cura dos pacientes, mas ela depende dos limites
humanos. Um provérbio tibetano diz:
Mostre-me uma mão que suprimiu vidas:
A de um médico.
Mostre-me uma mão que salvou cem vidas:
A de um médico.
Dois fatores determinam e circunscrevem a responsabilidade de um médico: sua motivação e
sua competência. Por um lado, ele deve ser movido por uma real solicitude, mediante a qual
coloca em ação todos os meios ao seu alcance; mas é preciso que possua também
conhecimentos médicos completos, adquiridos graças a sólidos estudos seguidos até seu
término. Possuindo essas duas qualidades, ele não comete ato negativo mesmo se o paciente
morrer. Sua atitude mostrou-se inteiramente boa e seu ato só pode ser virtuoso. Aquele que, ao
contrário, não cuida corretamente de um doente, porque lhe falta compaixão, ou porque não
possui a formação necessária, fazendo acreditar indevidamente em suas capacidades, comete
um ato negativo grave.
O médico competente que age por amor segue plenamente o ensinamento do Dharma. Ele
pratica ao mesmo tempo o dom do amor e o dom da segurança, de modo que seu exercício da
medicina não poderia ser mais eficaz.

O Buddha da Medicina

O aspecto espiritual da medicina ainda é ressaltado pela prática de Sangye Menla, o Buddha da
Medicina. Incluindo a visualização de seu corpo, a recitação de seu mantra e de seu nome, ela é
considerada como uma das ajudas mais eficazes no tratamento das doenças físicas ou mentais.
Além disso, operando uma purificação de nosso karma, assim como uma diminuição de nossas
emoções conflituosas, ela impede a manifestação de doenças em nossas vidas futuras.

Considera-se que Sangye Menla formulou aspirações muito poderosas para o bem dos seres, de
modo que o simples fato de ouvir seu nome basta para evitar o renascimento nos mundos
inferiores. Aquele que ora a Sangye Menla verá o apego, a aversão e a cegueira diminuírem.
Como esses três venenos são a causa fundamental das doenças, sua supressão dará
automaticamente resultado, a eliminação da própria doença.

Os efeitos que resultam da prática de Sangye Menla dependem da maneira como a abordamos.
Se orarmos a Sangye Menla e se efetuarmos sua meditação para que nós mesmos e todos os
seres possam ser definitivamente liberados de todos os sofrimentos, os efeitos serão, no final,
tão grandes quanto nossa motivação. Mas nada impede, quando uma doença atinge um ponto
particular de nosso organismo, que visualizemos Sangye Menla recitando seu mantra sobre a
parte dolorida, e que imaginemos que seu corpo emite um raio luminoso que dissolve a doença como o sol que se levanta dissipa a geada da noite. Isto também, numa ótica mais restrita, será muito benéfico.

Os sutras que tratam de Sangye Menla dão uma idéia do poder de seu mantra e de sua
meditação, explicando que aquele que tiver cometido atos negativos graves, como a violação de
uma ordenação monástica ou a transgressão dos engajamentos do vajrayana, e que realizar a
prática de Sangye Menla, cairá, em um primeiro momento, nos mundos inferiores, mas, em um
segundo momento, pela graça de Sangye Menla, logo sairá dessa condição para um estado de
existência superior.

Os quatro tantras da medicina

A medicina tradicional budista é um tema extremamente
vasto, aqui só oferecemos um breve apanhado. Aqueles que
desejarem aprofundá-lo deveriam estudar os textos que são
seu fundamento, isto é, os Quatro Tantras de Medicina:
• o Tantra Raiz;
• o Tantra Explicativo;
• o Tantra das Instruções Particulares;
• o Tantra de Conclusão.
O Tantra Raiz é comparado a uma semente contendo potencialmente todos os elementos da
medicina, da mesma maneira que uma semente vegetal contém virtualmente a totalidade da
planta. O Tantra Explicativo, tratando da anatomia e do diagnóstico, é semelhante ao sol e à lua
que iluminam o mundo, na medida em que esclarece todos os elementos necessários. O Tantra
das Instruções Particulares expõe o tratamento das doenças; ele é comparado à "jóia que realiza
os desejos", pois responde a todas as necessidades do médico em matéria de remédios. O
Tantra de Conclusão, por sua vez, assemelha-se ao diamante, oferecendo um domínio completo
da medicina.


Medicina Tibetana no Funchal
INTRODUÇÃO

Pouco depois de os dedos da médica terem tocado o pulso do paciente, ela informou-o "O senhor tem um desvio na coluna." A acompanhante olhou incrédula para ele e só não desatou a rir por respeito para com a médica, convencida que estava, do disparate que havia sido dito. No entanto, para seu espanto, o paciente acenou com a cabeça. Há três décadas atrás, e após exames prolongados, tinha-lhe sido diagnosticado, através de raios-x, um desvio na coluna. Este episódio corresponde a um testemunho que podia ser típico e vulgar não fosse a ocasião, de se ser consultado por uma médica de Medicina Tibetana, tão rara.
Reconta o Dr. Richard Selzer Professor assistente em cirurgia na Universidade de Yale, aquando da visita do médico pessoal de S.S. o Dalai Lama aos estados unidos em 1974; "Fui observar o Dr. Dhonden com uma dose saudável de cepticismo, fiquei surpreendido e enlevado pelo que encontrei. Era como se ele fosse um electrocardiógrafo humano, a interpretar todas as componentes do pulso. Cá no ocidente não temos nada semelhante. É uma dimensão da Medicina que ainda não reconhecemos."
Durante esta visita o Dr. Dhonden também aceitou tratar um conjunto de ratos cancerígenos prescrevendo-lhes medicamentos tibetanos unicamente com base na observação dos animais. Os resultados foram espantosos, os ratos que rejeitaram o medicamento tiveram um tempo de vida médio 66% menor (relativamente ao início do tratamento) do que os ratos que tomaram o medicamento. Outras experiências repetiram-se que confirmaram a eficácia dos medicamentos tibetanos e que constituiram os resultados mais bem sucedidos desde 1967, ano em que se começou a estudar este tumor no vivárium da Universidade de Virginia.
O Dr. Dhonden providenciou uma breve descrição do câncro em termos Tibetanos: "Eu talvez já tenha tratado um milhar de pacientes com câncro dos quais sessenta a setenta porcento se tenham curado. Os nossos textos médicos especificam cinquenta e quatro tipos de tumores que surgem em dezoito lugares no corpo e em uma de entre três formas. Consideramos que o câncro é uma doença do sangue. Tudo começa com poluentes no meio ambiente. Estes, por sua vez, afectam sete tipos de seres sencientes no corpo, dois dos quais são muito susceptíveis. São extremamente diminutos, mas se os podessemos ver, seriam redondos, vermelhos e achatados. Eles conseguem deslocar-se através do fluxo sanguíneo num instante, formam-se com o embrião no ventre e funcionam normalmente para manter a força. Em geral o Buda previu que dezoito doenças se tornariam prevalentes nos nossos dias e devido a duas causas; a uma baixa conduta moral e à poluição. O câncro é uma das dezoito."

BREVE HISTÓRIA
A Medicina Tibetana é uma ciência que teve a sua origem no quadro das grandes universidades monásticas do Norte da Índia onde floresceu durante mais de mil anos. Trata-se de uma ciência porque os seus princípios estão enumerados num esquema lógico e sistemático, baseado no conhecimento do corpo e da sua interacção com o meio ambiente. É igualmente uma ciência que pode ser testada quanto à conformidade dos resultados de tratamento com as suas previsões, medicamentos e teses. Também é considerada uma arte e uma filosofia. Uma arte, porque usa técnicas de diagnóstico baseadas na criatividade, discernimento, subtileza e compaixão do médico praticante. Uma filosofia porque abraça os princípios Budistas do altruísmo, karma e ética.
No primeiro século antes de Cristo esta ciência foi levada para o Tibete por dois panditas Indianos. Desde então esta sabedoria tem sido preservada pelos Tibetanos. No século sexto foi aclamada, numa conferência de médicos de nove nações reunidos no Tibete, como a mais preeminente prática medicinal do seu tempo. Foi então mandado construir, no oitavo século, pelo rei Trisong Detsen o primeiro colégio de Medicina chamado Melung ou "País da Medicina" em Kongpo a sul de Lhasa a antiga capital Tibetana. Melung inspirou a criação de várias escolas de Medicina que surgiam como colégios em dependência dos grandes mosteiros. Em meados do século dezassete, o quinto Dalai-Lama mandou construir o segundo colégio de Medicina chamado Chokpori, sobre o monte de ferro oposto ao Palácio Potala. Nele médicos oriundos de todo o Tibete e Mongólia congregavam para praticar uma ciência que se havia desenvolvido e apurado ao longo dos anos no Tibete. Com a necessidade moderna de ter cada vez mais médicos, o Décimo Terceiro Dalai-Lama construiu o Men-Tsee-Khang ou "Casa da Medicina" a Oeste de Lhasa em 1916. A obrigação legal de todos os mosteiros, sedes de distrito e acampamentos militares recrutarem alunos para os dois colégios de Medicina em Lhasa, garantia a preservação e desenvolvimento da ciência, bem como o benefício de um sistema de saúde avançado e gratuito para a população Tibetana.
Tradicionalmente a formação em Medicina Tibetana levava pelo menos onze anos de aulas com uma quantidade tremenda de memorização. Nos mosteiros, só os monjes com maior capacidade de memorização é que eram seleccionados para frequentarem o colégio de Medicina. Nestes, a rotina dos estudantes era a seguinte: às quatro da manhã soava o sino para o primeiro estudo dos textos ainda à luz de vela. Como se acreditava que a mente estava mais fresca quando acabada de acordar, passavam-se três horas antes do nascer do sol a memorizar as 1140 páginas dos quatro tantras da Medicina (rgyud-bzhi), os textos raiz ensinados pelo Buda, os quais juntamente com centenas de livros de comentário e catálogos farmacológicos, eram a base de estudo da Medicina Tibetana.
Às sete da manhã os instrutores inquiriam os estudantes acerca do trabalho da manhã, para de seguida regressarem aos aposentos para a primeira malga de chá. Soava um segundo sino para todos se reunirem no hall central do mosteiro para as orações da manhã, lá estavam penduradas thankas (desenhos sobre pano) a ilustrar ervas medicinais, anatomia, desenvolvimento embrionário e instrumentos cirúrgicos. Nestes colégios os alunos finalistas, sob orientação dos instrutores, também examinavam os doentes, outros professores de Men-Tsee-Kang e médicos de Chokpori viajavam até à cidade para efectuarem consultas a quem estivesse demasiado débil para se deslocar. Os serviços médicos eram gratuitos no Tibete e os pacientes só tinham de pagar os medicamentos. Para o estudante a maior parte do tempo consistia em memorizar os textos. Devido à grande demanda por medicamentos, havia sobre todo o perímetro do colégio, montes de plantas medicinais a secar, raízes, ramos, folhas como também minerais, pedras preciosas e semi-preciosas e produtos animais, tudo componentes a serem esmagados finamente para o fabrico dos mais de 2000 medicamentos que o colégio produzia.
Depois de jantar às cinco da tarde vinha a sessão de debate. Ao sinal do Mestre, os alunos sentados por classes no pátio, desatavam numa cacofonia de vozes, palmas e respostas sonoras às questões que os atacantes colocavam aos seus inquiridos sobre a interpretação correcta das descrições de causas nos tantras, sobre as várias condições e tratamentos de doenças. Eram sessões que duravam cinco horas e que por vezes se prolongavam noite a dentro, para algumas discussões mais acesas.
Geralmente só após vários anos o aluno completava a memorização dos textos, algo que ainda tinha de ser demonstrado perante o seu professor. Com esta prestação o aluno era promovido e podia então requerer o seu exame final desta primeira etapa de aprendizagem. Este exame ocupava quatro manhãs de dias consecutivos. Perante a comunidade de estudantes, professores e convidados, o aluno tinha de recitar todos os cento e cinquenta e seis capítulos dos quatro tantras, consecutivamente ou na ordem que lhe fosse pedida. Só lapsos menores eram admitidos, quaisquer enganos eram motivo para reprovação.
Depois segue-se um estudo em onze divisões. O diagrama da "Árvore ilustrada da Medicina", onde três raízes (a da psicologia e da patologia, a do diagnóstico e a do tratamento) dão juntas origem a nove troncos, quarenta e dois ramos , duzentas e vinte e quatro folhas, três frutos e duas flores que têm de ser colocados em correspondência com os correspondentes capítulos do tantra.
A seguir estuda-se aprofundadamente  o tópico mais importante da Medicina Tibetana e simultaneamente a base teórica de todo o sistema; os três humores corporais, rLung ou vento, mKhris-pa ou bile e Bad-kan ou fleuma. Estuda-se ainda embriologia, anatomia, funções metabólicas, sinais de morte, patologias, tratamentos e diagnóstico. Outra “Matéria Médica” sujeita a examinação inclui plantas medicinais, metais e minerais, partes e produtos animais, pedras vulgares e semi-preciosas, várias formas de sais e algumas variedades de cogumelos. Após cerca de quatro anos de internato e com aprovação num exame final, era organizada uma cerimónia onde era atribuída a graduação. A ocasião era memorável e lúdica, envolvia toda a comunidade em festividades onde se distinguiam os com melhores prestações e onde, para divertimento do povo, se fazia troça dos com as piores prestações.
Na actualidade, e após a invasão do Tibete pelo regime comunista Chinês em 1949, tem-se preservado a medicna Tibetana graças á construção de um Men-Tsee-Kang, também conhecido por Instituto de Medicina e Astrologia Tibetana em Dharamala, India. Lá só são ministrados cursos em Tibetano e o de Medicina é de seis anos com um ano de internato. Embora os benefícios do sistema médico Tibetano tenham sido vastamente aclamados, um dos problemas com que se confronta continua a ser a falta de reconhecimento por parte de governos e da ONU.

OS PRINCÍPIOS DA MEDICINA TIBETANA
Com o propósito de transmitir os princípios elementares pelos quais a Medicina Tibetana se rege, faz-se aqui um breve apanhado dos mesmos. Basicamente a história da Medicina Tibetana começa por descrever o universo como um todo constituido por cinco proto-elementos:
1. sa (Terra)
2. chu (Água)
3. me (Fogo)
4. rLung (Vento)
5. Nam-mkha (Espaço)
Embora todos os cinco proto-elementos sejam responsáveis pela formação de cada célula, diz-se que cada um deles exerce uma influência específica. sa exerce uma maior influência sobre a formação de células musculares, ossos, o nariz e o sentido do olfacto, chu é responsável pela formação do sangue, fluidos corporais, lingua e o sentido do sabor, me, pela temperatura corporal, a tez, os olhos e a faculdade visual, rLung, pela respiração, pele e o senso do tacto e Nam-mkha é responsável pelas cavidades corporais, os ouvidos e a faculdade auditiva.
Os três humores, que já foram referidos, são também chamados de três energias principais e cada uma delas ainda se subdivide em cinco. São elas que se veem, como que, a orquestrar o organismo humano. Segue uma caracterização sobre-simplificada destas energias.

1. rLung (Vento) é uma das três energies principais no corpo que manifesta a natureza do elemento ar. É caracterizado por áspero, leve, frio, subtil, duro e móvel.  É responsável pelas actividades físicas e mentais, respiração, expulsão de urina, rosto, feto, menstruação, cuspir, arrotar, falar, dá clareza aos orgãos dos sentidos, sustenta a vida ao agir como um meio de ligação entre a mente e o corpo.
2. mKhris-pa (Bile) tem basicamente a natureza do fogo para o corpo humano. É caracterizado pelo oleoso, afiado, quente, leve, fétido, purgativo e fluidez. mKhris-pa é responsável pela fome, sede, disgestão e assimilação, induz calor corporal, dá um brilho à tez e fornece coragem e determinação.
3. Bad-kan (Fleuma) tem a natureza do frio(Terra+Água) e é caracterizado pelo oleoso, fresco, pesado, embotado, suave, firme e pegajoso. Bad-kan é responsável pela firmesa do corpo, a estabilidade da mente, induz o sono, faz a ligação entre as articulações corporais, gera tolerância e lubrifica o corpo.
O vento move-se através do esqueleto, a bile no sangue e o fleuma na carne, gordura e fluido regenerativo. Com o mínimo desequilíbrio surge noentanto a doença. Cada doença –as quais os tantras contabilizam em 84000 em 1616 divisões– deve a sua cura à correcção do desequilíbrio nos humores.

O DIAGNÓSTICO
Os diagnósticos finais dos médicos tibetanos falam em fluxos de vento no nosso corpo em desequilíbrios de calor água e terra, isto não é de estranhar, pois de acordo com a exposição que atrás se fez do sistema de Medicina Tibetano, já deviamos calcular que as coisas fossem colocadas nestes termos.
Em geral o diagnóstico envolve a observação dos aspectos gerais (como a pele e sua tonalidade, a postura etc.), o questionamento do doente, observação da língua, a análise de nove aspectos da urina da manhã, mas é no entanto o diagnóstico pelo pulso que constitui o elemento chave no processo de diagnosticar a doença. Exclusivamente este tópico é ensinado durante um ano inteiro, mas diz-se necessitar de uma década para o compreender completamente. As bases do diagnóstico pelo pulso são expostas em treze secções do último tantra e na medida das descrições ligeiras que aqui se têm feito de vários tópicos, segue outra a cobrir este tópico vastíssimo.
O tantra recomenda preparações para o dia que precede uma consulta, tanto para o médico como para o paciente, tal como evitar tomar chá, álcool, comidas demasiado nutricionais, exercício físico, relações sexuais e qualquer encontro que possa produzir ansiedade. Diz-se que o melhor sítio onde se pode aferir a “leitura” dos órgãos internos é no pulso sobre a artéria radial. O tantra coloca a questão: “Porque é usada a artéria radial?” a resposta é que auscultar as artérias próximas dos orgãos vitais “é como falar com alguém junto de uma cascáta,” enquanto que ler o pulso sobre a artéria radial é como escutar o som de “uma vóz clara no verão, a propagar-se através de um campo aberto”. No entanto para crianças com menos de oito anos e pacientes com doenças em fases terminais, a leitura é feita noutro sítio. Para crianças usam-se os vasos sanguíneos do lobo da orelha e nos doentes terminais para determinar o seu tempo de vida, na artéria tibial posterior por detrás do tornozelo.  Se o paciente é masculino o braço esquerdo é examinado primeiro; se feminino, o direito. O médico coloca os três dedos do meio de cada mão sobre o pulso, o indicador sonda a pele, o mediano a carne e com uma ligeira pressão o anular “toca” o osso, e por alguns instantes parece mergulhar numa meditação a prescutar os orgão internos. O que acontece é que cada um dos seis dedos é dividido numa metade “interior” e “lateral”. Estas doze posições conseguem monitorizar os orgãos. Por exemplo, a parte lateral do indicador direito do médico lê o coração; a parte interior, o intestino delgado, a parte lateral do mediano, o baço e o interior o estomago. Curioso é que a correspondência entre posições de dedos e orgãos é igual para homens e mulheres a menos de uma excepção. Num paciente masculino o indicador direito do médico lê o coração e o seu esquerdo os pulmões. Para um paciente feminino a ordem é inversa. Crê-se que a inversão se deve a uma diferença no ponto de entrada da consciência para o conjunto óvulo-esperma na altura da concepção.

O TRATAMENTO

Como em primeira instância a desordem causadora de doenças é vista como derivando de uma dieta e/ou estilo de vida inapropriados, são geralmente feitas recomendações a este nível.
Existem depois inúmeros medicamentos tibetanos entre os quais se destacam as pilulas preciosas, rinchen ribus. Destas existem sete tipos, a mais fraca é composta por dezoito ingredientes e a mais forte por cento e sessenta e cinco. Veem embrulhadas em tecido atado com fios de multiplas cores. Têm este nome devido a duas razões, pelos seus componentes –ouro, prata, mercúrio, pérola, rubi, safira e diamante- e devido à sua função –uma panaceia para o corpo inteiro. O seu fabrico leva meses e as mais fortes só eram administradas em condições restritas, pois podiam incapacitar o doente por um dia inteiro enquanto as toxinas eram iliminadas e o equilibrio reestabelecido. Por curiosidade sabe-se existirem duas pilulas contraceptivas Tibetanas que só muito raramente eram prescritas devido à ética Budista. Uma delas, ao ser tomada durante alguns dias consecutivos, evitava a concepção durante o período de um ano, a outra eliminava de forma permanente a fertilidade. Havia pilulas de rejuvenescimento chu-len, as quais permitiam aos praticantes religiosos sobreviver retiros de três nove ou doze anos com a ingestão de uma única semente ou flôr por dia.

A MEDICINA TIBETANA NA MADEIRA
A primeira vez que a Madeira teve contacto com a Medicina Tibetana foi em 2002 quando a Amchi (médica Tibetana) Rinzinlá esteve esteve na região e deu consultas a convite da delegação Madeirense da União Budista Portuguesa. Desde então já regressou nos anos de 2003, 2007, 2008, e agora volta em 2009. A Doutora Rinzinla nasceu no Tibete em 1942, tendo-se exilado na Índia após a ocupação do Tibete pela China. Fez os seus estudos de Medicina Tradicional Tibetana no Tibete e na Índia com os mais eminentes Mestres de Medicina Tibetana, como Kangyur Rinpoché e o Doutor Tendzin Chodrak, director da Universidade Médica de Dharamsala na Índia e médico pessoal de S.S. o Dalai Lama. Actualmente desloca-se regularmente a diferentes países da Europa para consultas e acompanhamento de doentes.
A capacidade de um Amchi para a cura, depende em grande medida do seu próprio desenvolvimento e prática dos ensinamentos do Buda. A Amchi Rinzinla teve o benefício de ter sempre estado rodeada de grandes mestres budistas como era o caso do seu pai Kangyur Rinpoché. Para além de ter na família vários Rinpoches que ensinam o Dharma, assiste frequentemente a ensinamentos de outros Mestres como é o caso de Kyabje Truslhik Rinpoché, o último Mestre vivo de S.S. o Dalai Lama.
Neste ano de 2009 a médica Rinzinla proporcionou a oportunidade de termos aqui na Região o reputado médico Tenzin Deche Kartsang, o qual deverá dar uma palestra pública, como também consultas. A vinda destes médicos está programada para os dias 9 e 10 de Maio (2009). Os interessados em marcarem consulta com um destes médicos deve contactar telm. 964808051 (falar com Rui Almeida). Para a Sangha Madeirense espera-se também que os médicos, à semelhança do que aconteceu em 2008, dêem um ensinamento Budista ou conduzam uma prática meditativa no templo.

CONCLUSÃO
No fecho da sua estadia nos EUA o Dr. Dhonden comentou "Se a Medicina Ocidental viesse a compreender a visão Tibetana do organismo humano, sinto que isto seria de um valor inestimável. A nossa Medicina tem a cura para várias doenças, as quais actualmente ainda são incompreendidas pelos médicos ocidentais ou foram identificadas incorrectamente. Tratamos com sucesso os diabetes, várias formas da doença coronária, artroses, hepatite, doença de Parkinson, cancros, ulceras e a vulgar constipação. Temos dificuldade em tratar a epilepsia e paralesia. Mas como o sistema Tibetano é científico, os médicos ocidentais tais como cientístas, terão de ver o que há de valor e o que não."

REFERÊNCIAS

Este texto foi baseado no capítulo "Tibetan Medicine: The Science of Healing" contido no livro de John F. Avedon, "In Exile from the Land of Snows", HarperPerennial 1997. Todo este capítulo é uma deliciosa e fascinante reportagem das origens e desenvolvimento da Medicina Tibetana entrelaçada com uma narração da vida de um monje, tornado médico, tornado exilado, tornado o director do primeiro Instituto de Medicina e Astrologia Tibetana fora do Tibete, o Dr. Dhonden médico pessoal de Sua Santidade o Dalai-Lama desde 1960 a 1978.

Fonte:http://max1.freeprohost.com/Medicina_Tibetana.htm


El Buda Azul.Medicina Tibetana.SubEsp.flv