EQUOTERAPIA : UTILIZANDO O CAVALO COMO TERAPEUTA



A Equoterapia é um método terapêutico que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiência e/ou com necessidades especiais.

Equoterapia CEPEL
Os efeitos conhecidos da equoterapia no tratamento de pessoas com deficiências estão atraindo novos adeptos para a técnica. Adultos e crianças que não têm limitações neuromotoras ou cognitivas, mas lidam com outras dificuldades da vida, como estresse, depressão, problemas na escola…


PROGRAMAS BÁSICOS DA EQUOTERAPIA

- Hipoterapia
- Educação/Reeducação
- Pré-Esportivo
- Prática Esportiva Paraequestre

 

VEJA NO VÍDEO COMO FUNCIONA A EQUOTERAPIA


CONHEÇA O CASO DE FELIPINHO, UMA HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO ATRAVÉS DA FISIOTERAPIA E DA EQUOTERPIA


Fonte:http://www.cepelhipismo.com.br/equoterapia/

Considerações Complementares

A Equoterapia emprega o cavalo como agente promotor de ganhos a nível físico e psíquico. Esta atividade exige a participação do corpo inteiro, contribuindo, assim, para o desenvolvimento da força muscular, relaxamento, conscientização do próprio corpo e aperfeiçoamento da coordenação motora e do equilíbrio.
A interação com o cavalo, incluindo os primeiros contatos, os cuidados preliminares, o ato de montar e o manuseio final desenvolvem, ainda, novas formas de socialização, autoconfiança e autoestima.


Reconhecimentos Institucionais

  • Conselho Federal de Medicina (6 Abr 97)
  • Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (27 Mar 08)
  • Secretaria de Educação do Distrito Federal

"Praticante de Equoterapia"

É o termo utilizado para designar a pessoa com deficiência ou com necessidades especiais quando em atividade equoterápica. Nesta situação, o sujeito do processo participa de sua reabilitação, na medida em que interage com o cavalo.
Fonte:http://www.equoterapia.org.br/site/equoterapia.php



DESCREVENDO A EQUOTERAPIA

Equoterapia é um método terapêutico e educacional, que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas comdeficiências e/ou necessidades especiais. Conceito da ANDE-BRASIL, 1999.



Princípios Básicos da Equoterapia (no aspecto motor)


o prazer de montar
A andadura do cavalo imprime movimentos tridimensionais, ou seja, em três eixos distintos para cima e para baixo, para um lado e para outro e para frente e para trás, que são estímulos somatossensorial, proprioceptivos e vestibulares para o praticante cavaleiro.
  • Desenvolver o controle postural do praticante pelo estímulo à via dos substratos do controle motor local.
  • Desenvolver o equilíbrio do praticante pelo estímulo aos substratos de controle motor postural, reações de ajuste, de defesa e de endireitamento corporais.
  • Aperfeiçoar o assento do praticante sobre o cavalo pelo estímulo do controle motor global. Nesta fase o praticante aperfeiçoa e aplica feedback/feedforward adquiridos, que o permitem manter-se equilibrado sobre à sela e unir-se coordenada e harmoniosamente aos movimentos do cavalo, desenvolvendo com o animal um conjunto biomecânico melodioso.

Metas (motoras) a serem atingidas

  • A meta terapêutica é chegar ao máximo de função do praticante.
  • A meta funcional motora da equoterapia é: desenvolver no praticante, capacidades funcionais que permitam sua independência nas atividades de vida diária.

Programas de Equoterapia


confiança e objetividade
É sabido que cada indivíduo, com deficiência e/ou com necessidades especiais, tem o seu “perfil”, o que o torna único. Isto evidencia a necessidade de formular programas individualizados, que levem em consideração as demandas daquele indivíduo, naquela determinada fase de seu processo evolutivo. A equoterapia é aplicada por intermédio de programas individualizados organizados de acordo com: ­•as necessidades e potencialidades do praticante; ­•a finalidade do programa; ­•os objetivos a serem alcançados, com duas ênfases: •a primeira, com intenções especificamente terapêuticas, utilizando técnicas que visem, principalmente, à reabilitação física e/ou mental; •a segunda, com fins educacionais e/ou sociais, com a aplicação de técnicas pedagógicas aliadas às terapêuticas, visando à integração ou reintegração sócio-familiar. Fonte ANDE-BRASIL 2009

Hipoterapia

Programa essencialmente da área de saúde, voltado para as pessoas com deficiência física e/ou mental; é chamado em várias partes do mundo de hipoterapia; a ANDE-BRASIL também adota tal nome para este programa da Equoterapia.
Neste caso o praticante não tem condições físicas e/ou mentais para se manter sozinho a cavalo. Portanto, não pratica equitação.
Necessita de um auxiliar-guia para conduzir o cavalo. Na maioria dos casos, também do auxiliar lateral para mantê-lo montado, dando-lhe segurança.
A ênfase das ações é dos profissionais da área de saúde, precisando, portanto, de um fisioterapeuta, a pé ou montado, para a execução dos exercícios programados.
O cavalo é usado principalmente como instrumento cinesioterapêutico. Fonte ANDE-BRASIL 2009.

Crianças com Disfunção Neuromotora frequentemente apresentam grandes dificuldades no controle muscular e postural e como conseqüência dessa condição suas atividades funcionais e exploração do ambiente tornam-se deficitárias. Múltiplos fatores têm influenciado o aumento da incidência da Disfunção Neuromotora no Brasil e no mundo. O avanço tecnológico, por exemplo, vem propiciando que cada vez mais crianças tenham índices de sobrevida maior após graves intercorrências durante sua gestação e outras durante ou após o parto. Outro fator relevante diz respeito à maternidade Com o tempo, o planejamento da gestação propiciou as mulheres o poder de escolha. A gradativa ocupação dos espaços que outrora pertenciam somente aos homens fez com que a maternidade fosse postergada, contribuindo com a concepção em idade avançada (após 35 anos) e em muitas situações pelo avanço da idade fértil, somente propiciada através das técnicas de reprodução assistida que incidem em gestação gemelar em 45% dos casos e 7% em trigêmeos ou mais, aumentando percentualmente os riscos gestacionais incluindo a prematuridade.Porem as piores complicações do parto tende a acometer meninas com menos de 15 anos. A mãe adolescente tem maior morbidade e mortalidade por complicações da gravidez, do parto e do puerpério. A taxa de mortalidade é duas vezes maior que entre gestantes adultas. A incidência de recém nascidos com baixo peso de mães adolescentes é duas vezes maior que em recém nascidos de mães adultas, e a taxa de morte neonatal é três vezes maior. Entre adolescentes com 17 anos ou menos, 14% dos nascidos são prematuros. Em 2000, segundo Raquel Foresti, foram realizados 689.000 partos de adolescentes no Brasil, o equivalente a 30% do total dos partos do país. Hoje são mais de 700.000 partos de adolescentes por ano, o que vem contribuindo no índice de recém nascidos acometidos por lesões do Sistema Nervoso Central, devido às condições de assistência pré e perinatal serem satisfatórias apenas a uma parcela da população. Assim a prevalência de seqüelas neurológicas em nosso meio tem mostrado-se bastante elevada, requerendo atenção especial dos profissionais envolvidos nas áreas da reabilitação neuropediátrica. Sabemos que não existe cura para a Disfunção Neuromotora por conta disto novas tecnologias e recursos estão sendo desenvolvidos por todo o mundo buscando uma melhor qualidade de vida para os portadores dessa condição. A interferência da maturação normal do cérebro, presente no paciente portador de Disfunção Neuromotora, ocasiona um atraso nas etapas do desenvolvimento motor e propicia a presença de padrões posturais e de movimento anormais, conseqüentes a um tônus anormal. Observamos alterações no alinhamento biomecânico devido ao encurtamento de grupos musculares, assim como pela presença da atividade reflexa. O corpo humano é composto de componentes biomecânicos combinados para produzir posturas e movimentos variados.
Ao analisarmos os componentes da postura do cavaleiro montado, teremos uma base de referencia para determinarmos quais as compensações e ou desvios nossos pacientes podem estar adotando na Equoterapia e como podemos intervir para solução do problema. O foco específico da intervenção, não somente deve ser solucionado a partir dos problemas presentes, mas também no processo de estabelecimento do problema, devendo-se avaliar e especificar qual ou quais segmentos musculoesqueléticos estão envolvidos na disfunção da atividade.
Neste estudo proponho demonstrar a relevância dos recursos terapêuticos complementares como: Theratog e Wraps, Kinesio Tapping, splints e órteses utilizados pelo Conceito Neuroevolutivo Bobath durante o atendimento na Equoterapia junto aos pacientes portadores de Disfunção Neuromotora objetivando a organização biomecânica durante a montaria e consequentemente a potencialização dos benefícios neuromotores. É importante ressaltar que para melhor compreensão desse estudo faz-se necessário a explanação dos objetivos específicos relativos aos recursos utilizados.
Fonte: Artigo: "A Utilização de Recursos Terapêuticos Complementares no Tratamento do Portador de Disfunção Neuromotora na Equoterapia" Dra. Mylena Medeiros - www.equoterapia.org

Educação/Reeducação

Este programa pode ser aplicado tanto na área de saúde quanto na de educação/reeducação.
Neste caso o praticante tem condições de exercer alguma atuação sobre o cavalo e pode até conduzi-lo, dependendo em menor grau do auxiliar-guia e do auxiliar lateral.
A ação dos profissionais de equitação tem mais intensidade, embora os exercícios devam ser programados por toda a equipe, segundo os objetivos a serem alcançados.
O cavalo continua propiciando benefícios pelo seu movimento tridimensional e multidirecional e o praticante passa a interagir com o animal e o meio com intensidade. Ainda não pratica equitação e/ou hipismo.
O cavalo atua como instrumento pedagógico.Fonte ANDE-BRASIL 2009.

o esporte

Programa Prática Esportiva

Este programa tem como finalidade preparar a pessoa com deficiência para competições paraequestres com os seguintes objetivos:
  • prazer pelo esporte enquanto estimulador de efeitos terapêuticos;
  • melhoria da auto-estima, autoconfiança e da qualidade de vida;
  • inserção social;
  • preparar atletas de alta performance.
Este programa abre caminho para competições paraequestres tais como: ­

Hipismo adaptado

É uma modalidade de competição, dentro de um conceito festivo, adaptada ao praticante de equoterapia, normatizada, coordenada, em âmbito nacional pela Associação Nacional de Desportes para Deficientes e que já realiza competições desta modalidade.

Paraolimpíadas

As paraolimpíadas são organizadas paralelamente às Olimpíadas e que se destinam às pessoas com deficiência física. Nela, os atletas competem em provas olímpicas em particular no “adestramento paraolímpico”. É regulada pela Federação Equestre Internacional (FEI) e no Brasil pela Confederação Brasileira de Hipismo (C-BH), em parceria com o Comitê Paraolímpico Brasileiro. ­ As olimpíadas especiais, criada para pessoas com deficiência mental que buscam somente a participação e não a alta performance. Esta modalidade está sendo regulamentada pela SPECIAL OLYMPICS BRASIL. ­ VOLTEIO EQUESTRE ADAPTADO, são exercícios realizados sobre o cavalo que se movimenta em círculos, conduzido por um cavaleiro por intermédio de uma “guia longa”. Deverá ser regulamentado pela FEI, tornando-se, portanto, mais uma modalidade Paraolímpica. O Volteio Eqüestre Adaptado, provavelmente terá um progresso bem maior que o Adestramento Paraolímpico, pelos seguintes motivos:
  • Poderá ser praticado individualmente, em dupla e o mais importante, em equipe;
  • A utilização de um mesmo cavalo por várias equipes, tornando a competição mais fácil de organizar e mais econômica em relação ao Adestramento;
  • O número de atletas beneficiados pela competição será bem maior, reforçando os conceitos de colaboração, respeito e espírito de equipe. Fonte ANDE-BRASIL 2009.
É importante ressaltar que toda a equipe atua em todos os programas de forma direta ou indireta. É tarefa dos componentes da equipe:
  • Opinar nos processos de inclusão.
  • Detectar estágios ou fases de transição entre um programa e outro.
  • Promover e acompanhar o praticante em programas mais adiantados.
  • Aconselhar exclusão ou alta do programa terapêutico equestre.
  • Prestar consultoria nos diversos estágios de adequação aos programas.

Aspectos em que se insere

O praticante, para ser incluído no programa equoterapêutico, deve passar por exames médicos e avaliações no aspecto nos aspectos da saúde, educação e social. Entende-se que estão inseridos nos aspectos de (FRANCI Elisabeth 2003):
  • Saúde: indivíduos com alterações físicas, psicológicas e/ou mentais.
  • Educação: indivíduos com distúrbios de aprendizagem de diversas origens.
  • Social: indivíduos com dificuldades em quesitos sociais como proteção, promoção, prevenção e inclusão. Problemas nestes quesitos influenciam diretamente na cidadania, através da exclusão social, impossibilidade de escolaridade e inexperiência para omercado de trabalho. São considerados o contexto familiar e comunitário.
  • Esportivo: indivíduos com ou sem distúrbios que desejam fazer da equitação o esporte de sua escolha.

Fonte:http://pt.wikipedia.org/wiki/Equoterapia

Os Benefícios da Equoterapia para Crianças Com Necessidades Educativas Especiais

"A aprendizagem ocorre como um resultado da interação entre o aluno e seu ambiente. Sabe-se que a aprendizagem ocorreu quando se observa que há modificação no desempenho escolar."
Robert Gagné

Para que ocorra aprendizagem é necessário que haja interação entre o indivíduo e seu ambiente, sendo que a qualidade dessa interação vai afetar diretamente a qualidade da aprendizagem. Nesse processo, fatores como a capacidade de manter a atenção concentrada, a capacidade de estabelecer vínculos afetivos e a autoconfiança assumem um papel de relevada importância.
Partindo dessa premissa, a Equoterapia se insere muito bem no contexto da aprendizagem, principalmente no que diz respeito às crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem nas áreas da leitura, escrita, matemática, psicomotricidade ou social.
A terapêutica começa a acontecer no momento em que o aluno entra em contato com o animal. Inicialmente, o cavalo representa um problema novo com o qual o praticante terá que lidar, aprendendo a maneira correta de montar ou descobrindo meios para fazer com que o animal aceite seus comandos (como, por exemplo, levá-lo aos lugares em que deseja ir). Essa relação, por si só, já contribui para o desenvolvimento da sua autoconfiança e afetividade, além de trabalhar limites, uma vez que nessa interação existem regras que não poderão ser infringidas.
Outro aspecto a ser destacado é o fato de que a Equoterapia requer do praticante a atenção concentrada durante os trinta minutos em que a sessão se desenvolve. Este é um fator bastante importante para o bom desempenho do aluno na escola, pois a atenção, segundo estudiosos como Vítor da Fonseca, é a base do aprendizado. Atenta, a pessoa seleciona o que quer aprender e guardar em sua memória para utilizar posteriormente.
Além disso, essa terapia auxilia o praticante a se organizar em relação ao seu espaço (o seeting terapêutico ou picadeiro), a desenvolver a seqüencialidade de seus atos até montar e comandar o cavalo, a aprimorar percepções auditivas, visuais, táteis cinestésicas, proprioceptivas, a desenvolver o equilíbrio, a postura, a lateralidade, as motricidades ampla e fina, o esquema e conscientização corporal e contribui, inclusive, para o enriquecimento de seu vocabulário.
Com todos esses fatores associados durante o trabalho desenvolvido na Equoterapia, o praticante é motivado e estimulado a adquirir novos conhecimentos e a manter todos os seus sentidos ativados, o que o prepara para um melhor aprendizado da leitura, escrita e matemática.

Por  Águeda Marques Mendes*


* Águeda Marques Mendes é Pedagoga, Pós-Graduanda em Psicopedagogia.
Coordenadora do Centro de Equoterapia Porto Alegre - CEPA 
CEPA - Centro de Equoterapia Porto Alegre - e-mail
Av Antônio de Carvalho 1328 - Porto Alegre - RS - CEP 91430-000
Telefone: (51) 3387-2757 e 9691-9178

Equoterapia: 0 emprego do cavalo como motivador terapêutico

Os aspectos históricos são considerados importantes por apresentarem a saga desse binômio cavaleiro-cavalo desde os tempos antes de Cristo e com diversas observações desse exemplar animal, além de todas as outras ligações culturais com os homens desde a sua domesticação . Hipócrates de Loo, (458-370 a . C ,já aconselhava os exercícios a cavalo como benéficos à saúde do homem. Mas em Samuel Theodor de Quelmatz (1697-1758), de Lipsia, foi quem fez, pela primeira vez, um a referência ao movimento tridimensional do dorso do cavalo e de seus movimentos multidirecionais.
Em 1782, entre outros médicos, J.C. Tissot descreveu as contra-indicações da equitação e também, analisou as formas dos movimentos típicas da equitação: ativa, passiva, ativo-passiva e considerava a andadura ao passo do cavalo como a mais eficaz para a terapia desejada.
Ao longo da história da Equoterapia, há outros inúmeros trabalhos e citações a respeito de seus benefícios e contra-indicações precisas. Mas os trabalhos realmente científicos não são numerosos.
Em 1979, Woods referiu também que, quando o cavalo anda, o seu centro de gravidade se desloca em movimentos tri-dimensionais de modo similar ao do ser humano , quando caminha. Como resultados, Mackay-Lyons e colaboradores, em 1984, verificaram que clientes com esclerose múltipla e com dificuldades para deambular haviam tido progresso em velocidade e alternância de passos, quando submetidos à Equoterapia durante 9 semanas/2 vezes por semana. "Eles tinham progredido de uma forma que nenhum método teria conseguido" disseram os mesmos autores.
Segundo Rasch,1989, a maneira como um cavalo anda é proveniente da combinação das características de conformação (altura e peso), atitude, idade e adestramento anterior. E quando aprende novas tarefas, como trabalhar em Equoterapia, específicos treinamentos do cavalo são necessários para organizar as necessárias respostas para ele funcionar como um instrumento terapêutico .
Em 1992 , na Universidade de Delaware, Fleck defendeu tese de "master" sobre os mecanismos do caminhar humano e do cavalo. Ele usou um filme d 16 mm para comparar os movimentos pélvicos normais de 24 crianças normais, enquanto caminhavam ao passo normal e enquanto, ao lado, um cavalo andava ao passo habitual. Ele encontrou que o deslocamento linear das pelvis das crianças durante o caminhar e ao andarem a cavalo, eram diferentes em magnitude nas não , nos movimentos, nos tempos e nas seqüenciais organizdasa. Isto é, os tempos e as seqüências dos passos do ser humano e do cavalo são similares, mas não a magnitude, em parte, porque o cavalo é um animal muito maior.
Freeman em 1992, usou um tipo de análise cinemática quantitativa para medir os movimentos da pelve de um cavalo ao andar ao passo. Suas medidas revelaram o seguinte: A pelve do cavalo se move em 3.92 graus no plano sagital, 6,98 graus no coronal e 9,08 no transverso. Estas medidas dos movimentos pélvicos do cavalo são achados semelhantes aos parâmetros encontrados por Perry e Sutherland para os movimentos pélvicos dos homens adultos.
Sutherland, em 1980, analisando 186 crianças normais, achou que havia deslocamentos pélvicos medindo de 2 a 3. 5 graus no plano sagital, 10 graus no plano frontal ( 5 graus no início do movimento e 5, no final) e aproximadamente, 20 graus no plano transverso (10 graus de cada lado, em relação ao plano frontal).
Além da similaridade dessas comparações e movimentos, a cadência dos passos do cavalo são muito similares à do homem A média de passos do homem é aproximadamente de 110-120 / minuto e um cavalo grande caminha à uma velocidade de 100-120 passos por minuto, (segundo Barnes, 1993). Durante uma sessão de Equoterapia de 30 minutos, o cavaleiro será exposto e terá oportunidade de desenvolver diversas habilidades motoras. Segundo, Whamem 1992, um cavalo que ande na velocidade de 110 passos por minuto, terá a oportunidade de dar 3.000 passos durante a sessão. Isto proporsionará ao cavaleiro centenas de deslocamentos específicos para se manter na posição montada adequada, equlibrando-se na linha média em harmonia com os movimentos do cavalo. Além disso, inúmeros movimentos serão transmitidos ao cavaleiro pelos movimentos multidirecionais imprimidos ao cavalo.
De acordo com Citterio, em 1982, e Riede em 1988, as metas principais da Equoterapia são: - a estabilidade postural automática em alinhamento com o centro de gravidade. E quando o cavalo começa a mover-se e a pelve do cavaleiro a mover-se com uma inclinação posterior , haverá um realinhamento do tronco sobre a pelve, a cabeça mover-se-á com uma suave flexão e os olhos tenderão a ficar na horizontal. Esta é uma posição funcional que leva o cavaleiro a se adaptar aos movimentos do cavalo e interagir com o ambiente.
O estudo por partes de movimentos conjugados entre cavaleiro e cavalo é essencial para que se aplique a Equoterapia:
1. Guiar o cavalo por uma linha longa e reta é o objetivo inicial do tratamento. Isto provocará no cavaleiro, movimentos de flexão e extensão. Isto facilita o controle de tronco e os movimentos da pelve para frente e para trás ao acompanhar os movimentos do cavalo, com transições entre impulsos fortes e fracos, alongando e encurtando o passo do cavalo. Para um muito bom controle de flexão/extensão do cavaleiro, as transições entre o andar-parar-andar do cavalo são muito empregadas.
2. Os movimentos no plano frontal auxiliam para as flexões laterais do cavaleiro. Serve para ele alongar e encurtar a sua musculatura do tronco. As atividades de encurtar e alongar o passo do cavalo servem para os deslocamentos do peso do cavaleiro montado. Ao guiar o cavalo em curva, haverá um aumento nos movimentos de rotação da sua pelve. E segundo Citterio (1985) estes movimentos do cavalo facilitarão as flexões laterais da pelve e do tronco do cavaleiro. Se o cavalo andar em círculo, o cavaleiro inclinar-se-á para o lado externo da curva por causa do impulso da força centrifuga aplicada nele. Ele experimenta um deslocamento do peso para fora da linha média, que o faz alongar o tronco desse lado e contraí-lo do outro lado. O deslocamento do peso do cavaleiro auxilia o cavalo a andar ao passo por facilitar-lhe os movimentos de trocas de patas. É o mesmo que acontece com o cavaleiro ao andar a pé.
3. Curvas suaves podem ser combinadas com mudanças de direção do cavalo para incrementar a alteração do peso do cavaleiro através da linha média (lombo do cavalo) e provocar flexões laterais de um lado para outro. Quanto menor e mais fechada a curva provocará mais movimentos do cavaleiro, porque o componente rotacional do movimento do cavalo torna-se-á maior. Os movimentos rotacionais na pelve e no tronco do cavaleiro podem ser incrementados com os movimentos laterais do cavalo. O cavalo movimenta-se para a frente com distintos movimentos em diagonal (à direita e à esquerda) ao andar ao passo principalmente e as suas flexões laterais são percebidas como rotacionais pelo cavaleiro, porque a anca do cavalo e os quadris do cavaleiro formam um ângulo de 9O º graus entre essas estruturas.
4. O cavalo deve ser conduzido ora com passos largos, ora com passos curtos, e com alterações de velocidade, porque isso proporcionará ao cavaleiro, necessidades de controle de tronco e equilíbrio na direção anterior e posterior. Em todos estes movimentos durante a sessão de Equoterapia, o cavaleiro é ativamente, estimulado e reage com retificações posturais automáticas (inconscientes) e sem relações corticais cerebrais, segundo Citterio,1985. O cavaleiro, apesar de ter uma participação nessas atividades de forma inconsciente, nada impede que o instrutor reforce informações e solicitações para correções volitivas ou cognitivas sobre como montar bem. Schimidt,1988, afirma que o cavaleiro passa a prever, a antecipar e a seguir mecanismos de ajustes posturais a cavalo.
5. Assim, a chave para se entender os efeitos dos três componentes dos movimentos do cavalo ao passo é necessário compreender-se o valor deles sobre o cavaleiro.
1º) As aceleração / desaceleração dos movimentos do cavalo influenciam inclinações anteriores e posteriores da pelve e do tronco do cavaleiro. Quando o cavalo realiza a fase acelerada do movimento do passo (levantando e movendo membro posterior para a frente), a pelve e o tronco do cavaleiro se deslocam, inclinando-se para trás e quando o cavalo firma o membro posterior no solo na fase de desaceleração, o cavaleiro inclina a pelve e o tronco para a frente.
2º) No momento em que o cavalo realiza um movimento de rotação da anca ao trocar os membros posteriores, o cavaleiro realiza um movimento de flexão lateral da pelve.
3°) O terceiro movimento componente do passo ocorre quando o cavalo realiza a fase de elevação e deslocamento para a frente do membro posterior, o que provoca uma flexão do seu tronco. Este movimento produz rotação do tronco e da pelve do cavaleiro.
Estes movimentos do cavalo produzem no tronco e pelve do cavaleiro: rotação anterior da pelve, deslocamento para frente e flexão lateral, quando os membros do cavalo agem diretramente sobre ele ao se deslocarem. Até hoje, nenhum aparelho foi inventado ou contruído para replicar, com perfeição, os movimentos tridimensionais e multidirecionais do cavalo sobre o cavaleiro.
Segundo Engel, outra idéia importante em Equoterapia, é entender que uma pessoa montada num cavalo não é um simples passageiro. Ela deve guiar o cavalo e fazê-lo andar em variadas direções e velocidades, pois os movimentos rítmicos do cavalo e suas influências são considerados os principais fatores da Equoterapia.


Por Dr José Torquato Severo*



* José Torquato Severo é médico neurologista, professor universitário,
Mestre em Educação e Cel Cav R1 do Exécito Brasileiro
Centro de Equoterapia Osorio
Av. Bento Gonçalves, 3080, Partenon - Porto Alegre - RS
Telefone: (51) 3330-4541 

A Equoterapia no ponto de vista Psicológico

O cavalo hoje é grande destaque como instrumento de reabilitação e educação. Este se transforma em um personagem na vida da criança, do praticante, passando então a ser um ponto de contato sedutor com o mundo que o rodeia. A equoterapia não consiste apenas em exercícios de estimulação neuromuscular, visto tratar-se de um método terapêutico que envolve o ser humano por completo. Paciente e cavalo participam ativos dos exercícios. E a equipe formada por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos, instrutores de equitação, são fundamentais para conduzir e levar a bom termo a terapia ao longo do tempo.
Cabe ao psicólogo conhecer todos esses profissionais que estarão trabalhando juntos de forma interdisciplinar, como o cavalo, o praticante, e todo o material empregado nas técnicas e exercícios utilizados na equoterapia. Cabe a ele conhecer também o praticante, assim identificando suas limitações e potencialidades, além de conhecer muito bem o cavalo, suas características, para obter uma visão precisa das coisas possíveis dentro do tratamento. A interação de toda a equipe permite que cada um entenda a abordagem de seu colega, possibilitando assim um trabalho associado.
Toda a harmonia em equipe é muito importante, principal objetivo da atuação interdisciplinar. O psicólogo ajuda na desenvoltura da equipe, com reuniões também, para haver essa harmonia entre todos e obter um ótimo resultado no trabalho.
O cavalo, como objeto intermediador, é a ligação entre o praticante e o terapeuta, entre o praticante e o adulto, etc. Aquilo que o praticante não pode vivenciar, no contato com o cavalo ele irá aprender integrar-se e utilizar na sua estrutura, na sua evolução psicossomática, melhorando a sua autonomia, independência, auto-estima, auto-confiança, objetivos dos terapeutas para com seus praticantes. O cavalo é o ser da confiança e da troca afetiva e corporal; ele dá matéria à nossa busca de identidade. Ele permanece um ser que deve ser cativado e cuja dominação passa, através dele, pela auto- estima de si mesmo. Toda a evocação do cavalo, animal-símbolo, remete a noções culturais profundamente interiorizadas. Ele se torna o nosso outro eu, objeto de nossas projeções, uma resposta viva a nossos comportamentos. Vimos o cavalo como algo que gostaríamos que ele desse para nós ou depositamos nele nossas vontades.
A intensidade das sensações e das emoções provocadas pela abordagem do cavalo, conduzem o indivíduo a um confronto consigo mesmo, que é corporal e psico-afetivo ao mesmo tempo.
A nosso ver, o cavalo, fonte de emoções, é a própria essência do expressivo. E, através das vibrações corporais que o corpo registra, o cavaleiro vive uma experiência que remete diretamente à sua vivência interior, assim, desabrochando, criando e realizando seu próprio bem-estar, pelo viés do cavalo, este seu outro eu.
O psicólogo, trabalha o aqui-agora, o presente, sem ficar muito preocupado em achar um culpado para tal situação, claro que não iremos ignorar o passado e toda a história de vida do praticante, como também todo o histórico familiar.
Não só o psicólogo mas como toda a equipe deve sempre estar atentos quanto aos comportamentos que o praticante irá apresentar, pois este nos dá valiosas informações para podermos dar seqüência e andamento no tratamento, como também o que esperamos dele no futuro(estratégia).
O próprio ambiente da equoterapia irá propiciar ao praticante uma profunda comunhão entre praticante-ambiente, isto é, a natureza.
Na equoterapia, não se consegue separar as funções de cada terapeuta, pois todos trabalham em equipe e claro que todos precisam obter o conhecimento de todas as áreas, para se obter uma terapia adequada em todos os programas de equoterapia ( hipoterapia,educação/reeducação, pré-esportivo). E dentro da equoterapia, esta facilita a organização do esquema corporal, a aquisição do esquema espacial; desenvolve a estrutura temporal; aguça o raciocínio e o sentido de realidade; desperta uma profunda comunhão criança-realidade; proporciona e facilita a aprendizagem da leitura, da escrita, e do raciocínio matemático; aumenta a cooperação e a solidariedade; minimiza os distúrbios comportamentais; promove a auto-estima, a auto-imagem e a segurança, também facilita e acelera os processos de aprendizagem.
Todo o vínculo cavalo-cavaleiro, estabelecido desde as primeiras sessões desenvolve a afetividade, com isso obtendo-se um ganho geral de auto-confiança e auto-estima, sendo assim há um melhoramento nos outros aspectos como o senso de limite e responsabilidade, o relacionamento interpessoal e casos de timidez, retração, hoperatividade, doenças de humor e depressão, entre outras deficiências apresentam sensível progresso.
Os resultados obtidos na psicologia através da equoterapia se deve ao diferencial de utilizar o animal, o que permite trabalhar mais o afeto, autonomia do ir e vir. Toda a sensação de liberdade , de se locomover é fundamental, além disso há o ganho físico proporcionado pelo movimento do cavalo e além do ganho emocional.
A confiança obtida na equoterapia permite acelerar o processo de desenvolvimento de potencialidades, responsável pela integração social e pessoal do portador de deficiências ou dificuldades.
Toda a prática equestre favorece ainda uma sadia sociabilidade, uma vez que integra o praticante, o cavalo e os profissionais envolvidos.
O psicólogo poderá fazer orientações aos pais ou responsáveis pelo praticante, como reuniões, já que estes apresentam muitas dúvidas e expectativas sobre o trabalho.
A equoterapia contribui de forma prazerosa para a aplicação de exercícios de coordenação motora, agilidade, flexibilidade, ritmo, concentração e lateralidade. Desenvolve a sensibilidade física e psíquica, na medida em que exige a constante percepção e reação frente a diversos estímulos. Assim, resultando em maior harmonia e equilíbrio físico e psíquico.
Associação de Equoterapia Paulista, Jornal da Equoterapia. A abrangência da equoterapia e o papel do psicólogo no tratamento. São Paulo, junho de 2001.

D. Verrière - O cavalo revelador de um sentimento do corpo IN: Formação em Equoterapia, Fundação Rancho GG- Centro de treinamento, pesquisa e ensino de Equoterapia.

Freire, Heloisa Bruna Grubits. Equoterapia: teoria e técnica: uma experiência com crianças autistas. São Paulo: Vetor, 1999

IN: RIDE- Equoterapia: ciência, cavalo, reabilitação

IN: Horseonline-Equoterapia: a cura através do cavalo -Aprendizado lúdico através do cavalo

IN: Formação em Equoterapia pelo Fundação Rancho GG- Centro de treinamento, pesquisa e ensino de Equoterapia. Fundamentos doutrinários da Equoterapia no Brasil.

IN: Formação em Equoterapia pelo Fundação Rancho GG- Centro de treinamento, pesquisa e ensino de Equoterapia. 1. Relacionamento entre o praticante e o cavalo.

IN: Formação em Equoterapia pelo Fundação Rancho GG- Centro de treinamento, pesquisa e ensino de equoterapia. Equoterapia e educação especial. A intervenção equoterápica na educação especial através da abordagem psicomotora.

Por: Dr. José Torquato Severo, médico neurologista, mestre em educação, Cel Cav R1 Ex Brasileiro - Princípios 
psicomotores aplicados em equoterapia. Porto Alegre/RS, 2000.


Por: Thaís Rocha Brentegani*

* Thaís Rocha Brentegani é psicóloga
com formação em Equoterapia 
Thaís Rocha Brentegani - e-mail

A Prática do Psicólogo na Equoterapia

Este artigo refere-se a uma pesquisa realizada em 2003 pela autora. Em 03 de Agosto de 2005 a autora estará defendendo sua dissertação de mestrado sobre Equoterapia (O profissional de psicologia na equoterapia: atividades, técnicas e dificuldades).

O presente trabalho propõe a estudar a prática do psicólogo na equoterapia, mediante a verificação de semelhanças e/ou diferenças no modo cada psicólogo exerce sua função. E, também, proporcionar um maior conhecimento sobre a conduta dos profissionais desta área, além de conhecer os aspectos emocionais envolvidos no trabalho com esses deficiantes. Os dados foram coletados a partir de um questionário de treze perguntas a respeito da atuação do psicólogo no centro de equoterapia em que trabalham. O questionário foi aplicado em dez psicólogos, num total de sete centros de equoterapia das cidades de São Paulo, São Bernardo do Campo e Itajubá (MG). Por meio desse estudo, conhece-se a importância do psicólogo na equoterapia.
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Por Juliana Prado Ferrari
Juliana Prado Ferrari - e-mail
Psicóloga

Equoterapia: O que o ambiente equoterápico pode auxiliar no processo terapêutico?


A equoterapia surge como uma perspectiva para desenvolvimento de linguagem, pois é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo numa abordagem interdisciplinar, nas áreas de Saúde, Educação e Equitação. Serve para complementar o tratamento de reabilitação tradicional, proporcionando assim, um desenvolvimento bio-psico-social de pessoas com necessidades especiais.
Esta nova modadlidade de tratamento em Fonoaudiologia, surge como uma perspectiva para o trabalho de desenvolvimento de linguagem, aspectos cognitivos e funções estomatognáticas, levando-se em consideração a relação com os estímulos proporcionados pela intervenção fonoaudiológica e pelo meio ambiente, pois o trabalho é realizado ao ar livre, em contato com a natureza e com outro ser vivo.
O TRATAMENTO FONOAUDIOLÓGICO: As técnicas e métodos utilizados nos hospitais, ambulatórios ou clínicas, em Fonoaudiologia, são diversos e, o ambiente a que o paciente é exposto pode tornar-se desestimulante e, muitas vezes, insatisfatório, fazendo com que retornem às terapias sentindo-se forçados a cumprir uma ação para se recuperarem da patologia o mais rápido.
O tratamento fonoaudiológico de pacientes portadores de deficiências requer, principalmente em casos de comprometimento neurológico, acompanhamentos a longo prazo, onde os resultados que venham a surgir, podem ser muitas vezes considerados demasiadamente lentos, o que pode causar ao paciente e seus familiares cansaço e impaciência.
Indivíduos portadores de deficiência física e/ou mental, geralmente apresentam problemas de insegurança ao realizarem qualquer tipo de trabalho que seja executado com eles. São pessoas que apresentam medos e complexos difíceis de serem superados, fazendo com que se torne difícil a obtenção de resultados satisfatórios no quadro clínico, pois nem sempre colaboram com a terapia. Entretanto, esta não colaboração provém da falta de incentivo, monotonia, falta de auto confiança, medo, fuga, irritação, ou seja, acontecimentos que são possíveis de ocorrer em uma sala ou clínica terapêutica.
O TRATAMENTO NA EQUOTERAPIA: Apesar de existir há milhares de anos, começou a ser divulgada no Brasil, no início da década de 70, na qual os pioneiros neste trabalho formaram a Associação Nacional de Equoterapia (ANDE - Brasil), situada em Brasília - DF.
Em 1997 a equoterapia foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como uma prática terapêutica que deve ser realizada por profissionais legalmente habilitados.
É indicada nos casos de paralisia cerebral; lesões neuro-motoras (cerebral e medular); deficiências sensoriais (áudio - fono e visual); distúrbios evolutivos e/ou comportamentais; patologias ortopédicas (congênitas ou adquiridas); distrofias musculares; amputações; síndromes genéticas; esclerose múltipla; atraso no desenvolvimento neuropsicomotor; retardo mental; acidente vascular cerebral; distúrbios emocionais, de linguagem e de aprendizagem; autismo; dentre outros.
Os indivíduos que realizam a equoterapia são chamados de praticantes, isto porque estão agindo sobre o animal e, não só recebendo estímulos do mesmo.
O processo de desenvolvimento em equoterapia é feito nos seguintes programas básicos: Hippoterapia; Educação/ reeducação e; Pré-esportivo.
Os primeiros momentos são aproveitados para facilitar a adaptação do praticante sobre o cavalo e, durante este instante, a cadência de movimentos produzidos pela andadura ao passo do animal, causa uma adequação no tônus muscular oferecendo com isso, maior facilidade para se trabalhar todos os exercícios que serão realizados durante a sessão de equoterapia.
RESULTADOS: Na equoterapia a estimulação que vem do ambiente e dos movimentos oscilatórios tridimensionais do cavalo, a qual o praticante está exposto, remetem ao mesmo uma sensação totalmente inusitada, fazendo com que a espontaneidade se aflore e o prazer em estar montado em um animal que é superior ao seu tamanho em porte e altura faz com que sua auto-estima e auto-confiança aumentem (sendo que alguns praticantes conseguem conduzir o animal).
O deambular do cavalo é o mais próximo do caminhar humano, tendo somente 5% de diferença. O movimento rítmico e tridimensional do cavalo, ao caminhar desloca-se para frente, para trás, para os lados, para cima e para baixo e, pode ser comparado com a ação da pelve humana ao andar.
Os resultados obtidos com as influências da equoterapia na (re)educação motora do praticante são vistos nos seguintes fatores:
- postura de base: pois no cavalo a postura do praticante é contrária aos padrões patológicos (é dado enfoque ao método neuro evolutivo Bobath);
- solicitações cinéticas provocadas pelos movimentos do cavalo, as quais os grupos musculares de ereção do tronco são estimulados alternadamente por contração e relaxamento, em um movimento complexo, que por si, estimula a rotação do tronco e envolve outros segmentos corpóreos e os membros em seqüência ordenadas e rítmicas;
- informações sensitivas e sensoriais provenientes do sistema vestibular, dos proprioceptores dos músculos e articulações. Estas aferências combinam-se segundo o esquema dos sinais de solicitação cinética organizada pela postura do praticante e os movimentos do cavalo. No entanto, as estimulações sensoriais, visuais e acústicas, que são captadas pelos movimentos executados, contribuem para a melhor percepção espacial;
- percepção da auto-imagem, que é o resultado destas informações sensitivas e suas respostas dinâmico-posturais, seja, como esquema corporal, seja em relação ao próprio interior psico-intelectual da criança e o ambiente que o cerca;
- o efeito sobre a organização espaço-temporal faz com que a experiência cognitiva do próprio corpo e do ambiente externo leve automaticamente o praticante a uma nova ou até melhor organização espaço-temporal, proporcionando uma utilização melhor de seu componente afetivo;
- modificações na natureza psicológica: a atividade automática do sistema nervoso central, ligada em sua maior parte à vida de relação, nasce de solicitações de caráter mecânico, mas também de impulsos superiores que envolvem os aspectos emotivo e intelectual do complexo psicomotor, que se manifesta de modo parcial, por estímulos quantitativos e qualificativos. A carência de estímulos adequados pode ser uma das causa da diminuição destes impulsos.
Para o desenvolvimento deste trabalho em Fonoaudiologia, o enfoque foi dado na parte relacionada à linguagem, ou seja, nas possibilidades de desenvolvimento da mesma em um ambiente diferente dos tradicionais, que são clínicas e ambulatórios.
Com a prática da equoterapia, pode-se verificar que os praticantes quando vão para o tratamento e, enquanto estão em tratamento, sobre o cavalo, todos apresentam uma enorme satisfação em estar montado em um animal dócil e que os aceita como é. Esta alegria transforma a seriedade da terapia numa sessão em que o aspecto lúdico predomina e, portanto, a vontade de traduzir seus sentimentos em palavras ou sons, faz com que a tentativa de comunicação de praticantes que não falam ou apenas realizam alguns sons, seja feita para demonstrar seu mais nobre momento: o da comunicação, seja com o meio ambiente, com os interlocutores, com si próprio ou, até como forma de agradecimento ao animal.
Interagindo com o meio ambiente a criança aumenta sua capacidade cognitiva.
Numa visão holística, o trabalho realizado em equoterapia está intimamente ligado à Fonoaudiologia, pois além do desenvolvimento de linguagem, está sendo trabalhado também o adequamento de funções estomatognáticas e órgãos fonoarticulatórios, a melhora da qualidade da capacidade respiratória e da coordenação pneumo-fono-articulatória, o qual estaremos aprimorando estes fatores para o bom desenvolvimento da comunicação.
Estudar a relação da linguagem e o meio ambiente como favorecedor de comunicação, talvez seja um estudo que reside na linguagem privativa de situações especiais, uma linguagem codificada a qual o significado e, também, o conteúdo emocional das palavras não são só expressos foneticamente, mas em imagens.
Por esta visão, relacionar equoterapia e desenvolvimento de linguagem, refaz do laço do estudo, um nó que se desata sem esforço e apresenta uma ou mais alças - o vínculo.
Quando a criança começa a falar, ela está descobrindo sua relação com as pessoas e os objetos, a linguagem permite a ela reproduzir esta realidade.
Devemos lembrar que o papel da imitação no acesso da linguagem, também é essencial, ou seja, desde os primeiros elementos verbais de comunicação, a criança penetra na via da linguagem falada pelos seus interlocutores.E esta mesma linguagem se constituirá como modelo e referência constante.
Para que ocorra o adequado desenvolvimento de linguagem, devemos elucidar um item primordial: a maturidade neurológica. Esta maturidade neurológica depende dos seguintes fatores: mielinização do sistema nervoso; aumento da árvore dendrítica; boa alimentação e estímulos do meio ambiente.
Desde a mais tenra infância a criança é exposta a inúmeras possibilidades de interação com os ambientes ecológicos e social, bem como com seu próprio comportamento. À medida que ela se desenvolve, essas interações vão sendo gravadas e tornando mais complexo o seu comportamento conceitual, com base em controles por estímulos cada vez mais sofisticados.
Soma-se a isto, a liberdade de expressão, o aumento da auto-estima e da auto-afirmação e teremos atitudes visíveis, que vêm com o deambular do animal, como a expressão de sentimentos.
Os movimentos cadenciados do animal e a alegria de comandá-lo, fazem com que a participação ativa do praticante no decorrer da terapia tragam pontos positivos e incomensuráveis.
A equoterapia é desenvolvida ao ar livre, em ambiente no qual o praticante vai estar intimamente ligado à natureza e, ainda, montado em um animal que é superior em porte e altura; podendo comandá-lo (quando possível), é dócil e ajuda a quem necessita dele.
A equoterapia vem de encontro à necessidade de amenizar a longa trajetória destes pacientes que, freqüentemente, são acompanhados por diversos profissionais (e muitas vezes em diferentes lugares), poderem ser trabalhados por mais de um profissional, ao mesmo tempo e em um só local. A interação com o animal, incluindo os primeiros contatos, os cuidados preliminares, a montaria e o manuseio final, desenvolve ainda novas formas de socialização, confiança em si mesmo e auto estima.
Como esta forma de terapia é realizada ao ar livre, torna-se importante salientar que os pais participam de forma efetiva, pois estão vendo como é realizado o tratamento e podem avaliar o desempenho de seus filhos a cada encontro, com isto, consequentemente , há um crescimento dos pais também, que observando os avanços de seus filhos elaboram melhor a aceitação das dificuldades deles; pois percebem que o animal os aceita sem distinção.
A equoterapia proporciona, portanto, que pais, praticantes e terapeutas tenham uma relação mais próxima.
A equipe tem caráter multidisciplinar e interdisciplinar, sendo necessário no mínimo três integrantes para garantir o bom desempenho e a segurança do praticante (que é assim denominado por permanecer ativo durante todo tempo da terapia). É fundamental um auxiliar-guia para condução do cavalo e dois laterais para execução das atividades junto ao praticante.
Este tipo de terapia, por estar centrada na individualidade de cada praticante, permite que os objetivos de diferentes áreas possam ser alcançados ao mesmo tempo, ou seja, é um método terapêutico onde profissionais como o fonoaudiólogo, o fisioterapeuta, o psicólogo, o pedagogo e o terapeuta ocupacional podem atingir objetivos gerais e específicos.
"Em uma sessão de Equoterapia após trinta minutos de exercício, o paciente terá executado de 1,8 mil a 2,2 mil deslocamentos que atuam diretamente sobre o seu sistema nervoso profundo, aquele responsável pelas noções de equilíbrio, distância e lateralidade. Ou seja , o simples andar do animal faz dele uma máquina terapêutica capaz de garantir ao deficiente uma capacidade motora que ele não possuía e, assim, restituir-lhe, pelo menos em parte, as funções atrofiadas pelo comprometimento físico." ( Revista ISTO É, 16/10/96)
Na equoterapia é muito importante o processo de chegada, aproximação e despedida do animal, visto que um vínculo forte é estabelecido, pois trata-se de um ser vivo, maior em porte e altura do que o praticante e, que remete uma sensação agradável com o deambular e calor de seu corpo, pois sua temperatura é mais alta que a do ser humano.
No final da terapia a descontração e o relaxamento com a volta ao passo lento (após ter passado alguns momentos pelo trote certos praticantes), servem para que o praticante e o animal retornem ao seu batimento cardíaco normal e se despeçam.
Torna-se um ritual o abraço da chegada e o da despedida, além de carinhosos afagos no animal durante o decorrer da terapia.

Por Fernanda Paula Ribeiro dos Santos*

* Fernanda Paula Ribeiro dos Santos é Fonoaudióloga e sócia do Centro Equoterapia Paraíso
Revista CEFAC - Atualização Científica em Fonoaudiologia; volume 2, no.2, 2000 pg 55 a 61.
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O fonoaudiólogo utilizando a Equoterapia como uma nova abordagem terapêutica

Por Érica Veneroni Pinto

O fonoaudiólogo é um profissional da área da saúde responsável pela reabilitação ou habilitação de problemas da fala; linguagem; mastigação e deglutição; audição; aprendizagem; etc. Por este motivo, ele também não poderia "ficar de fora" da Equoterapia, que é "um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma aborgagem interdisciplinar, nas áreas da Saúde, Educação e Equitação, buscando o densenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadores de deficiência e/ou de necessidades especiais" (ANDE, 1999).
Porém, no Brasil, a Equoterapia ainda não foi estabelecida como uma área de trabalho da Fonoaudiologia, devido a pouca divulgação do trabalho fonoaudiológico tradicional como um todo, por ser uma ciência nova e devido à falta de divulgação do trabalho fonoaudiológico na Equoterapia. Atualmente, existem poucos fonoaudiólogos utilizando-se dessa técnica.
Segundo dados levantados em minha monografia, nos últimos cinco anos houve um maior interesse desta nova abordagem terapêutica, pelos fonoaudiólogos. Estes profissionais tem uma formação de até dez anos e interessaram-se por esta área porque procuravam um lugar extra-médico para atuarem e uma terapia que proporcionasse aos pacientes resultados eficazes e rápidos.
A função do fonoaudiólogo na Equoterapia é adaptar os conhecimentos de sua área juntamente com os conhecimentos da Equoterapia, proporcionando ao paciente uma terapia lúdica e prazerosa, em um ambiente aberto e rodeado pela natureza.
Como praticamente tudo em nosso dia-a-dia necessita de ritmo (a fala, a mastigação, o batimento cardíaco, a respiração, etc.), o fonoaudiólogo "aproveita-se" do andar ritmado do cavalo para trabalhar alguns destes aspectos alterados como: a fala, respiração e mastigação, no ambiente equoteráptico. Utilizá-se também, do estímulo que o cavalo e o ambiente proporcionam ao paciente (ou praticante) trabalhando a linguagem e os aspectos cognitivos deste.
Geralmente, este profissional trabalha com indivíduos que apresentam os seguintes quadros fonoaudiológicos:
  • Atraso no Desenvolvimento Neuropsicomotor;
  •  Atraso de Linguagem;
  • Retardo de Aquisição de Linguagem; o Disfagia;
  • Alterações musculares, estruturais e funcionais dos órgãos fonoarticulatórios (língua, lábios, bochechas...);
  • Alterações nas funções neurovegetativas (Sucção, mastigação, respiração, deglutição...);
  • Deficiências auditivas o Disartria;
  • Afasia;
  • Distúrbio Articulatório, etc.
Porém, seu trabalho não engloba apenas estes aspectos pois este profissional deve apresenta visão globalizada do indivíduo, isto é, o indivíduo considerado como um ser maior, entendido em sua dimensão bio-psico-social e não como uma simples "boca". Esse trabalho pode ser melhor realizado juntamente com a equipe interdisciplinar que está integrado, onde há um troca de conhecimentos muito grande de todas as áreas envolvidas.
É importante salientar, que esse profissional é tão importante na Equoterapia quanto os demais profissionais de áreas afins (fisioterapeutas, psicólogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais, professores de equitação, etc).

Por Érica Veneroni Pinto

* Érica Veneroni Pinto - Fonoaudióloga 


A Equoterapia associada ao tratamento fisioterápico na Paralisia Cerebral
Estudo de Caso

Pesquisa realizada no HC-UNICAMP, no Setor de Fisioterapia em Neurologia Infantil, e no Centro de Equoterapia Passatempo 
O principal objetivo deste trabalho é verificar os ganhos físicos e psicossociais de uma criança portadora de paralisia cerebral submetida ao tratamento fisioterápico convencional associado à equoterapia.
Relato de caso: A.A.C.P., do sexo masculino, tem 5 anos e é portador de paralisia cerebral decorrente de hemorragias periventriculares perinatais (grau IV à esquerda e III à direita) e hidrocefalia secundária, com diagnóstico de disfuncional de tetraparesia espástica incompleta. A criança nasceu prematura de 28 semanas e, além dos eventos já citados, apresentou também meningite, perfuração intestinal e parada cárdio-respiratória. Quando iniciado o presente trabalho, em junho de 2001, o paciente havia realizado um ano de fisioterapia convencional e um ano de hidroterapia, e apresentava sedestação independente e bipedestação e marcha com apoio e muita dificuldade. Seu caso foi discutido entre as equipes de fisioterapia (Setor de Fisioterapia Aplicada a Neurologia Infantil - Hospital das clínicas da Unicamp) e equoterapia (Centro de Equoterapia Passatempo), sendo esta última composta por fisioterapeutas, fonoaudióloga, psicólogo e equitador; em seguida foram traçados planos de terapia que se complementassem. Foram realizadas 2 sessões semanais de 45 minutos de fisioterapia, além de 2 sessões semanais de 30 minutos de equoterapia, desde junho de 2001, tendo sido realizadas constantes avaliações fisioterápicas, fonoaudiológicas e psicológicas. As condutas visavam que o paciente adquirisse bipedestação e marcha independentes além de melhorias em aspectos psicossociais.
Conclusão: A união das duas terapias propiciou aumento na força de MMII e equilíbrio resultando na melhoria da marcha, além do desenvolvimento da integração social. Foi possível através de fotografias e filmagens perceber a grande melhora de seu alinhamento biomecânico, equilíbrio, marcha e auto-confiança.

Por Sabrina Morelli; Paula Ortiz; Paula Venturini; Tatiany Vieira;
Graziela Mancini; Lívia Sampaio; Ângelo Skarlassari.
Orientação: Eugênia Rodrigues 

Centro de Equoterapia Passatempo - e-mail
Rua Bartolo Martins, 831, Guará - Barão Geraldo - Campinas - SP
(próximo ao Condomínio Rio das Pedras).
Telefones: 9121-2308 e 3251-3379 - Graziela

O papel do Instrutor de Equitação na Equoterapia

Sabemos que existe um tripé mínimo para a prática da Equoterapia. o elemento sem o qual esta atividade seria completamente impossível é o Instrutor de equitação. Parte do suporte essencial, o instrutor ou equitador, como alguns preferem chamar é o principal responsável pelo cavalo, sua escolha, seu manejo e outros tantos aspectos que iremos enumerar adiante.
Antes de falar em instrutor de equitação ressalto que nem sempre os que não são diplomados por cursos em instituições militares devem ser impedidos de atuar numa equipe. Algumas virtudes inatas à pessoa devem ser levadas em conta, além de suas habilidades técnicas e conhecimentos sobre o cavalo. Ressaltamos que a paciência e a habilidade em tratar com crianças e pessoas portadoras de necessidades especiais é mais importante que títulos de campeonatos. Em certa ocasião fui impedida de participar da equipe de palestrantes de um curso porque "não tinha feito Curso de Equitação e não era "Espora de Ouro", desculpa que já escutei muitas vezes por pessoas que ignoravam ou não reconheciam a experiência de mais de 30 anos de picadeiro com as crianças e alunos recusados pelos instrutores "oficiais"das hípicas onde trabalhei.
Definir as funções de um instrutor de equitação na equipe é uma coisa séria e muito distinta, mas tentaremos de uma certa maneira definir algumas delas. Conhecer os tipos de deficiência e como lidar com elas é parte importante de sua "bagagem técnica" e deve ser orientado pelos profissionais da área de saúde da equipe.
É primordial que o instrutor de equitação tenha conhecimento suficiente para:
a) escolher os cavalos adequados para a equoterapia;b) treinar cada animal, para a montaria em rampa, trapézio, banco, etc O cavalo deverá aceitar a montaria pelos dois lados.Este também será preparado para aceitar a movimentação do cavaleiro, exercícios, mudança de posição na sela, sem alterar-se.c) ensinar os membros da equipe a montar, conduzir o cavalo em várias andaduras e na montaria acompanhada, em sela, manta ou selote, com ou sem estribos, conforme o planejamento feito anteriormente.Este aspecto é importantíssimo, pois uma equipe deve ser bem instruída na sua montaria, a fim de fazer um rodízio no atendimento de cada praticante do programa de Hipoterapia.
d) exercitar cada cavalo, acostumá-los com equipamentos, materiais ou brinquedos utilizados pela equipe durante a sessão.
e) escolher em conjunto com a equipe o animal e o material a ser usado, levando em conta as características do praticante e as do cavalo;
f) orientar os auxiliares-guia e os side-walkers (uso este nome para definir os acompanhantes laterais) a respeito da maneira correta de guiar o cavalo à mão, à guia ou outro modo definido previamente pela equipe; g)orientar os responsáveis a manter em perfeito estado o material de montaria, orientando quanto à sua conservação e limpeza.
g) verificar antes da montaria o estado de saúde de cada animal, a colocação dos arreios e a limpeza do mesmo.Cabe ao instrutor verificar o estado dos cavalos e das cocheiras, orientando os funcionários no trato com estes cavalos.h) receber os praticantes juntamente com a equipe, orientando a chegada e a ajuda de todos, no caso dos praticantes que ensilham seus cavalos. Verificar cada um antes da montaria e orientar o praticante sobre a maneira acertada. Elogie sempre um trabalho bem feito!
i) discutir com os outros membros da equipe cada progresso, detalhes e atitudes dos praticantes, observando seu desenvolvimento sobre o cavalo. Definir metas e métodos para alcançá-las.
Poderíamos enumerar muitas outras funções do equitador, são inúmeras, podemos afirmar que cabe a ele a maior parcela da responsabilidade pela segurança e integridade física do praticante, se pudéssemos dividir a responsabilidade em "quotas", pois o convívio com o cavalo exige muitos cuidados e disciplina.
Costumamos sempre fazer uma palestra sobre os cuidados que o ambiente hípico exige, direcionada aos profissionais da equipe, pais e acompanhantes, onde o equitador orienta a todos quanto à aproximação, manejo e segurança. Esta palestra independe do ensino da equitação aos demais membros da equipe técnica. Muita paciência e persistência são necessárias, talvez até teimosia para persistir. Ser prudente, não correr riscos desnecessários, ao mesmo tempo irradiar confiança no praticante. (parece paradoxal, mas é possível).Não precisamos citar a autoridade do instrutor na manutenção da disciplina no ambiente eqüestre, deve ser enérgico no cumprimento das regras de segurança que o meio exige. Afinal, todo cuidado é pouco.

Por Ângela Simas Andrade de Oliveira*

* Ângela Simas Andrade de Oliveira - Instrutora de Equitação

A Viagem do Senhor Down pelo Mundo da Hipoterapia: Estudo experimental com crianças com Síndroma de Down

Por Áurea Alexandra Canas Coelho
Resumo:

Considerámos importante realizar um estudo onde fosse possível avaliar os benefícios da Hipoterapia no desenvolvimento Infantil de crianças com Síndrome de Down. Para estudarmos o desenvolvimento infantil, decidimos aplicar um instrumento que nos permite avaliar áreas distintas do desenvolvimento, nomeadamente a área locomotora, o desenvolvimento pessoal/social, a área auditiva e linguagem, a coordenação olho/mão e a área relacionada com o raciocínio prático. Após duas aplicações com um período distinto de quatro meses, através desta investigação verificam-se benefícios no desenvolvimento destas crianças devido à prática de Hipoterapia.
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Áurea Alexandra Canas Coelho -
Psicóloga Clínica (Portugal) 

Fonte dos Artigos Científicos:http://www.equoterapia.com.br/artigos.php


Autismo & Equoterapia




A utilização do cavalo no tratamento equoterápico, além da função cinesioterápica, produz importante participação no aspecto psíquico, uma vez que o indivíduo usa o animal para desenvolver e modificar atitudes e comportamentos (GAVARINI, 1997). Este recurso terapêutico pode melhorar as relações sociais de crianças Autistas favorecendo uma melhor percepção do mundo externo e ajuste tônico-postural adequado (FREIRE, 2003). Segundo o DSM-IV, Transtorno Autista ou Autismo Infantil Precoce é um transtorno invasivo do desenvolvimento, definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometido que se manifesta antes da idade de três anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal em três áreas: interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. Leia o artigo em "Mais Informações" ...




A interação com o cavalo, desde o primeiro contato e cuidados preliminares até a montaria, também desenvolve novas formas de comunicação, socialização, autoconfiança e auto estima.


O objetivo de nosso trabalho é ilustrar o processo de aproximação e percepção com o cavalo, relacionamento com a equipe, superação de medos e confiança. O sujeito da   pesquisa foi uma criança com Transtorno Autista, classificada segundo o DSM-IV, de 3 anos. Para os atendimentos equoterápicos foi utilizado um mini-pônei que têm características que facilitam o trabalho de aproximação. O Local dos atendimentos foi o Instituto São Vicente, onde funciona o PROEQUO-UCDB. Foi realizada uma sessão semanal de Equoterapia durante dois semestres letivos. E os dados colhidos através de observação, registro contínuo e fotos. Na discussão falamos sobre o desenvolvimento das sessões. Nossas conclusões demonstram que o contato com a equipe de atendimento e o cavalo, geram ganhos mesmo quando a montaria propriamente dita não ocorre de forma efetiva. 


Introdução e Objetivos


O Programa de Equoterapia da Universidade Católica Dom Bosco/PROEQUO – UCDB, situado na área de pesquisa avançada da UCDB, Instituto São Vicente, foi criado no ano de1999. A equipe é composta por uma Psicóloga que também é Instrutora de Equitação, um Fisioterapeuta e uma Terapeuta Ocupacional. Visa o tratamento de pessoas portadoras de necessidades especiais e/ou deficiências, e atende as Instituições de Campo Grande como a APAE, Instituto Sul Matogrossense para Cegos Florivaldo Vargas – ISMAC, Sociedade Educacional “Juliano Varela” (Síndrome de Down), além de pacientes da Clínica Escola UCDB. Oferece ainda oportunidade de estágio voluntário promovendo o ensino, pesquisa e extensão aos acadêmicos dos cursos de Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Terapia Ocupacional, Zootecnia e Veterinária da mesma Universidade.

As terapias utilizando animais promovem benefícios relacionados ao bem estar físico e emocional, muitos estudos mostram os ganhos da interação entre homens e animais. De maneira geral classificamos de duas formas esta relação: promovendo a saúde humana e como terapia específica (FINE, 2000). 


No âmbito da psicologia e da reabilitação, percebe-se que na relação entre “pessoa- animal” existe uma troca que gera ganhos psíquicos e físicos. Sendo assim, a Equitação não é considerada simplesmente como esporte ou lazer, pois é possível usufruir muito mais do que aquilo que um simples exercício físico oferece.

Ao analisar aspectos desta relação, verificamos a inexistência de preconceitos, pois o animal na demonstração de afetos, não leva em conta o prejuízo na aparência física da criança ou adulto. 


Também o cavalo, por ser um ser vivo, tem suas próprias reações e requer compreensão, atenção e afeto de quem o monta. Assim, a estimulação que o animal proporciona pode ser aumentada através de um trabalho complementar com exercícios e propostas que levem a pessoa buscar, soluções criativas para seu crescimento e desenvolvimento biopsiocosocial.


Além disso, os aspectos sociais, orgânicos e afetivos, são trabalhados juntamente com a fisioterapia propriamente dita, cumprindo desta maneira os objetivos de reabilitação global.


"As terapias utilizando cavalo podem ser consideradas como um conjunto de técnicas reeducativas que agem para superar danos sensoriais, motores, cognitivos e comportamentais, através de uma atividade lúdico-desportiva, que tem como meio o cavalo” (CONGRESSO NACIONAL DE EQUOTERAPIA, 1999).


Ainda de acordo com a autora, a Equoterapia favorece a reintegração social, que é estimulada pelo contato do indivíduo com outros pacientes, com a equipe e com o animal,   aproximando-o desta maneira, cada vez mais, da sociedade na qual convive.


A utilização do cavalo para o tratamento, além de sua função cinesioterápica, produz importante participação no aspecto psíquico, uma vez que o indivíduo usa o animal para desenvolver e modificar atitudes e comportamentos. No âmbito da Psicomotricidade
observamos a aprendizagem de movimentos rítmicos, aquisição de equilíbrio, desinibição e segurança motora; autoconsciência motora corpórea favorecida pelo enérgico contato físico
com o animal (GAVARINI, 1997; CONGRESSO NACIONAL DE EQUOTERAPIA, 1999).



Segundo (CONGRESSO NACIONAL DE EQUOTERAPIA, 1999)os efeitos visados são de quatro ordens: Relação, onde a valorização plena do indivíduo a cavalo, a comunicação, autoconfiança, autocontrole, vigilância da relação, atenção e tempo de atenção;


Psicomotricidade, pode melhorar o tônus, mobilizar as articulações da coluna e bacia, facilitar o equilíbrio e postura do tronco ereto, favorecer a obtenção da lateralidade, melhorar a percepção do esquema corporal, permitir melhor conhecimento de posições de seu corpo e do corpo do cavalo; Natureza técnica (o cavalo), favorece aprendizagens referentes aos cuidados com ele: estábulos, alimentação, curativos, selar e colocar as rédeas e, sobretudo, as técnicas de equitação e; Integração na sociedade, contato com o

animal, pessoal do centro eqüestre, outros membros do grupo, outros cavaleiros, e quando possível, durante os circuitos percorridos, com os habitantes da vizinhança.


Segundo o DSM-IV e a CID-10, Transtorno Autista ou Autismo Infantil Precoce é um transtorno invasivo do desenvolvimento definido pela presença de desenvolvimento anormal e/ou comprometido que se manifesta antes da idade de três anos e pelo tipo característico de funcionamento anormal em todas as três áreas: interação social, comunicação e comportamento restrito e repetitivo. Sua prevalência é de 4 a 5:10.000, com predomínio em indivíduos do sexo masculino (3:1 ou 4:1), sendo decorrente de uma vasta gama de condições pré, peri e pós-natal.


Autismo Infantil é uma síndrome caracterizada por alterações presentes desde idades bastante precoces e que se manifesta, sempre, por desvios nas áreas da relação interpessoal, linguagem/comunicação e comportamento.

O desenvolvimento da motricidade dos Autistas no Recurso Equoterápico é altamente significativo e pode repercutir de forma imediata nos hábitos de independência, sugerindo a necessidade de um trabalho intensivo como forma de atingir também os aspectos afetivos, sociais e cognitivos, por este motivo deve-se encorajar o praticante a obter independência sobre o cavalo (FREIRE, 2004).
Este recurso terapêutico pode melhorar as relações sociais de crianças Autistas favorecendo uma melhor percepção do mundo externo e adequações nos ajustes tônico-posturais, torna-se então necessário a apresentação de níveis realísticos, para que a satisfação e a autoconfiança sejam obtidos, sendo assim, paciência e tato serão necessários para auxiliar um autista a eliminar medos, maneirismos e aprender a montar (FREIRE, 2003).

As fases da Equoterapia no trabalho com autistas são importantes para a aceitação do contato com os animais por parte dos pacientes, estes são citados por Freire (1999) a seguir: Fase da aproximação, onde a pessoa conhece o animal e suas características (temperatura, movimentos, textura da pelagem, entre outros), esta propicia a oportunidade de comparações e estimula a curiosidade; a fase da descoberta engloba duas etapas, sendo a primeira no solo feita de forma lúdica estimulando o contato efetivo com o cavalo e a segunda em montaria parada para adaptação e percepção das possibilidades da relação com o animal; a fase educativa que diz respeito a sessão equoterápica e fase da ruptura, importante para continuidade do trabalho pois é preciso o entendimento por parte da criança que o término da sessão não significa que ela não terá a possibilidade de retorno.


A autora relata a importância de ressaltar que as crianças poderão ter dificuldades em aprender através de instruções verbais sendo necessária uma paciente repetição e orientação corpórea. O terapeuta deve tornar a aula movimentada e interessante para impedir que os cavaleiros queiram abandonar a atividade (todo tipo de estimulação inclusive lançar mão de recursos materiais) (FREIRE, 2004).


Muitas vezes, as crianças manifestam pequeno ou nenhum interesse por outros cavaleiros ou instrutores, entretanto à medida que progridem eles provavelmente se afeiçoam a um cavalo ou a uma pessoa. É essencial estabelecer limites, direções claras e curtas, tentando manter contato visual (olho no olho), além de elogiar quando estiver certo (FREIRE, 2004).

Freire (1999) ao desenvolver um instrumento de avaliação em Equoterapia embasado no DSM IV, a tabela ECCA (1999), cita os pontos importantes a serem observados no trabalho com autistas:

1) Percepção do Outro: Focalizar atenção em um membro da equipe (visual ou auditiva), alerta da existência ou sentimentos dos outros; 
2)Imitação: Imitação dos gestos propostos pela equipe; 
3)Jogo Social: Reciprocidade social ou emocional. Relacionar-se com os membros da equipe; 
4) Amizade com seus pares: Relacionar-se ou procurar outro paciente, ou seja, relacionamento apropriado com seus pares em nível de desenvolvimento; 
5) Balbucio Comunicativo: Balbucio com intenção de relacionamento social; 
6) Mímica: Mudança de expressão facial;
7) Linguagem Falada: Palavras inteligíveis; 
8) Sorriso como Resposta: Sorriso que denota algum sentido; 
9) Postura corporal ou gestos para iniciar ou modular a interação: Vontade objetiva demonstrada, tentativa de compensar a linguagem falada com modos alternativos, tais como
gestos ou mímica; 


10) Estereotipias: Maneirismos motores esterotipados e repetitivos, por
exemplo agitar ou torcer as mãos ou dedos ou movimentos complexos de todo corpo;


11) Vinculação com objetos inusitados: Estar sempre necessitando de algum objeto diferente
para manipular na hora de sessão; 


12) Percepção em relação ao mundo externo: Observação de objetos e situações que diferem do cavalo e equipe que acompanha o paciente; 
13) Ajuste tônico postural: Ajuste da postura a cavalo; 
14) Reação de evitação ao cavalo: Não querer aproximar-se do cavalo; 
15) Estado de excitação: Agitação excessiva durante a sessão;
16) Aversão ao contato físico: Não admitir o toque ou afago dos membros da equipe; 
17) Obedecer ordens simples: Fazer o que é proposto durante a sessão; 
18) Percepção, exploração e relacionamento com animal: Perceber o cavalo; 
19) Iniciativa própria: Mostrar intenção e desejo por algo; 
20) Dispersão: Desligar-se do ambiente, equipe e animal durante a sessão.


É importante a aceitação do contato com os membros da equipe, inclusive o contato corporal. O recurso equoterápico pode auxiliar na melhora das relações sociais das crianças autistas.

O desenvolvimento afetivo é importante para cognição e aprendizagem, além disso, existe uma relação entre áreas motoras e o desenvolvimento emocional e afetivo, o que reforça a importância de trabalhos e propostas que beneficiem o desenvolvimento da motricidade, favorecendo uma melhor percepção do mundo externo, no ajuste tônico-postural.



Segundo Roberts (2002) existem semelhanças entre o comportamento autista e atitudes do cavalo. Para ambos, ruídos mais altos, mudanças na rotina e ambientes desconhecidos causam insegurança e grande parte da comunicação que estabelecem depende da linguagem corporal. Toleram uma quantidade restrita de contato corporal, sendo que este nunca ocorre através de imposição. Segundo o autor a capacidade instintiva do cavalo de perceber as intenções do cavaleiro leva o animal a acalmar-se quando montado por um Autista.

O contato com animais pode gerar expectativas de troca e representação de regras sociais, quando utilizados em terapias (WILSON & TURNER, 1998).

A interação com o cavalo, desde o primeiro contato e cuidados preliminares até a montaria, também desenvolve novas formas de comunicação, socialização, autoconfiança e auto estima (FREIRE, 2003).
Em trabalhos com crianças psicóticas o pônei é utilizado para entrar em "contato".


Este facilita a entrada em "nosso" mundo abrindo um canal para a comunicação "social" (RAPENE, 1998). 


O Autista pode olhar, tocar e este “objeto” não é estático. Este conhecimento gera comparações entre as partes do corpo do cavalo e da própria criança, além de suas utilidades e possibilidades. O cavalo não é um predador e suas reações de alerta servem como defesa contra agressores assegurando sua proteção. 

A criança começa a perceber as reações do pônei e sente-se encorajada a aproximar-se.


O objetivo desse estudo é ilustrar o processo de percepção da criança com relação ao cavalo e aproximação com o mesmo, relacionamento com a equipe, superação de medos e aquisição de confiança e como, através desta aproximação podemos obter ganhos em nível terapêutico.


Metodologia


Esse trabalho caracteriza-se como um estudo de caso de validação clínica com uma abordagem qualitativa no qual o sujeito foi uma criança com Transtorno Autista, classificada segundo o DSM IV, de 3 anos.


Para os atendimentos equoterápico utilizamos um mini-pônei, encilhado com sela australiana tamanho infantil, cabeçada e cabresto.

Este animal possuí características que facilitam o trabalho de aproximação, tais como: altura, tornando-se menos ameaçador; docilidade; facilidade para condução em diversos locais, muitas vezes inacessíveis a cavalos de grande porte.


Para o registro das sessões adotamos as fichas diárias padrão do PROEQUO-
UCDB, registro contínuo, tabela de observação de comportamento do Autista em Equoterapia (ECCA,1999), fotografias e entrevistas com familiares. O local dos atendimentos foi o Instituto Os atendimentos foram realizados com dois acadêmicos estagiários do curso de Psicologia, Psicóloga e Instrutora de Equitação, Fisioterapeuta, e Terapeuta Ocupacional.


As sessões aconteceram durante dois semestres letivos, em sessões semanais de trinta minutos. E os dados colhidos através de observação, registro contínuo e fotos.


Os atendimentos objetivaram a aceitação do cavalo pelo paciente, utilizando o espaço existente no PROEQUO-UCDB, permitindo assim a aceitação do mesmo aos membros da equipe de atendimento e exploração do local, onde a natureza é abundante.


Contamos no local com trilhas, vários tipos de piso (areia, grama, água) e picadeiro para trabalho.

Resultados e discussão 

A seguir faremos um relato resumido sobre algumas sessões:



Durante as primeiras sessões não aceitava o contato com a equipe, ficando somente com a mãe.



Os terapeutas buscaram o contato com a criança inicialmente utilizando os recursos naturais existentes no local (lago, árvores, sons de pássaros, texturas de materiais encontrados na natureza), sempre buscando despertar seu interesse e atenção. Após este período o sujeito conseguiu ficar só com os terapeutas.

Depois do contato inicial (aproximadamente três semanas) o cavalo entrou nesta relação, as brincadeiras realizadas sempre contavam com a presença do pônei, C. o ignorava e todas as tentativas de aproximação eram refutadas com choros e gritos. 

Nesta situação era comum C. sair correndo e dar pequenas paradas olhando para trás, talvez para que o seguíssemos para longe do animal.


A escolha do mini pônei deve-se a seu pequeno porte e docilidade que facilitam tanto o seu manejo e companhia durante os atendimentos quanto a expectativa da redução do temor da criança, pois este tem acesso a um animal menor nesta fase inicial.

Em alguns momentos começamos a perceber que C. parava e observava algumas reações do cavalo. A partir daí vimos relatos de sua fala tais como: “Oi Renatinho” (nome do pônei).



Todas nossas tentativas de colocar C. no cavalo foram frustradas, pois ele somente se aproximava deste quando queria.


Percebemos que com o decorrer das sessões C. tornou-se mais curioso com relação ao animal e explorava o ambiente que chamava atenção de Pônei. 

Quando o cavalo começava a pastar ele arrancava grama ao seu lado e dava ao terapeuta e indicava segurando a mão do mesmo para dar ao animal.
Quando caminhava na mata ao lado de “Renatinho” percebia as reações de alerta do animal parava de andar e olhava ao redor demonstrando que estava percebendo o ambiente.


Começou durante o trabalho a explorar a sela observando suas partes e dando tapas no assento da mesma.


A primeira vez que montou, parou em frente ao cavalo e tocou a cara do mesmo com uma das mãos. Em seguida parou do seu lado e fez o mesmo com a sela, depois a segurou e gesticulou como se fosse montar. O colocamos sobre o cavalo e ele deu algumas voltas montado, tentou descer e o ajudamos, deu “tchau” pela primeira vez à equipe e foi embora.


Durante a montaria cantou.


A partir daí se mesclam sessões em que C. chega correndo para ver os cavalos que ficam amarrados, brinca com eles, mas não monta e outras que pede através de gestos para montar e ficando sobre o cavalo por um breve período de tempo.


Ao final do segundo semestre de trabalho C. já aceitava os cavalos grandes e começava a dar sinais de descontração, explorando as partes do animal enquanto montava e chamando a atenção da equipe através de “tapinhas” e gargalhadas.


A mãe de C. relata que ele está verbalizando mais e observando mais situações e objetos.


Conclusões


Nossas conclusões demonstram que o contato com a equipe de atendimento e o cavalo, gera ganhos mesmo quando a montaria não ocorre de forma efetiva. O cavalo torna- se atraente para o autista estimulando seu contato visual e expressão corporal, mais uma vez apresentando-se como facilitador na relação social destas crianças.


Estas evidências corroboram com a literatura onde Roberts (2002), cita que a equitação além de estimular o desenvolvimento do ser humano como um todo tem seus benefícios aumentados através da estimulação do ambiente; por meio do ruído causado pelas folhas das árvores, a sensação do vento no rosto e a experimentação de uma diversidade de odores.

No trabalho com Autistas é importante a percepção por parte da equipe de qual o momento o paciente está vivendo em relação ao cavalo para que sua aproximação ocorra, pois o fato de perceber e aceitar o animal pressupõe uma curiosidade e contato com a realidade vivenciada naquele momento.

Através da utilização do Pônei percebemos que se aproximar do animal torna-se menos ameaçador devido ao seu pequeno porte. A criança pode tocá-lo com maior facilidade, explorar suas partes e interagir com o animal percebendo de perto suas reações.


Também o trabalho de descoberta torna-se mais seguro, pois o terapeuta pode usufruir uma liberdade maior ao cuidar da criança.


Tanto no cavalo como no pônei foi fundamental a percepção do momento que a criança estava vivendo para tentar aproximá-lo do animal.

Durante os semestres em que fizemos a aproximação todos os relatos dos familiares vinham de encontro a nossas conclusões durante o trabalho, pois fora do ambiente da Equoterapia ele começou a observar o mundo ao seu redor, modular mais gestos com intenção de comunicação e seu comportamento permitiu uma maior aproximação e contato com as pessoas.

Concluímos que o Pônei facilitou a aproximação de nosso paciente também com relação ao seu aspecto lúdico possibilitando que este “brincar” fosse mais tarde transferido para o cavalo.


Os resultados vêm de encontro à teoria onde a criança apresentou percepção do outro, jogo social, mímica, postura corporal ou gestos para iniciar ou modular a interação, percepção em relação ao mundo externo, percepção, exploração e relacionamento com animal, iniciativa própria que são pontos importantes segundo Freire (1999).


Este estudo não visa generalizações, mas demonstra que o trabalho envolvendo animais é de extrema importância e seus resultados válidos quando aplicados às crianças Autistas. Em nosso caso facilitou a montaria e o aspecto cognitivo e afetivo social.

Referências


CONGRESSO BRASILEIRO DE EQUOTERAPIA, 1, 1999, Brasília. Anais... Brasília: Ande
Brasil, 1999.
FINE, A. Handbook on Animal – Assisted Therapy: Theoretical Foundatios and Guidelines
for Practice. San Diego: Academic Press, 2000.
FREIRE, H. B. G. O Pônei como Recurso Facilitador no Trabalho de Equoterapia, 2004.
Anais... I CONGRESSO IBERO AMERICANO DE EQUOTERAPIA, III CONGRESSO
BRASILEIRO DE EQUOTERAPIA. Salvador – Bahia, 2004
FREIRE, H. B. G. Case Study: Therapeutic Riding and a child with atypical autistic condition.
Anais... XI INTERNATIONAL CONGRESS: The Complex Influence of Therapeutic Horse
Riding
FREIRE, H. B. G. G. O. Equoterapia teoria e técnica: uma experiência com crianças
autistas.São Paulo: Vetor, 1999.
GAVARINI, G. Aspectos Teóricos da Reabilitação Eqüestre. In: Wilsom de Moura (Coord.).
Coletânea de Artigos Traduzidos pela Equipe do Princípio Programa de Equoterapia do
Pará. Pará, 1997.
RAPENE, M. P. La metamorfose de l’enfant psychotique. Avec l’aide d’um “co-therapeute”:
Lê Pônei...
Attestation Universitarie de Rééducateur Par l’Equitation, Centre
psychothérapique de NANCY, 1998.
ROBERTS, M. Violência não é a resposta: Usando a sabedoria gentil dos cavalos para
enriquecer nossas relações em casa e no trabalho. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
WILSON, C.C. e TURNER, D.C. Companion Animals in Human Health. London: Sage


Autoria: FREIRE, H. B. G. - freirejb@terra.com.br

POTSCH, R. R.
Instituição: Universidade Católica Dom Bosco – UCDB, Brasil

Os Efeitos Terapêuticos da Equoterapia

Um dos conceitos que define esse recurso terapêutico se refere a ele como um conjunto de técnicas reeducativas que atuam para superar danos sensoriais, cognitivos e comportamentais e que desenvolvem atividades lúdico-esportivas utilizando o cavalo” (Cittério, 1999).A equoterapia é um recurso terapêutico que pode ser aplicado as áreas de Saúde (portadores de necessidades especiais físicas, sensoriais e/ou mentais); Educação (indivíduos com necessidades educativas especiais) e Social (indivíduos com distúrbios evolutivos e/ou comportamentais). Leia em "Mais Informações" .




Os efeitos terapêuticos que podem ser alcançados com a equoterapia são de quatro ordens (Garrigue, 1999):





• melhoramento da relação: considerando os aspectos da comunicação, do autocontrole, da autoconfiança, da vigilância da relação, da atenção e do tempo de atenção;





• 2 melhoramento da psicomotricidade: nos aspectos do tônus, da mobilidade das articulações da coluna e da bacia, do equilíbrio e da postura do tronco ereto, da obtenção da lateralidade, da percepção do esquema corporal, da coordenação e dissociação de movimentos, da precisão de gestos e integração do gesto para compreensão de uma ordem recebida ou por imitação;





• 3 melhoramento de natureza técnica: facilitando as diversas aprendizagens referentes aos cuidados com os cavalos e o aprendizado das técnicas de equitação;





• 4 melhoramento da socialização: facilitando a integração de indivíduos com danos cognitivos ou corporais com os demais praticantes e com a equipe multidisciplinar.





A equoterapia exige a participação do corpo inteiro do praticante, contribuindo assim para o seu desenvolvimento global. Quando o cavalo se desloca ao passo, ocorre o movimento tridimensional do seu dorso; portanto, há deslocamentos segundo os três eixos conhecidos (x, y, z), ou seja, para cima e para baixo, para frente e para trás, para um lado e para outro. Tal movimento é transmitido ao cavaleiro pelo contato de seu corpo com o do animal, gerando movimentos mais complexos de rotação e translação.





O passo do cavalo, que determina uma ação tridimensional de seu dorso e a repetição desses movimentos de 1 a 1,5 por segundo, proporciona entre 1.800 a 2.250 ajustes tônicos em meia hora, que é o tempo médio de duração de uma sessão de equoterapia. Esse ajuste tônico ritmado resulta em uma mobilização osteoarticular que determina um número impressionante de informações proprioceptivas. Esse sistema promove as percepções (propriocepção), consciente e inconsciente das diferentes partes do corpo.





Necessidades especiais visuais





Os deficientes visuais constituem-se como o grupo que apresenta, talvez, as maiores e mais antigas preocupações, tanto para as ciências como para a filosofia. Filósofos têm teorizado sobre o fato de os olhos possuírem uma relação mística com a alma. A história nos relata sanções relacionadas à perfuração dos olhos como punição por crimes sexuais e sociais. Outros textos mostram os cegos reverenciados como adivinhos ou considerados como transmissores verbais das tradições e dos valores culturais.





Até os dias atuais as atitudes para com os indivíduos cegos são diferenciadas e se revestem de benevolência social ou veneração pelo trabalho que realizam. Superstições e atitudes carregadas emocionalmente com freqüência estão associadas à cegueira. O público em geral considera a cegueira como a perda física mais limitadora que existe (Amiralian, 1997).





A característica específica da cegueira é a qualidade de apreensão do mundo externo. As pessoas cegas precisam utilizar-se de meios não usuais para estabelecerem relações com o mundo dos objetos, das pessoas e das coisas que as cercam: essa condição imposta pela ausência de visão se traduz em um peculiar processo perceptivo, que se reflete na estruturação cognitiva e na organização e constituição do sujeito psicológico (Amiralian, 1997).





O que não se pode desconhecer é que o deficiente visual tem uma dialética diferente, por causa do conteúdo que não é visual e da sua organização cuja especificidade é a de referir-se ao tátil, auditivo, olfativo, cinestésico. Dispor de todos os órgãos dos sentidos é diferente de contar com a ausência de um deles: muda o modo próprio de estar no mundo e de se relacionar (Mansini, 1994).





O desenvolvimento humano se dá por meio de vivências e experiências que, no caso da criança cega, são mais restritos e limitados, o que pode acarretar uma lentidão e até mesmo dificuldades em seu processo de maturação. As crianças cegas congênitas constroem a imagem do mundo pelo uso efetivo dos outros sentidos, daí a necessidade de estimulação dessas estruturas sensoriais para compensar a ausência da visão e diminuir a defasagem psicomotora.





Implicações da equoterapia para o cego





• Estimulação sensorial





Segundo Figueira (1996), o profissional, que tem como objetivo promover o desenvolvimento da criança cega, deve conhecer bem suas capacidades e seus potenciais, para explorá-los no decorrer do processo terapêutico. A criança cega não é capaz de se orientar, nem realizar adaptações em seu sistema muscular de acordo com as variações de posição, distância, tamanho e forma. Pela ausência da visão, as combinações autocorretivas de reforço mútuo entre a visão e as respostas motoras ficam muito comprometidas.





Devemos lembrar que não existe substituição de um sentido por outro. O conjunto sensorial funciona em sinergismo, em que nenhum dos sentidos realiza suas funções de forma isolada, eles se retroalimentam. Nesse sentido todo o processo terapêutico deve promover uma ampla estimulação dos outros sentidos em conjunto.





Nesse caso a equoterapia cumpre o seu papel terapêutico/educativo e de estimulação global do praticante cego, pois como diz Botelho (1999, p. 149):





... a cada passo do cavalo o centro de gravidade do praticante é defletido da linha média, estimulando as reações de equilíbrio, que proporcionam a restauração do centro de gravidade dentro da base de sustentação. O sistema vestibular é assim repetidamente solicitado, estimulando continuamente suas conexões com o cerebelo, tálamo, córtex cerebral, medula espinhal e nervos periféricos. Por meio de inúmeras repetições do movimento do andar do cavalo, o mecanismo dos reflexos posturais e a noção de posição dos vários segmentos corporais no espaço são reeducados durante 30 minutos da sessão de equoterapia.





Levando-se em consideração o local onde são realizadas as sessões de equoterapia, que por suas características naturais apresenta diversos estímulos auditivos e olfativos, além dos de comunicação que são proporcionados pela equipe multidisciplinar que realiza a intervenção, podemos considerar como um recurso que pode oferecer ao cego uma estimulação global e motivadora. Como diz Heimers (1970, p. 35):





Os estímulos que vem de fora constituem um fator importante na vida dos videntes, e os cegos os desconhecem, por isto, devemos manter sempre alertas esses estímulos, devemos despertar o interesse da criança cega para que ela não caia no marasmo. O movimento ao ar livre, na natureza, traz consigo um mundo de ensinamentos e experiências.





• Reeducação postural





A coordenação e o ritmo de uma criança cega ao andar podem ser mais desordenados do que os de uma criança com visão. Se a criança cega não for encorajada a conduzir seu corpo de maneira adequada, pode ser que mantenha uma grande distância entre as pernas ao ficar ereta e desenvolva uma má postura e uma forma de andar incorreta. Um problema comum é o da criança que deixa cair a cabeça sobre o peito. A criança cega deve ser instada a manter a cabeça erguida, perpendicular em relação ao chão (Oliveira, 1996).





A equoterapia vai ajudar na correção da postura, pois como diz Herzog (1989, p. 17):





... manter o equilíbrio significa, a principio, reconhecer uma atitude corporal pelo senso postural, depois reajustar sua posição. O cavaleiro deve coordenar seus próprios movimentos e dissociar os gestos dos braços e pernas. Ele é, portanto, conduzido a uma melhor compreensão de seu esquema corporal. Ele adquire, desde um primeiro contato, o domínio corporal, aprendizagem que, num primeiro momento, vai ser favorecida pelo terapeuta. É um trabalho que demanda concentração.





Sabemos que o aprendizado das técnicas eqüestres exige que o cavaleiro mantenha uma colocação correta na sela, ou seja, manter o tempo todo uma postura adequada, o tronco ereto e a cabeça perpendicular em relação ao solo, além de ter que dissociar os movimentos de braços e pernas, para que acompanhe os movimentos tridimensionais do dorso do cavalo e possa realizar o manejo correto das rédeas.





Durante as sessões de equoterapia, essas ações são desenvolvidas e estimuladas pelos terapeutas, fazendo com que o praticante realize o aprendizado correto da postura a cavalo. E como essas estimulações ocorrem por um período de 30 minutos, o número de informações proprioceptivas que provêm das regiões articulares, musculares, periarticulares e tendinosas são bastante diferentes das fornecidas quando estamos na posição de pé. As informações proprioceptivas dadas pelo passo do cavalo permitem a criação de esquemas motores novos: trata-se da reeducação neuromuscular.





• Relação com o outro





Paschoal (citado por Araujo, 1997), ao falar de educação psicomotora para crianças cegas, diz que é necessário permitir que a criança cega, desde pequena, se utilize do contato físico na relação corpo a corpo. Num trabalho psicomotor é necessário que o adulto permita essa entrega de si, para que ela possa sentir que o outro se movimenta, gesticula e que ela também pode se movimentar, gesticular, se soltar, etc. O autor diz que há nesse ato uma tomada de consciência por parte da criança do potencial motriz do seu corpo, de uma forma muito natural, livre, na brincadeira, no jogo, no momento em que ela está mais aberta, pois está mais absorta.





A equoterapia, como uma atividade que envolve a psicomotricidade, pode proporcionar à criança cega esse contato físico e de uma forma muito mais ampla, pois, desde o momento que o praticante cego chega ao local das sessões, ele é recebido pelos terapeutas e auxiliares e, enquanto aguarda sua vez, participa de jogos e brincadeiras, que permitem essa relação corpo a corpo. Quando está montado, esse contato físico passa a ser com o cavalo, que ele explora por meio dos outros sentidos, enquanto realiza os exercícios programados e o cavalo está ao passo.





Os diversos movimentos que ocorrem numa sessão de equoterapia além de contribuírem para essa tomada de consciência de seu potencial motriz, ocorrem, geralmente, de uma forma bastante prazerosa.





Estimulação para o desenvolvimento tátil





Grifin e Gerber (1996, p. 15), em seu artigo Desenvolvimento tátil e suas Implicações na Educação de Crianças Cegas, ao se referirem ao desenvolvimento tátil de crianças cegas dizem que:





... a modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do mero sentido do tato: inclui também a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão. As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos ambientais sejam significativos. [...] A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a exploração do pleno desenvolvimento tátil.





O programa por nós desenvolvido e aplicado no atendimento equoterápico de crianças cegas privilegiou a estimulação tátil, pois desde o primeiro momento em que chegam ao local de realização das sessões, as crianças são estimuladas a efetuar o reconhecimento da área, o que chamamos de ambientação, e é por meio da experiência tátil e dos outros sentidos que a realizam.





Em seu primeiro contato com o animal, a criança, por meio da modalidade tátil poderá perceber sua forma, a textura do seu pelo, o calor de seu corpo, seus movimentos respiratórios, as diferenças dos pelos da crina e da cola, e aos poucos o reconhecimento dos equipamentos de montaria que serão utilizados durante as sessões. Esse procedimento é repetido em todas as sessões, para que a criança cega adquira o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo e também a consciência de qualidade tátil, importante para o seu desenvolvimento.





• Reforço e motivação





A esse respeito Figueira (1996, p. , diz o seguinte:





... em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento. Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada pelos pais. Se não há reforço e motivação esta criança será invadida por uma sensação de insegurança e medo.





O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição feita.





Na equoterapia, os praticantes são encorajados e reforçados pelos membros da equipe que estão realizando a intervenção e, a todo momento, a cada ação realizada, a cada insegurança vencida, são estimulados a continuarem. Todo esse trabalho é realizado de forma a tornar o tempo em que permanecem montados o mais agradável e prazeroso possível, além de aproveitar todos os momentos e situações para o desenvolvimento dos outros sentidos.





• Aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais





As crianças cegas devem ter a oportunidade de vivenciar experiências totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas também sua posição no espaço e no tempo, suas relações com a criança e com outros seres e objetos. Dessa forma ela vai se organizando, conhecendo e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências (Figueira, 1996).





Nesse contexto o cavalo é um instrumento cinesioterapêutico, um ser vivente, dócil, que responde aos afetos que recebe, que tem vontade própria e que precisa ser dominado, para que o cavaleiro realize o manejo que desejar. Para Cittério (1999, p. 35): “A equoterapia poderá ser colocada num importante processo de aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais, no qual o indivíduo se tornará protagonista do momento reabilitador, um indivíduo ativo porque motivado pela relação com um outro ser vivente.”





Herzog (1989) relata que o cavalo pode ser um instrumento de acesso entre a realidade do praticante e a do terapeuta, funcionando ainda como intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante e o mundo exterior.





Assim, o cavalo proporciona ao praticante a criação de uma nova imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favorece a estruturação do eu. O deslocamento a cavalo, tendo pontos de referência (no nosso caso estímulos sonoros), exige a representação mental do gesto e do deslocamento.





O praticante deve respeitar o animal, fazendo com que ele compreenda aquilo que ele, praticante, decidiu sozinho. Isso faz com que o praticante que não fazia isso na vida cotidiana, o faça com o cavalo, resultando em uma revolução própria.





• Estimulação motora





Figueira (1996), quando reporta à assistência fisioterápica à criança cega congênita, reafirma que a melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é por meio da estimulação motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço. A passividade impressa pela ausência da visão pode implicar alterações nas seguintes áreas: tônus muscular, postura, coordenação motora e psíquica, equilíbrio, orientação espacial, cinestésica e social.





O recurso mais apropriado é a cinesioterapia por meio de exercícios passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento pode ser realizada pela estimulação auditiva, olfativa, gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando a desenvolver a consciência corporal, a coordenação motora, o equilíbrio, a correção postural, a marcha e a orientação no espaço.





A respeito dos ganhos em nível neuromotor, da equoterapia, Cittério (1992) relata que estes se evidenciam sobre o alinhamento corporal (cabeça, tronco, quadril), controle das simetrias globais, equilíbrio estático e dinâmico e que em nível psicológico percebe-se a melhora na capacidade de orientação e de organização espacial e também na capacidade executiva.





Na equoterapia o cavalo atua como agente cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino–aprendizagem e como agente de inserção e reinserção social. Cittério (1999) aborda o assunto, afirmando que não devemos nos esquecer da hipótese comportamentalista na qual se baseia a equoterapia, método considerado como condicionamento motor impresso no ritmo e no comando, também chamado de “pedagogia em movimento” ou ainda “ciência do movimento”, e outros autores o tratam como “sistema de vida”.

Conclusão





Nossa pesquisa, o estudo de diferentes autores sobre cegueira e equoterapia propriamente ditas, proporcionou-nos importantes reflexões sobre esse recurso terapêutico, além da identificação de especificidades no atendimento à criança cega. O trabalho se deu fundamentado em princípios e na técnica da equoterapia desenvolvida e adaptada de acordo com nossa vivência durante nossa pesquisa e segundo a necessidade e potencialidade de cada praticante, objetivando seu desenvolvimento como um ser integral.





Além da estimulação dos outros sentidos, os resultados de nossa pesquisa apontam para uma melhora do relacionamento social do grupo, evidenciando os aspectos da comunicação, da atenção e das regras sociais, tanto no ambiente da equoterapia quanto fora dele.





Em relação aos efeitos da equoterapia sobre a psicomotricidade, ficou evidenciado uma melhora do grupo quanto ao equilíbrio e à postura do tronco ereto, o que implica também uma melhora do sentido de segurança. Os ganhos obtidos no aspecto do equilíbrio são muito importantes para o cego, pois a mobilidade do indivíduo que não possui a visão depende em muito desse sentido, cujo desenvolvimento necessita ser estimulado desde o nascimento.





Portanto, este estudo exploratório demonstra que a equoterapia é um recurso que contribui para a melhora de aspectos psicomotores e sociais de indivíduos com cegueira e, conseqüentemente, melhora sua qualidade de vida, respeitando-se o potencial e a fase de desenvolvimento em que se encontra o indivíduo.





Outra observação foi da importância do seguimento de um programa de atendimento adequado à cegueira, uma vez que requer técnicas de intervenção diferenciadas das aplicadas às outras necessidades especiais.

Referências





Amiralian, M. L. T. M. (1997). Compreendendo o cego: Uma visão psicanalítica da cegueira por meio de desenhos-estórias. São Paulo: Casa do Psicólogo.





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Contribuições da Equoterapia na atuação Psicopedagógica

Introdução : A importância histórica do cavalo no processo da evolução humana é inegável. Ao longo dos tempos ele foi utilizado como meio de trabalho, lazer, esporte e tantos outros. Atualmente, este animal, com tantas virtudes e qualidades, vem se destacando como agente de reabilitação e educação no tratamento de pessoas com necessidades educativas especiais, dando origem à equoterapia. Cirillo (apud FREIRE, 1999) define a equoterapia como um método de reeducação e reabilitação motora e mental, através da prática de atividades eqüestres e técnicas de equitação. O autor entende que o tratamento ocorre tanto no plano educativo pedagógico, reeducando, quanto no plano físico e psíquico, de terapia propriamente dita. Na relação com o cavalo, além do favorecimento de uma interação afetiva, o praticante encontra subsídios para sua reeducação, reabilitação e finalmente um novo tipo de educação. Para Lallery (1988) a equitação terapêutica consiste numa terapia psico-corporal do indivíduo em todo o seu SER, tendo como objetivo levá-lo a uma autonomia motora e psicológica, a uma adaptação com independência e a descobrir que o viver pode se realizar com prazer e não somente com repressão e sofrimento. A inteligência, segundo Bossa e Oliveira (1997), constrói-se através da organização do vivido, num contínuo vaivém, num recomeçar incessante. Para Rocha (1999), o desenvolvimento intelectual é o processo pelo qual as estruturas da inteligência se constróem progressivamente, por meio de uma contínua interação entre o sujeito e o meio externo. Durante esta interação, cada vez que a estrutura apresenta-se insuficiente para resolver um dado problema, o indivíduo tem que ampliá-la e torná-la mais evoluída para restabelecer o equilíbrio. A aprendizagem inicia-se com a vida e com ela se desenvolve. A passagem da ação à representação dá-se através de um fazer prático e interessante que, pouco a pouco, ao ir organizando o contexto vivido, vai internalizando a ação. É, portanto, uma atividade criativa por natureza, de descoberta e de invenção de novos meios para reorganizar a realidade por meio da qual o indivíduo se conduz ao conhecimento. Todo ser humano possui talentos que podem ser explorados e que funcionam como estímulos para vencer suas próprias limitações. Para tanto, é necessário um ambiente altamente estimulante, reforçador, prazeroso e exigente para que passo a passo este processo se efetive, em particular no caso de crianças com disfunções do desenvolvimento neurológico, cuja capacidade para entender os conceitos básicos das habilidades cognitivas varia consideravelmente. A equoterapia apresenta-se, assim, como a possibilidade de um trabalho compromissado, de fortalecimento da auto-estima, que leva a pessoa a se motivar e a participar mais efetivamente do processo terapêutico. Conviver com o cavalo ensina a criança a tornar-se mais atenta e a praticar a auto-análise para enfrentar suas dificuldades. Partindo do princípio de que toda criança possui potencial para o aprendizado, foi desenvolvido um programa de trabalho individual e em grupo de acordo com as necessidades específicas de cada praticante. O objetivo da equoterapia é proporcionar ao praticante um desenvolvimento global de seu ser, bem como sua integração na sociedade, respeitando suas limitações e observando seu potencial de desenvolvimento – objetivo comum ao da Associação Nacional de Equoterapia: “aprender a aprender”.A Equoterapia na Ação Pedagógica : De acordo com Severo (1999) para se entender os benefícios da equoterapia no ser humano e, principalmente, na criança, há necessidade de se estabelecer, a princípio que o ser humano é um produto filogenético, ontogenético e cultural, sendo o sistema nervoso, os estados psicológicos e as situações sociais os grandes responsáveis pela aprendizagem e pelos desempenhos comportamentais. Medeiros e Dias (2002) entendem que o sistema nervoso central é um órgão de reação ao invés de ação; reage aos estímulos que para ele convergem a partir de fora e de dentro do corpo. A função mais importante do sistema nervoso central é sua capacidade de inibir a atividade “incoordenada” ou indesejada e facilitar as funções utilitárias simultaneamente, para assim tornar possível o armazenamento de informações, ou seja, a capacidade de aprender. Os fatores psicomotores distribuídos pelas unidades funcionais, de acordo com Luria (1961), são apresentados como circuitos dinâmicos autoregulados, construídos segundo o princípio da organização vertical de estruturas do cérebro e dependentes de uma hierarquização funcional e afetiva, que ocorre em todo o desenvolvimento da criança. Segundo Severo (1999), que aborda em seus estudos as unidades funcionais descritas por Luria (1961), a primeira unidade funcional do encéfalo compreende, entre outras funções, a tonicidade, o equilíbrio e a coordenação (tronco cerebral e cerebelo). A atenção é importante coadjuvante de todas as aprendizagens, junto às necessidades e aos interesses. A segunda unidade funcional estabelecida por Luria (1961) compreende, entre outros, os seguintes fatores psicomotores (estados sensitivos): lateralização, esquema corporal e estruturação espaçotemporal. A outra unidade funcional (a terceira estabelecida por Luria) integra os outros fatores psicomotores: praxia global e praxia fina (o saber fazer). Severo (1999) enfatiza que, nas duas primeiras unidades funcionais, as crianças não apresentam dificuldades de aprendizagem, embora, na segunda, elas possam apresentar discretas dificuldades psicomotoras em algumas realizações. No terceiro perfil, estarão as crianças com dificuldades de aprendizagem leves, traduzindo já a presença de um ou mais sinais de atraso no desenvolvimento neuro-evolutivo. Elas realizam tarefas com dificuldades, mas não podem ser rotuladas como deficientes. Necessitam, apenas, de atendimento especializado na área da psicopedagogia. O autor diz ainda que há pelo menos três conceitos envolvidos no desenvolvimento humano: a psicomotricidade, as relações cérebrolinguagem e as relações cérebro-comportamento. Por isso é essencial que, antes da aplicação de qualquer terapia, haja um grupo de pessoas especializadas nos diversos componentes neuropsicológicos e psicopedagógicos para avaliar uma criança com dificuldades de aprendizagem e indicar a terapia mais coerente para cada uma. Nessas avaliações psicopedagógicas, a relação de fatores que influenciam o aprendizado pode ser muito eficaz na observação de problemas: de atenção, de motivação, de necessidade, de percepção, de memória, de ordem psicológica (afetivo-emocional), de cognição, de psicolinguagem, de psicomotricidade e de motricidade. Shkedi (1997) afirma que as habilidades escolares básicas referemse à linguagem e ao pensamento. Montar a cavalo auxilia na aquisição dessas habilidades e na elaboração de pensamento coerente, as quais requerem o uso de ambos os hemisférios cerebrais. Segundo a autora, é a motivação para cavalgar que estimula a criança a progredir com ordens e seqüências espaciais e temporais. Ou seja, montar ajuda a criança que apresenta dificuldades de aprendizagem. Educar é ajudar o ser humano, com os princípios e os fundamentos do ensino e da aprendizagem, informal e formal, na família e na sociedade, a transformar-se pelo crescimento e pelo desenvolvimento biopsicossocial em um cidadão com liberdade, felicidade e paz (HORNE, 1996). A equoterapia pode apoiar a educação de crianças com dificuldades de aprendizagem, deficiências físicas e/ou mentais, com condutas sociais atípicas e com altas habilidades. A professora Tereza Isoni (1996) afirma que a equoterapia facilita a organização do esquema corporal; facilita a aquisição do esquema espacial; desenvolve a estrutura temporal; aguça o raciocínio e o sentido de realidade; desperta uma profunda comunhão criança-realidade; proporciona e facilita a aprendizagem da leitura, da escrita e do raciocínio matemático; aumenta a cooperação e a solidariedade; minimiza os distúrbios comportamentais; promove a auto-estima, a auto imagem e a segurança; facilita e acelera os processos de aprendizagem. Conforme Shkedi (1997), os terapeutas podem promover excelentes oportunidades, durante as sessões de equoterapia, para que crianças com deficiência de atenção ou distraídas focalizem, concentrem-se, aumentem a motivação e alcancem um nível no qual o progresso de aprendizagem seja notável em todas as áreas das funções psiconeurológicas. Enfatiza a autora que cavalgar auxilia as crianças com disfunções da memória, porque exige planejar e criar estratégias, que são progressivamente memorizadas. Isto não é fácil de ser executado e é necessário prender pela repetição, memorizar e, pela cuidadosa explanação, completar tarefas cotidianas. Desenvolvimento e Resultados da Experiência com Equoterapia :A equoterapia é um método terapêutico que utiliza o cavalo comoinstrumento. O atendimento de equoterapia é realizado no Centro de Equoterapia Marisa Tupan – EQUUS, em Maringá-PR com atendimento a crianças, adolescentes e adultos, desde 1996. As pessoas que são encaminhadas ao atendimento de equoterapia, num primeiro momento são submetidas a uma avaliação com uma equipe interdisciplinar: neurologista, psicólogo, psicopedagogo, fisioterapeuta e fonoaudiólogo. Em seguida faz-se estudo do caso e, se indicado o atendimento, o profissional elabora um programa de atuação terapêutica a ser realizado. O atendimento ocorre uma vez por semana com duração de 50 minutos, com sessões individuais ou em grupos. Existe um espaço coberto e um aberto para diversificar o atendimento e fazer com que o praticante receba luz solar e tenha contato direto com a natureza. No início do atendimento o praticante é estimulado a manter contato com o animal, escovando-o, dando banho, alimentando-o, solicitando-se também a execução de atividades que envolvam o manuseio de materiais didáticos diversificados, como brinquedos, letras do alfabeto, formas geométricas, numerais e outros. Os materiais são de plástico e emborrachados imantados para que possam aderir aos painéis de chapas galvanizadas. Pode-se afirmar que os resultados do trabalho com o cavalo vão além do movimento tridimensional, repercutindo também no desenvolvimento das funções psicológicas e cognitivas. Durante todo o período de existência do Centro de Equoterapia Marisa Tupan (EQUUS), constatou-se que todos os praticantes apresentaram significativa evolução, tanto no contexto escolar e social quanto no domiciliar. O cavalo pode ser um ativador da atenção, intenção e iniciativa, tanto da criança como dos terapeutas. A equoterapia pode desenvolver a responsabilidade de forma equilibrada, melhorando a auto estima e a independência por meio de orientações recebidas em cima do animal, no momento da própria terapia, induzindo a uma aprendizagem significativa e prazerosa. Conclusão : O trabalho de equoterapia que vem sendo desenvolvido pode atingir pessoas com vários tipos de distúrbios e ou deficiências. Constata-se que o praticante melhora consideravelmente suas habilidades de orientação espacial, equilíbrio, lateralidade, comunicação, compreensão de leitura, escrita, raciocínio lógico, memória, tem ganhos físicos que favorecem a sensibilidade, a percepção do esquema natural, entre outros. Destaca-se também o aumento da atenção e de motivação diante das dificuldades de aprendizagem e o aumento da auto estima, proporcionando um sentimento de pertencer a um meio escolar acolhedor e importante para o indivíduo. “Onde não existir afeto de fato não há relação humana possível” (RISKALLA, 2002).

Marcia Regina de Sousa Storer - Mestranda em Distúrbios do Desenvolvimento – Psicopedagoga e Terapeuta do Centro Integrado São Leopoldo , Marcia Regina Volpato de Oliveira - Psicopedagoga e Terapeuta doCentro Integrado São Leopoldo ,Marisa Cordeiro Tupan - Fisioterapeuta – Coordenadora do Centro de Equoterapia Marisa Tupan – Terapeuta da Clínica de Fisioterapia Especializada Pró-FisioMaringá-PR


A Equoterapia com "Crianças Agitadas"

Tendo em vista o aumento de comentários e exposição na mídia sobre os distúrbios que afetam a infância e, invariavelmente prejudicam a educação, achou-se interessante definir e discutir, num breve artigo, as forma mais comum de “agitação” que acomete nossas crianças atualmente e fazer uma ponte com a terapia complementar conhecida como Equoterapia.Farei uso do referencial psiquiátrico para definir as crianças “agitadas”, isso porque é este que está presente na mídia, educação, saúde mental, enfim, em nossa cultura. Mas isso não quer dizer que não hajam outros importantes referenciais. Serão abordados diagnósticos aplicados pela psiquiatria que não devem ser usados de forma generalizada ou sem uma análise cuidadosa de toda a historia de vida e contexto familiar, social, cultural no qual o paciente está inserido. Leia em "Mais Informações" ...

Lembrando a importância da influência cultural contemporânea sobre todos nós (globalização, Internet, a “hipermodernidade” defendida pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky, etc). A cultura na qual estamos inseridos incide sobre nós de forma visível e por outras vezes invisível. Traz consigo as conseqüências de um tempo, suas tendências, formas de expressão e posicionamento do homem frente à vida.

Um pouco sobre a tal “hiperatividade”
O diagnóstico de Hiperatividade ou transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) como é conhecido em psiquiatria, é um distúrbio dos mais comuns na infância (apesar de ter grande incidência em adultos também) e com maior prevalência na idade escolar.
Sua principal característica é desatenção, aliada a uma grande agitação psicomotora e impulsividade.
STACHUK(2005) explica que o TDHA é causado por uma alteração neurobiológica nas funções do lobo frontal do cérebro, região responsável pela inteligência, raciocínio, comportamento, memória, planejamento, tomada de decisões, julgamento e iniciativa. Nos portadores são menores a ativação dessa região e suas conexões com o restante do cérebro.
A mesma autora aponta que o transtorno continua após a infância em 60% dos casos se não obtiver tratamento adequado. As formas de tratamento tradicional são o uso de medicamentos psicotrópicos e psicoterapia (individual e orientação familiar).
SCHWARTZMAN(2005) afirma que 40 % dos casos encaminhados para clínicas e centros de orientação infantil acabam sendo diagnosticados com esse quadro e cerca de 20 % da população escolar também apresenta TDHA.

Como se percebe a hiperatividade de uma criança na escola?
• Não ficam paradas na sala de aulas, “não param quietas”
• Falam muito com os colegas, de forma acelerada e ininterruptamente
• Interromper de maneira imprópria professores e colegas
• Iniciativas impulsivas, inconseqüentes, tumultuam a classe com brincadeiras fora de hora
• Apresentam desempenho abaixo do esperado
• Dificuldade em concentrar-se para executar as tarefas, mesmo simples, pedidas em sala de aulaFora estes, quais seriam os principais traços ou sintomas de uma criança supostamente hiperativa?
• Dificuldade em prestar atenção a detalhes ou errar por descuido em atividades escolares e profissionais, dificuldade em manter a atenção em uma tarefa
• Parecer não escutar quando lhe dirigem a palavra, “olhar no mundo da lua”
• Dificuldade em organizar e distribuir tarefas e atividades
• Evitação de tarefas mais complexas e que exijam esforço mental constante
• Perda constante de objetos, esquecimento das atividades do dia
• Distrair-se facilmente com estímulos externos
• Correr, pular, escalar, falar em excesso – ou em momentos inadequados
• Estar sempre “a mil por hora”, “ligado na tomada”
• Dificuldade em esperar sua vez ou aceitar ordens de superiores
• Agir sem pensar, muita impulsividade

Segundo SCHWARTZMAN(2005), para se aplicar a hipótese diagnóstica de Déficit de Atenção (DDA) ou Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDHA), é importante que a criança possua uma série dos sintomas e sinais acima relacionados (e não uma única), que os mesmos ocorram antes dos 7 anos e com prevalência de sintomas por mais de 7 meses.
Uma ressalva: ao discutir sintomatologia e diagnóstico, atentar para não cristalizar ou pré-conceituar a criança nos mesmos – tal descuido é comum e muito prejudicial para o tratamento e para a comunicação Profissional-Paciente, Aluno-Educador, Criança-Adulto.
Os diagnósticos e nomeação de sintomatologia são uma ferramenta dos profissionais de saúde para orientar e viabilizar um tratamento. Mas como toda ferramenta, pode viciar a percepção ou comprometer seu próprio mecanismo de funcionamento. É fundamental que sempre olhemos para a singularidade de cada caso – é nisto que encontraremos respostas frutíferas (não só para nós, mas principalmente para o paciente).
A hiperatividade, por suas características acaba causando sérias conseqüências como: prejuízo acadêmico ou profissional e dificuldade em lidar com ordens ou hierarquias de um local. Muitas crianças acabam tendo baixo desempenho escolar, dificuldades no relacionamento e baixa auto-estima.
O DSM-IV (1995) aponta que o TDAH não tratado ou acompanhado pode trazer comorbidades (distúrbios psiquiátricos associados) no futuro tais como: Depressão, transtorno de conduta (delinqüência), transtornos de ansiedade, abuso e/ou dependência de substâncias químicas.
Apesar da psiquiatria apontar a TDAH como um distúrbio neurocomportamental, sabe-se que as condições sociais, familiares e mesmo alimentares influem muito em seu aparecimento e desenvolvimento. Na cultura atual (da internet, dos laços e relacionamentos ‘virtuais’, da rapidez na comunicação, negócios e,da globalização) há constantes exigências de agilidade, imediatismo que agem diferentemente sobre todas as pessoas e trazem diversas conseqüências, entre estas, agitação psicomotora, tensão, o famoso ‘stress’, impulsividade, inquietação e outros “sintomas” do mundo contemporâneo.
Este ponto não pode ser negligenciado! O Psicanalista Jorge Forbes aponta que as pessoas ainda não aprenderam a lidar com a globalização e os seus índices; “Nós temos ainda uma grande resistência em aceitar aquilo que nos é diferente” – o conflito emocional-afetivo decorrente desta resistência pode ser percebido e analisado nestes fenômenos ‘sintomáticos’ sociais.

“Meu filho é agitado, o que fazer?”
Inicialmente é importante verificar o grau desta “agitação” e como esta está interferindo nas atividades diárias da criança. Caso a criança tenha muitos traços da sintomatologia descrita (num período de tempo superior à 7 meses e de forma intensiva), a ponto de prejudica-la em diversas áreas da vida diária é aconselhado que a família procure ajuda de profissionais da área de saúde tais como pediatra, neurologista, psiquiatra, psicanalista, psicólogo, psicopedagogo, entre outros.
Mas é muito importante prestar atenção em como e quando tais traços ou sintomas se fazem presentes. O Psiquiatra infantil Franscisco B. Assumpção Jr. ao abordar a temática dos distúrbios de aprendizagem (dislexia, distúrbio de atenção e outros), coloca que a raiz da questão tanto pode estar nela própria quanto em seu ambiente, “antes de nos preocuparmos com exames e diagnósticos é precisos analisar os fatores externos.
Afinal, podem estar contribuindo para os tropeços no desempenho escolar os problemas da família (separação de pais, falecimentos, brigas domésticas), na escola (método pedagógico ruim, má adaptação da criança ao modelo pedagógico adotado, faltas do professor, brigas com colegas), situações de stress constante ou casos de reação aguda ao stress, entre outros fatores” (in CAMPOS, 1998).
A presença e participação da família e/ou responsável pela criança/adolescente é fundamental para o tratamento da hiperatividade quando esta é diagnosticada ou verificada.Em casos nos quais a hiperatividade é muito acentuada e prejudicial, são ministradas medicações visando “brecar, freiar” um pouco a agitação desta criança. Mas o ponto importante no tratamento é levar a criança a perceber seu estado de agitação e aprender a lidar com este.
Aos poucos esta desenvolverá maneiras de deixar fluir este “excesso” sem que o mesmo seja-lhe prejudicial. Por isso o apoio, presença da família, educadores e demais é fundamental – para a criança ficar à vontade para descobrir suas qualidades e limitações e poder criar a partir dos mesmos.
Quanto mais descontraído e flexível for o tratamento para a expressão e descoberta por parte da criança, melhores serão os resultados obtidos.

Equoterapia: o que é, como surgiu e seus usos
A Equoterapia, conhecida e desenvolvida no exterior, vem sendo aos poucos, desenvolvida como método terapêutico e educacional no Brasil.
De forma sintética a equoterapia seria um método que alcança resultados terapêuticos através do uso do cavalo ( tanto pelo animal em si como pela montaria e cavalgar neste).Historicamente há registros de que Hipócrates (377 A. C.), o chamado pai da medicina, defendia a equitação como meio de reabilitação da saúde em geral.
Posteriormente este tratamento tornou-se importante na recuperação física e psicológica de mutilados da 2ª Guerra Mundial. Em 1952, a dinamarquesa Liz Hartel conquistou a medalha de prata em adestramento nas Olimpíadas de Helsinki, superando as seqüelas da poliomielite que contraíra quando criança.
A partir daí, surgiram os primeiros centros de equoterapia na Europa e Estados Unidos.Equo terapia ( Equo: do latim aequus, relativo à Equus, ‘cavalo’/ Terapia: relativo à terapêutica, que é a parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes) é um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar, nas áreas de saúde, educação e equitação, buscando o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas portadoras de deficiência e/ou com necessidades especiais.
Ela emprega o cavalo como agente promotor de ganhos físicos, psicológicos e educacionais (ANDE-Brasil,2005).Segue uma relação das dificuldades, deficiências e doenças que podem ser auxiliadas por meio do uso da equoterapia segundo UZUN (2005):

-paralisia cerebral,
-acidente vascular encefálico;
-atraso no desenvolvimento neuropsicomotor;
-síndrome de down e outras síndromes;
-traumatismo crânio-encefálico;
-lesão medular; esclerose múltipla;
-disfunção na integração sensorial;
-dificuldades da aprendizagem ou linguagem;
-distúrbios do comportamento;
-hiperatividade; autismo; traumas;
-depressão; stress, etc.

Complementarmente a esses dados ALÍPIO (2005) aponta que comprometimentos sociais e emocionais, tais como: autismo, esquizofrenia, psicose; deficiência visual, deficiência auditiva, problemas escolares (distúrbio de atenção, percepção, linguagem, hiperatividade) e pessoas saudáveis, sem nenhuma deficiência física ou psicológica, podem ser auxiliados e ter ganhos fisico-emocionais pela equoterapia.
Recorrendo novamente à autora UZUN (2005) a equoterapia traria os seguintes benefícios: adequação do tônus muscular; da coordenação motora; do controle de cabeça e tronco; adequação do equilíbrio; facilitação no processo de aprendizagem escolar; estimula a atenção e concentração; socialização; auto-confiança; trabalha com a ativação dos sistemas cárdio-respiratório e músculo-esquelético e atua no alívio do stress.
O cavalo é o instrumento terapêutico, utilizado com base nos benefícios de seu movimento natural "ao passo", movimento este resultante de reações tridimensionais. É ainda, um agente educativo e facilitador da integração física-psíquica e social do paciente.
De acordo com GUIMARÃES (1993), a marcha do cavalo possui três andaduras naturais: ao passo, o trote e o galope. O trote e o galope são andaduras saltadas, com movimentos mais rápidos e bruscos e exigem do cavaleiro mais força e coordenação.
Ao passo se caracteriza por uma andadura ritmada, cadenciada e em quatro tempos, ou seja, ouvem-se quatro batidas distintas e compassadas. Durante o passo, o cavalo transmite ao cavaleiro uma série de movimentos seqüenciais e simultâneos que resultam em deslocamento tridimensional do centro de gravidade:

• No plano transversal, durante o movimento de flexão da coluna do cavalo, o cavaleiro é impulsionado para cima e, quando ocorre a extensão retorna à posição inicial.
• No plano frontal, o movimento e produzido pelas ondulações horizontais da coluna do cavalo, que se estendem da nuca à cauda.
• No plano sagital, é produzido um movimento para frente e para trás, composto por perdas e retomadas de equilíbrio

Comparando os movimentos humanos executados em seu deslocamento (ao passo), podemos perceber que este é idêntico ao executado pelo cavalo, quando este também se desloca ao passo.
É este movimento que gera os impulsos que acionam o sistema nervoso para produzir as respostas que vão dar continuidade ao movimento e permitir o deslocamento (a chamada ação neurofisiológica).
Um atendimento em equoterapia é planejado em função das necessidade e potencialidades do paciente, onde se incluem o estabelecimento dos objetivos a serem atingidos e conseqüente ênfase na área a ser desenvolvida.
Os trabalhos equoterápicos podem ser agrupados nos seguintes estágios distintos:

• hipoterapia (paciente vai montado juntamente com o fisioterapeuta ou outro profissional – a ênfase será para a postura do paciente sobre o cavalo e exercícios físicos específicos)
• educação /reeducação (paciente monta sozinho com dois profissionais nas laterais auxiliando-o quanto ao equilíbrio – são realizados principalmente exercícios físicos e de fonação, fala, aprendizagem)
• pré-esportivo ( paciente monta sozinho e conduz o cavalo, sendo acompanhado de perto pelos profissionais – neste estágio a ênfase maior é para a educação, disciplina e socialização do paciente).

Estes estágios não são uma regra e ordem fixa. São aplicados de acordo com o quadro clínico tratado e as estratégias terapêuticas demandadas pelo mesmo. Por exemplo: no caso de uma criança sem um quadro de deficiência física, mas com grande agitação psicomotora, desatenção, e vontade de cavalgar o estágio hipoterapia não será utilizado, mas sim os estágios de educação /reeducação e talvez até o pré-esportivo – a independência alcançada pela montaria solo é muito mais produtiva e estimulante neste caso.
As principais conquistas da equoterapia são o desenvolvimento da auto-confiança, segurança, disciplina, concentração e bem-estar. A prática eqüestre favorece ainda uma sadia sociabilidade, uma vez que integra o praticante, o cavalo, e os profissionais envolvidos.
Atualmente tem-se no Brasil a Associação Nacional de Equoterapia (ANDE-Brasilsediada no distrito federal, que por meio de cursos e palestras informa e instrumentaliza profissionais a atuar com a equoterapia. 
ANDE indica como fundamentais para o tratamento da equoterapia os seguintes profissionais: fisioterapeuta, psicólogo e Instrutor de Equitação.Mas esta abordagem terapêutica é ministrada geralmente por uma equipe interdisciplinar, ou seja, profissionais de diversas áreas da ciência trabalhando em conjunto (interagindo) pelo bem-estar, restabelecimento e melhoria do quadro clínico do paciente. Comumente encontramos também presentes na equipe de equoterapia: Médico, Fisioterapeuta, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Instrutor de Equitação , entre muitos outros.

A equoterapia e a criança
Atuando como psicólogo em clínicas psiquiátricas com crianças de diversos diagnósticos clínicos (autismo, psicose, depressão, hipeatividade, entre outros) pude perceber que a atração pelo animal está naturalmente presente (refiro-me a todo tipo de animal, desde cachorro à tartarugas, coelhos, pássaros, cavalos, etc.).
Por vezes apresentam uma inaugural insegurança, mas se livram dela rapidamente à medida que o adulto ou outra criança em quem tem certa confiança lhe incentive a aproximar-se e tocar o animal.Em casos nos quais a criança é muito insegura, retraída, desconfiada ou mesmo desinteressada, o trabalho terapêutico por meio do animal torna-se uma importante ferramenta clínica.
Um “quebra-gelo” fundamental para aproximar o profissional da criança e possibilitar as intervenções terapêuticas (sejam psicológicas, fonoaudiológicas, fisioterapêuticas, etc).
Por intermédio do contato com animal começam muitas vezes a falar, contar histórias, sorrir, brincar. O animal abre a possibilidade de trabalho com a criança pois torna-se logo um atrativo e diferencial no tratamento que está sendo proposto.
Por vezes é pelo contato com animal que a criança fica mais descontraída para conversar e mais receptiva com as orientações ou questionamentos feitos pelo profissional que a está acompanhando. Tal fato pode ser averiguado nas crianças que são atendidas pela equoterapia.
O cavalo funciona como ponto de sedução em relação à criança (e mesmo ao adulto) pela imponência e poder transmitida pelo mesmo. É um animal com porte magnífico e, conquistar sua confiança, domá-lo, cavalgá-lo, direcioná-lo é uma experiência prazerosa e até mesmo transformadora para algumas pessoas.
Pela atuação física e psíquica que a equoterapia alcança, na ativação e estimulação de diversas funções do corpo humano tais como a respiração, a fala, a atenção, a memória, a cognição, a concentração, a auto-imagem, a auto confiança, entre outros.
A criança sente-se estimulada a seguir em frente e participar ativamente do tratamento. Por vezes ela mesma estabelece desafios a serem pouco a pouco superados.Ao cavalgar a criança precisa coordenar seus movimentos aos do cavalo e se concentrar, prestar atenção no cavalo e no meio que a cerca.
O cavalgar cria a todo momento uma instabilidade de movimento, permitindo que o paciente seja encorajado a desenvolver novas maneiras de coordenar uma resposta postural, fundamental no processo de aprendizagem, na realização de atividades funcionais.
Por sua ação neurofisiológica (pela andadura do cavalo) e desafios psíquicos (enfrentamento, concentração, coordenação, linguagem, etc) a equoterapia obtém respostas positivas com crianças “agitadas”, “desatentas”, “hiperativas” – desde que haja interesse pela prática no paciente, claro.
O Dr. Daniel Amem (2000) faz um comentário em seu livro sobre a importância do ambiente externo no tratamento de crianças ou adultos que tenham o déficit de atenção e hiperatividade: “Quando o chefe as estimula a fazer melhor de modo positivo, elas se tornam mais produtivas.
Quando se é pai, professor ou supervisor de alguém com TDHA, funciona muito mais usar elogio e estímulo do que pressão. Pessoas com TDHA saem-se melhor em ambientes que sejam altamente interessantes ou estimulantes e relativamente tranqüilos”.
Raramente a criança não sente-se atraída ou encantada pelo cavalo e pela possibilidade de nele montar. Desta maneira tem-se no cavalo, um instrumento facilitador e potencializador para o tratamento de diversas dificuldades, distúrbios, patologias orgânicas e psíquicas.
É muito funcional no caso de crianças “agitadas” por todo seu contexto e atuação neurofisiológica. A criança precisa se concentrar, equilibrar e acalmar para poder alcançar seu objetivo, que é domar o cavalo. Buscará com a equipe dicas e macetes para alcançar seu objetivo e desejo e por esta porta aberta pela mesma, os profissionais planejarão estratégias e manejos terapêuticos para melhor desenvolver esta criança.
A guisa de uma conclusão, sabemos que a equoterapia é uma prática complementar que alcança bons resultados dependendo do caso no qual é aplicado, ainda assim, por ser uma prática relativamente recente no Brasil (apenas em 1997 a Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitacional e o Conselho Federal de Medicina reconheceram a Equoterapia como método terapêutico) necessita ser melhor fundamentada e explorada em suas aplicações e desenvolvimentos.
As pesquisas nesta aréa são fundamentais para enriquecer e fundamentar a prática. Talvez com o avanço progressivo das neurociências possamos verificar e comprovar cientificamente os benefícios alcançados pela mesma e como estes operam a curto, medio e longo prazo.




O Efeito Positivo da Equoterapia em Cegos

Um dos conceitos que define esse recurso terapêutico se refere a ele como um conjunto de técnicas reeducativas que atuam para superar danos sensoriais, cognitivos e comportamentais e que desenvolvem atividades lúdico-esportivas utilizando o cavalo” (Cittério, 1999). A equoterapia é um recurso terapêutico que pode ser aplicado as áreas de Saúde (portadores de necessidades especiais físicas, sensoriais e/ou mentais); Educação (indivíduos com necessidades educativas especiais) e Social (indivíduos com distúrbios evolutivos e/ou comportamentais). Os efeitos terapêuticos que podem ser alcançados com a equoterapia são de quatro ordens (Garrigue, 1999): • melhoramento da relação: considerando os aspectos da comunicação, do autocontrole, da autoconfiança, da vigilância da relação, da atenção e do tempo de atenção; • melhoramento da psicomotricidade: nos aspectos do tônus, da mobilidade das articulações da coluna e da bacia, do equilíbrio e da postura do tronco ereto, da obtenção da lateralidade, da percepção do esquema corporal, da coordenação e dissociação de movimentos, da precisão de gestos e integração do gesto para compreensão de uma ordem recebida ou por imitação; • melhoramento de natureza técnica: facilitando as diversas aprendizagens referentes aos cuidados com os cavalos e o aprendizado das técnicas de equitação; • melhoramento da socialização: facilitando a integração de indivíduos com danos cognitivos ou corporais com os demais praticantes e com a equipe multidisciplinar. A equoterapia exige a participação do corpo inteiro do praticante, contribuindo assim para o seu desenvolvimento global. Quando o cavalo se desloca ao passo, ocorre o movimento tridimensional do seu dorso; portanto, há deslocamentos segundo os três eixos conhecidos (x, y, z), ou seja, para cima e para baixo, para frente e para trás, para um lado e para outro. Tal movimento é transmitido ao cavaleiro pelo contato de seu corpo com o do animal, gerando movimentos mais complexos de rotação e translação.Os deficientes visuais constituem-se como o grupo que apresenta, talvez, as maiores e mais antigas preocupações, tanto para as ciências como para a filosofia. Filósofos têm teorizado sobre o fato de os olhos possuírem uma relação mística com a alma. A história nos relata sanções relacionadas à perfuração dos olhos como punição por crimes sexuais e sociais. Outros textos mostram os cegos reverenciados como adivinhos ou considerados como transmissores verbais das tradições e dos valores culturais. Até os dias atuais as atitudes para com os indivíduos cegos são diferenciadas e se revestem de benevolência social ou veneração pelo trabalho que realizam. Superstições e atitudes carregadas emocionalmente com freqüência estão associadas à cegueira. O público em geral considera a cegueira como a perda física mais limitadora que existe (Amiralian, 1997). A característica específica da cegueira é a qualidade de apreensão do mundo externo. As pessoas cegas precisam utilizar-se de meios não usuais para estabelecerem relações com o mundo dos objetos, das pessoas e das coisas que as cercam: essa condição imposta pela ausência de visão se traduz em um peculiar processo perceptivo, que se reflete na estruturação cognitiva e na organização e constituição do sujeito psicológico (Amiralian, 1997). O que não se pode desconhecer é que o deficiente visual tem uma dialética diferente, por causa do conteúdo que não é visual e da sua organização cuja especificidade é a de referir-se ao tátil, auditivo, olfativo, cinestésico. Dispor de todos os órgãos dos sentidos é diferente de contar com a ausência de um deles: muda o modo próprio de estar no mundo e de se relacionar (Mansini, 1994). O desenvolvimento humano se dá por meio de vivências e experiências que, no caso da criança cega, são mais restritos e limitados, o que pode acarretar uma lentidão e até mesmo dificuldades em seu processo de maturação. As crianças cegas congênitas constroem a imagem do mundo pelo uso efetivo dos outros sentidos, daí a necessidade de estimulação dessas estruturas sensoriais para compensar a ausência da visão e diminuir a defasagem psicomotora.
Implicações da equoterapia para o cego
Estimulação sensorial :Segundo Figueira (1996), o profissional, que tem como objetivo promover o desenvolvimento da criança cega, deve conhecer bem suas capacidades e seus potenciais, para explorá-los no decorrer do processo terapêutico. A criança cega não é capaz de se orientar, nem realizar adaptações em seu sistema muscular de acordo com as variações de posição, distância, tamanho e forma. Pela ausência da visão, as combinações autocorretivas de reforço mútuo entre a visão e as respostas motoras ficam muito comprometidas.Devemos lembrar que não existe substituição de um sentido por outro. O conjunto sensorial funciona em sinergismo, em que nenhum dos sentidos realiza suas funções de forma isolada, eles se retroalimentam. Nesse sentido todo o processo terapêutico deve promover uma ampla estimulação dos outros sentidos em conjunto.Nesse caso a equoterapia cumpre o seu papel terapêutico/educativo e de estimulação global do praticante cego, pois como diz Botelho (1999, p. 149):... a cada passo do cavalo o centro de gravidade do praticante é defletido da linha média, estimulando as reações de equilíbrio, que proporcionam a restauração do centro de gravidade dentro da base de sustentação. O sistema vestibular é assim repetidamente solicitado, estimulando continuamente suas conexões com o cerebelo, tálamo, córtex cerebral, medula espinhal e nervos periféricos. Por meio de inúmeras repetições do movimento do andar do cavalo, o mecanismo dos reflexos posturais e a noção de posição dos vários segmentos corporais no espaço são reeducados durante 30 minutos da sessão de equoterapia.Levando-se em consideração o local onde são realizadas as sessões de equoterapia, que por suas características naturais apresenta diversos estímulos auditivos e olfativos, além dos de comunicação que são proporcionados pela equipe multidisciplinar que realiza a intervenção, podemos considerar como um recurso que pode oferecer ao cego uma estimulação global e motivadora. Como diz Heimers (1970, p. 35):Os estímulos que vem de fora constituem um fator importante na vida dos videntes, e os cegos os desconhecem, por isto, devemos manter sempre alertas esses estímulos, devemos despertar o interesse da criança cega para que ela não caia no marasmo. O movimento ao ar livre, na natureza, traz consigo um mundo de ensinamentos e experiências.Reeducação postural :A coordenação e o ritmo de uma criança cega ao andar podem ser mais desordenados do que os de uma criança com visão. Se a criança cega não for encorajada a conduzir seu corpo de maneira adequada, pode ser que mantenha uma grande distância entre as pernas ao ficar ereta e desenvolva uma má postura e uma forma de andar incorreta. Um problema comum é o da criança que deixa cair a cabeça sobre o peito. A criança cega deve ser instada a manter a cabeça erguida, perpendicular em relação ao chão (Oliveira, 1996).A equoterapia vai ajudar na correção da postura, pois como diz Herzog (1989, p. 17):
... manter o equilíbrio significa, a principio, reconhecer uma atitude corporal pelo senso postural, depois reajustar sua posição. O cavaleiro deve coordenar seus próprios movimentos e dissociar os gestos dos braços e pernas. Ele é, portanto, conduzido a uma melhor compreensão de seu esquema corporal. Ele adquire, desde um primeiro contato, o domínio corporal, aprendizagem que, num primeiro momento, vai ser favorecida pelo terapeuta. É um trabalho que demanda concentração.Sabemos que o aprendizado das técnicas eqüestres exige que o cavaleiro mantenha uma colocação correta na sela, ou seja, manter o tempo todo uma postura adequada, o tronco ereto e a cabeça perpendicular em relação ao solo, além de ter que dissociar os movimentos de braços e pernas, para que acompanhe os movimentos tridimensionais do dorso do cavalo e possa realizar o manejo correto das rédeas.Durante as sessões de equoterapia, essas ações são desenvolvidas e estimuladas pelos terapeutas, fazendo com que o praticante realize o aprendizado correto da postura a cavalo. E como essas estimulações ocorrem por um período de 30 minutos, o número de informações proprioceptivas que provêm das regiões articulares, musculares, periarticulares e tendinosas são bastante diferentes das fornecidas quando estamos na posição de pé. As informações proprioceptivas dadas pelo passo do cavalo permitem a criação de esquemas motores novos: trata-se da reeducação neuromuscular.Relação com o outroPaschoal (citado por Araujo, 1997), ao falar de educação psicomotora para crianças cegas, diz que é necessário permitir que a criança cega, desde pequena, se utilize do contato físico na relação corpo a corpo. Num trabalho psicomotor é necessário que o adulto permita essa entrega de si, para que ela possa sentir que o outro se movimenta, gesticula e que ela também pode se movimentar, gesticular, se soltar, etc. O autor diz que há nesse ato uma tomada de consciência por parte da criança do potencial motriz do seu corpo, de uma forma muito natural, livre, na brincadeira, no jogo, no momento em que ela está mais aberta, pois está mais absorta.A equoterapia, como uma atividade que envolve a psicomotricidade, pode proporcionar à criança cega esse contato físico e de uma forma muito mais ampla, pois, desde o momento que o praticante cego chega ao local das sessões, ele é recebido pelos terapeutas e auxiliares e, enquanto aguarda sua vez, participa de jogos e brincadeiras, que permitem essa relação corpo a corpo. Quando está montado, esse contato físico passa a ser com o cavalo, que ele explora por meio dos outros sentidos, enquanto realiza os exercícios programados e o cavalo está ao passo.Os diversos movimentos que ocorrem numa sessão de equoterapia além de contribuírem para essa tomada de consciência de seu potencial motriz , ocorrem, geralmente, de uma forma bastante prazerosa . Estimulação para o desenvolvimento tátil Grifin e Gerber (1996, p. 15), em seu artigo Desenvolvimento tátil e suas Implicações na Educação de Crianças Cegas, ao se referirem ao desenvolvimento tátil de crianças cegas dizem que: ... a modalidade tátil é de ampla confiabilidade. Vai além do mero sentido do tato: inclui também a percepção e a interpretação por meio da exploração sensorial. Esta modalidade fornece informações a respeito do ambiente, menos refinadas que as fornecidas pela visão. As informações obtidas por meio do tato têm de ser adquiridas sistematicamente, e reguladas de acordo com o desenvolvimento, para que os estímulos ambientais sejam significativos. [...] A ausência da modalidade visual exige experiências alternativas de desenvolvimento, a fim de cultivar a inteligência e promover capacidades sócio-adaptativas. O ponto central desses esforços é a exploração do pleno desenvolvimento tátil.O programa por nós desenvolvido e aplicado no atendimento equoterápico de crianças cegas privilegiou a estimulação tátil, pois desde o primeiro momento em que chegam ao local de realização das sessões, as crianças são estimuladas a efetuar o reconhecimento da área, o que chamamos de ambientação, e é por meio da experiência tátil e dos outros sentidos que a realizam. Em seu primeiro contato com o animal, a criança, por meio da modalidade tátil poderá perceber sua forma, a textura do seu pelo, o calor de seu corpo, seus movimentos respiratórios, as diferenças dos pelos da crina e da cola, e aos poucos o reconhecimento dos equipamentos de montaria que serão utilizados durante as sessões. Esse procedimento é repetido em todas as sessões, para que a criança cega adquira o reconhecimento da estrutura e da relação das partes com o todo e também a consciência de qualidade tátil, importante para o seu desenvolvimento.Reforço e motivaçãoA esse respeito Figueira (1996, p. 8), diz o seguinte: ... em cada etapa do desenvolvimento uma capacidade emerge e é trabalhada pelo organismo, passando a ser integrada em uma escala crescente de desenvolvimento. Para que isto ocorra a criança necessita ser encorajada e reforçada pelos pais. Se não há reforço e motivação esta criança será invadida por uma sensação de insegurança e medo. O desenvolvimento psicomotor se realiza pela combinação do prazer que a criança sente ao ter experimentado algo novo (uma aquisição motora e/ou sensorial) e o reforço familiar à aquisição feita. Na equoterapia, os praticantes são encorajados e reforçados pelos membros da equipe que estão realizando a intervenção e, a todo momento, a cada ação realizada, a cada insegurança vencida, são estimulados a continuarem. Todo esse trabalho é realizado de forma a tornar o tempo em que permanecem montados o mais agradável e prazeroso possível, além de aproveitar todos os momentos e situações para o desenvolvimento dos outros sentidos.Aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais .As crianças cegas devem ter a oportunidade de vivenciar experiências totais de forma inteligente, ampla e generalizada que não somente compreendam conhecimento verbal e tátil dos objetos, mas também sua posição no espaço e no tempo, suas relações com a criança e com outros seres e objetos. Dessa forma ela vai se organizando, conhecendo e sentindo-se segura e confiante para se lançar em novas experiências (Figueira, 1996). Nesse contexto o cavalo é um instrumento cinesioterapêutico, um ser vivente, dócil, que responde aos afetos que recebe, que tem vontade própria e que precisa ser dominado, para que o cavaleiro realize o manejo que desejar. Para Cittério (1999, p. 35): “A equoterapia poderá ser colocada num importante processo de aquisição ou reaquisição de esquemas motores e/ou mentais, no qual o indivíduo se tornará protagonista do momento reabilitador, um indivíduo ativo porque motivado pela relação com um outro ser vivente.” Herzog (1989) relata que o cavalo pode ser um instrumento de acesso entre a realidade do praticante e a do terapeuta, funcionando ainda como intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante e o mundo exterior. Assim, o cavalo proporciona ao praticante a criação de uma nova imagem corporal, devido às informações recebidas da montaria e à relação com a equipe, o que favorece a estruturação do eu. O deslocamento a cavalo, tendo pontos de referência (no nosso caso estímulos sonoros), exige a representação mental do gesto e do deslocamento. O praticante deve respeitar o animal, fazendo com que ele compreenda aquilo que ele, praticante, decidiu sozinho. Isso faz com que o praticante que não fazia isso na vida cotidiana, o faça com o cavalo, resultando em uma revolução própria.Estimulação motora
Figueira (1996), quando reporta à assistência fisioterápica à criança cega congênita, reafirma que a melhor ajuda que a fisioterapia pode prestar é por meio da estimulação motora. A criança deve aprender a se movimentar, a conhecer seu corpo e ter prazer em se deslocar para descobrir o mundo que a cerca e dominar o espaço. A passividade impressa pela ausência da visão pode implicar alterações nas seguintes áreas: tônus muscular, postura, coordenação motora e psíquica, equilíbrio, orientação espacial, cinestésica e social. O recurso mais apropriado é a cinesioterapia por meio de exercícios passivos, ativo-assistidos e ativo-livres, de acordo com o propósito em questão. A cinesioterapia, ou seja, terapêutica pelo movimento pode ser realizada pela estimulação auditiva, olfativa, gustativa, tátil, proprioceptiva e cinestésica, visando a desenvolver a consciência corporal, a coordenação motora, o equilíbrio, a correção postural, a marcha e a orientação no espaço. A respeito dos ganhos em nível neuromotor, da equoterapia, Cittério (1992) relata que estes se evidenciam sobre o alinhamento corporal (cabeça, tronco, quadril), controle das simetrias globais, equilíbrio estático e dinâmico e que em nível psicológico percebe-se a melhora na capacidade de orientação e de organização espacial e também na capacidade executiva. Na equoterapia o cavalo atua como agente cinesioterapêutico, facilitador do processo ensino–aprendizagem e como agente de inserção e reinserção social. Cittério (1999) aborda o assunto, afirmando que não devemos nos esquecer da hipótese comportamentalista na qual se baseia a equoterapia, método considerado como condicionamento motor impresso no ritmo e no comando, também chamado de “pedagogia em movimento” ou ainda “ciência do movimento”, e outros autores o tratam como “sistema de vida”.
Carlos Henrique Silva: Mestre em Psicologia, Professor de Psicologia Experimental e Psicofísica, Membro da equipe do Programa de Equoterapia e do Núcleo de Estudos e Pesquisa Interdisciplinar em Trânsito e Transporte (NEPITT) da Universidade Católica Dom Bosco.
Sonia Grubits: PhD em Semiótica pela Paris 8 (Sourbonne), Doutora em Saúde Mental pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP, Coordenadora do Programa de Mestrado em Psicologia da UCDB.

Implantação de um Projeto de Equoterapia: Uma visão do Psicólogo


O presente trabalho objetivou revelar os benefícios da Equoterapia a partir do ponto de vista psicológico gerados pelo projeto de Equoterapia implantado  na Sociedade Hípica de Franca. O projeto procurou atender crianças e adolescentes da rede municipal de ensino, por estarem apresentando problemas no comportamento e/ou aprendizagem. As sessões de Equoterapia foram realizadas uma vez na semana, com duração de 40minutos, para cada dupla de praticantes.  

O período em que ocorreu a Equoterapia, foi de Maio a Dezembro de 2004. Primeiramente fez-se uma entrevista de Anamnese com os pais, e em seguida, os praticantes foram entrevistados e observados, objetivando ter uma maior compreensão dos mesmos. A entrevista foi feita de forma aberta, com a utilização do desenho livre. Com os resultados alcançados através da Equoterapia, pôde-se notar que a implantação deste projeto foi realizada com sucesso. Pudemos revelar os benefícios ocorridos em vários aspectos, principalmente no psicológico.


INTRODUÇÃO
Pelo fato de estar há dez anos praticando o hipismo e cursar o 5º de Psicologia na Universidade de Franca, acredito ser interessante implantar um projeto de Equoterapia na cidade.
De acordo com a Associação Nacional de Equoterapia ANDE/BRASIL, a palavra Equoterapia, vem do latim “EQUO”, que é espécie caballus, ou seja, significa cavalo. A “TERAPIA” vem do grego Therapia, parte da área da medicina que trata da aplicação de conhecimentos técnicos-científicos no campo da reabilitação e reeducação.
A Equoterapia trabalha o indivíduo como um todo, isto é, na forma biopsicossocial. Utiliza-se o cavalo como instrumento reabilitador, buscando a reabilitação do praticante (nome dado ao paciente de equoterapia) de forma integral. Portanto, emprega o cavalo como agente promotor de ganhos físicos, psicológicos e educacionais (BITAR et al., 2004). É desenvolvida ao ar livre, onde o indivíduo estará intimamente ligado com a natureza, proporcionando assim a execução de exercícios psicomotores, de recuperação e integração, completando as terapias tradicionais em clínicas e consultórios.
Deve-se ressaltar que o ambiente equoterápico deve seguir normas específicas da ANDE-BRASIL, sejam de qualificação estrutural, assim como de ordem de acolhimento do praticante. De acordo com Rosa (2002), como no ambiente equoterápico, o praticante é o centro das atenções, é fundamental estabelecer conhecimentos, técnicas, estratégias, procedimentos para recebê-lo com carinho, respeito, compreensão e segurança.
O ato de cavalgar em um animal manso, porém de porte avantajado, possibilita ao praticante experimentar sentimentos de independência, liberdade e capacidade, contribuindo assim para o desenvolvimento da afetividade, autoconfiança, auto-estima, a organização do esquema corporal, responsabilidade, atenção, concentração, memória, criatividade, socialização, entre outros. Pelo seu tamanho, ele impõe respeito e limites, sem envolver-se emocionalmente, facilitando assim a aceitação de regras de segurança e disciplina. Portanto, engloba ao mesmo tempo, as qualidades de um terapeuta, um educador e um motivador.
É importante ressaltar que o cavalo de equoterapia deve ser selecionado e treinado pelo profissional adequado. Analisar o comportamento do animal a partir desse conhecimento permite encontrar em seu manejo e treinamento, as causas e soluções para os problemas. A análise biomecânica dos seus movimentos demarca a base para a sustentação de sua escolha para a terapia. Conhecer profundamente os efeitos do movimento do cavalo é crucial. No entanto, o cavalo não pode ser considerado somente um instrumento, objeto, mas sim um ser vivo que possui instintos, comportamentos, reflexos e necessidades (ROSA, 2002).
Nesta terapia, a área da Psicologia não realiza aquilo que costuma chamar de psicoterapia “clássica”, ou seja, na Equoterapia há maior diretividade do trabalho, isto porque o ambiente em que esta se desenvolve possui estímulos variados, tais como o espaço físico, as atividades pré-programadas, o cavalo, os terapeutas e os acompanhantes do praticante.
A Equoterapia baseia-se numa relação transferencial e triangular entre terapeuta-praticante-cavalo, o que poderá possibilitar ao indivíduo o acesso entre seu mundo imaginário e a realidade. Ao mesmo tempo, o cavalo emprega uma função de intermediário entre o mundo intrapsíquico do praticante, composto de desejos, fantasmas, angústias, e o mundo externo, ocupando o espaço lúdico do praticante (LALLERY, 1988; HERZOG, 1989 apud ARLAQUE et al., 1997).
Tendo em vista a importância da Equoterapia e que Franca não possuía tal serviço, realizou-se um projeto para sua implantação do mesmo. O objetivo, portanto, deste trabalho é apresentar essa implantação, sob o ponto de vista do Psicólogo.
A procura pelo atendimento nesse serviço implantado, surgiu, pelo fato de crianças e adolescentes da rede municipal de ensino, estarem enfrentando problemas na aprendizagem e/ou no comportamento. Deste modo, as professoras dessas escolas encaminharam os alunos, com o intuito de melhorarem estes aspectos, já que se encontravam deficitárias.
Ao participar de competições de hipismo em várias cidades, pude presenciar sessões de Equoterapia com pessoas portadoras de necessidades especiais. Tive a oportunidade de conversar com vários profissionais que trabalham na área, e percebi que os resultados são realmente bastante significativos, em todos os aspectos. Deste modo, passei a me interessar cada vez mais pela área, e sendo assim cheguei a conhecer vários outros lugares que se desenvolve esse tipo de terapia, além de realizar vários cursos em equitação e principalmente em Equoterapia.
Do ponto de vista psicológico, a Equoterapia tem por objetivo acompanhar e orientar os praticantes e seus familiares. E por meio de instrumentos lúdicos, como jogos, brincadeiras, transposição de situações, diálogos, o profissional auxilia na elaboração de aspectos emocionais, conflitos e situações.
Na Equoterapia, o psicólogo realiza avaliações psicológicas com a família e principalmente com o praticante, para ter uma maior compreensão do mesmo. Além disso, auxilia na aproximação do praticante com o animal, o que é crucial para o desenvolvimento do tratamento. O psicólogo ajuda na montaria, que ocorre a partir do momento em que se estabelece um vínculo afetivo entre o indivíduo e o cavalo, encontrando assim, confiança para montar. Porém, quando há dificuldade em montar o animal, é realizado o processo de maternagem, isto é, o terapeuta monta juntamente com o praticante, objetivando fornecer-lhe maior segurança. Desta forma, a função do psicólogo é acompanhar diretamente cada praticante, durante o processo de aproximação e separação do animal.
O profissional ajuda a revelar as necessidades, os limites e potencialidades do praticante, juntamente com a família ou responsáveis e demais membros da equipe, para que se tenha um melhor desempenho inter e intrapessoal. Além disso, o terapeuta analisa e reavalia a situação atual do praticante antes do início da terapia para uma melhor adaptação às características do trabalho com o cavalo.
O animal, por si só, desempenha uma presença viva, afetiva e concreta, que evoca sentimentos e emoções, como alegria, serenidade, medo, raiva e tristeza. Deste modo, não é interessante considerar apenas as estimulações, funções motoras e psicomotoras que o andar a cavalo propicia, mas também o componente racional que é desenvolvido entre a pessoa e o animal que engrandece este tipo de terapia, tornando-o um agente facilitador para uma intervenção psicoterápica (MASIERO, 2004).
Assim, percebe-se a importância de um trabalho desse tipo a ser oferecido às crianças e adolescentes que apresentam problemas ou dificuldades.

MATERIAIS E MÉTODOS
A implantação do projeto de Equoterapia na cidade de Franca, iniciou-se em Maio de 2004 na Sociedade Hípica de Franca, se estendendo até Dezembro do mesmo ano. Em Agosto de 2003, funcionava o projeto “Educação pela Equitação”, com base em fisioterapia e aprendizagem em equitação.
Em 2004, implantou-se a Equoterapia com bases psicológicas, tendo na equipe uma fisioterapeuta e um instrutor de equitação e uma estagiária de Psicologia. Dos onze praticantes que participaram do projeto, foram observados e analisados quatro deles, sendo três adolescentes de 12 anos, e uma criança de 6 anos, todos do sexo masculino. Somente os quatro alunos foram analisados, devido ao fato de terem sido os primeiros a submeterem ao tratamento.
Neste projeto, a Sociedade Hípica de Franca, cedeu os animais mantendo assim os custos de estadia e alimentação, e a Prefeitura Municipal de Franca, através da Secretaria da Educação, cedeu o transporte do aluno e do acompanhante. Vale ressaltar que a idéia de implantação partiu de um trabalho totalmente voluntário, por parte de toda a equipe.
Ao desenvolver este projeto, a psicóloga e docente Denise Emilia de Andrade supervisionou todo o trabalho, em seus aspectos psicológicos.
Os alunos foram encaminhados pelas professoras das escolas municipais, por estarem com problemas de aprendizagem e/ou comportamento.
Inicialmente, foi realizada uma entrevista de anamnese com os pais ou responsáveis. Esta teve duração de 40 minutos. Primeiramente, foi explicado como seria desenvolvida a terapia. Em seguida, foi estabelecido o tempo de duração da sessão, o dia em que seria realizada, o controle das faltas e a questão do sigilo. Através da anamnese, foram colhidos os dados pessoais do praticante, foi investigada a infância do mesmo, englobando sua gestação, alimentação, hábitos higiênicos, jogos e brincadeiras, escolaridade, desenvolvimento físico, desenvolvimento geral, sexualidade e seu relacionamento familiar.
Na entrevista com os praticantes, foi estabelecido primeiramente o rapport e em seguida realizou-se o desenho livre. Esta teve duração de 30 minutos.
A Equoterapia foi desenvolvida uma vez na semana, com duração de 40 minutos para cada dupla de praticantes.
No que diz respeito às faltas, foi estipulado a cada aluno que, não haveria abono sem justificativa, permitindo então, somente três faltas.
Os materiais utilizados foram dois cavalos, equipamentos especiais de montaria, como capacete, uniforme, manta e cabeçada, além de uma pista de areia de 30m x 20m. Foi utilizada uma sala para a realização de avaliações, um escritório, uma sala para recepção, papeis, canetas, fichas de avaliação e computador.
Em relação aos materiais utilizados para a Equoterapia, foram usadas bolas, giz de cera, papéis, argolas, cubos, balizas, varas, cavaletes, entre outros materiais e jogos pedagógicos. Quanto aos materiais de higiene do animal, foram utilizadas escovas, pentes, xampus, raspadeiras, limpador de casco.
No início do Mês de Dezembro, foi realizada uma reunião com os responsáveis dos praticantes, para avaliar o desempenho e o progresso dos mesmos durante o período que praticaram a Equoterapia.
Ao final foram realizadas análises das avaliações, dos registros e dos protocolos, e fotos, para as conclusões finais do trabalho.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A proposta de implantação do projeto de Equoterapia surgiu, a partir do momento em que pôde-se observar os benefícios psicológicos proporcionados por ela. Embora seja um método terapêutico pouco difundido, percebe-se a necessidade em divulgá-lo, de forma que revele os resultados alcançados com o uso do cavalo.
A grande importância em utilizar o animal como instrumento terapêutico provém do movimento que o passo do cavalo transmite ao praticante: ritmado, repetitivo e simétrico. Esse movimento tridimensional, produz um deslocamento da pelve do praticante, parecido ao que uma pessoa realiza ao andar, proporcionando a conscientização corporal do portador de dificuldade, incentivando a aprendizagem ou reaprendizagem da marcha. Além da habilitação e reabilitação motora, a interação com o animal, possibilita ao praticante trabalhar aspectos como a afetividade, autoconfiança, auto-estima, senso de limites, socialização, segurança, autonomia, responsabilidade, dificuldades de aprendizagem. Nesse sentido, o cavalo permite desenvolver atividades motoras, psicomotoras, afetivas, cognitivas, possibilitando, assim, a reintegração do praticante na sociedade (EQUOTERAPIA..., 2004).
Os resultados obtidos através da Equoterapia e analisados com base na Psicologia, se deve ao fato de utilizar o animal, permitindo assim, trabalhar o afeto, a autonomia de ir e vir. As emoções e as sensações provocadas por ele, levam o indivíduo a um confronto consigo mesmo, que é corporal e ao mesmo tempo psico-afetivo. É por meio de vibrações corporais que o cavaleiro vivencia uma experiência que remete ao seu mundo interior, construindo e realizando seu próprio bem estar, pelo viés do cavalo, este seu outro eu (BRENTEGANI, 2004).
É importante pensar que a Psicologia, vem ampliando cada vez mais seu campo de atuação, a fim de criar recursos para a saúde e o bem estar do indivíduo. É de extrema importância aumentar a diversidade de recursos terapêuticos, pois, por meio destes, criaremos condições para o crescimento e para a vida. A intenção de implantar a Equoterapia na cidade de Franca procurou revelar os resultados a partir do ponto de vista psicológico, mostrando assim, mais uma modalidade de trabalho para o profissional de Psicologia.
Quando questionamos sobre a atuação do Psicólogo, geralmente pensamos em um tratamento que ocorre individualmente, ou seja, a relação terapêutica é exercida em sua maioria entre paciente e terapeuta. Na Equoterapia, o atendimento ocorre de maneira interdisciplinar, isto é, há grande parceria entre profissionais das áreas da saúde, educação e equitação, que estão envolvidos no tratamento do praticante. Trabalhar interdisciplinarmente é um processo muito rico, pois podemos trocar nossos conhecimentos com profissionais de outras áreas. Desta maneira, temos a oportunidade de conhecer o indivíduo como um todo e não fragmentado.
Fazenda (1994), afirma que a interdisciplinaridade é uma exigência natural das ciências, no sentido de uma melhor compreensão da realidade que elas nos fazem conhecer. É uma questão que parte das indagações, do diálogo, da troca de informações, da humildade, enfim, da reciprocidade.
Sendo assim, caberá ao Psicólogo conhecer todos esses profissionais que estarão trabalhando juntos, ajudando na desenvoltura da equipe, realizando reuniões, para haver essa harmonia entre todos e obter um resultado significativo no trabalho. Deverá conhecer também o praticante, procurando identificar suas limitações e potencialidades e também conhecer muito bem o cavalo, suas características, para obter uma visão precisa do tratamento. Além disso, o profissional deverá conhecer todo o material empregado nas técnicas e exercícios utilizados na Equoterapia (BRENTEGANI, 2004).
Pode-se dizer, que o trabalho desenvolvido na Sociedade Hípica de Franca, ocorreu de forma interdisciplinar, havendo assim, uma parceria entre os membros envolvidos, como o instrutor de equitação, a fisioterapeuta e a estudante de psicologia.
Em relação à entrevista realizada com os praticantes, a mesma ocorreu de forma aberta, com a utilização do desenho livre.
Arno Stern (apud PILLAR, 1996) afirma que, a criança ao desenhar, não produz lembranças visuais, mas traduz claramente sensações e pensamentos. O desenho é, portanto, a expressão do que a criança sente e pensa, isto é, é um espelho, uma imagem representativa dela mesma.
No que diz respeito aos desenhos dos praticantes, pôde-se observar que representaram claramente seus sentimentos e pensamentos. Alguns desenhos foram considerados inferiores, se comparados com a idade dos mesmos.
Durante os oito meses de atividades equoterápicas, pôde-se observar que, os praticantes obtiveram resultados significativos tanto na aprendizagem, quanto no comportamento.
No que diz respeito à aprendizagem, foi observado que, ao realizarem atividades de percurso com varas, números e letras, obtiveram uma melhora significativa na atenção, concentração e na memória. Através dos jogos pedagógicos, pôde-se notar melhora no raciocínio, na aceitação de regras e perdas.
Em relação ao comportamento, foi observado um progresso nos aspectos da comunicação, timidez, medo, limites, disciplinas e a responsabilidade, por meio de outras atividades e jogos, além do contato e manuseio do animal, durante toda a sessão.
A Equoterapia se introduz no contexto da aprendizagem, sobretudo quando se trata de crianças que apresentam dificuldades na área da escrita, Matemática, leitura, psicomotricidade ou social. A questão da atenção, concentração e memória, também é trabalhado nesta terapia, pois é necessário que o praticante mantenha a atenção concentrada durante os trinta minutos em que é desenvolvida a sessão. Este é um fator bastante importante para o bom desempenho do aluno na escola, pois a atenção é a base do aprendizado. O indivíduo, estando atento, consequentemente selecionará o que realmente quer aprender e guardar em sua memória para utilizar em outros momentos (FONSECA apud MENDES, 2004).
Pode-se dizer, que a terapia inicia-se no momento em que o praticante entra em contato com o animal. Em um primeiro momento, o cavalo representa para o indivíduo uma situação diferente, com a qual o praticante terá que saber lidar, aprendendo a forma correta de interagir, de montar e comandá-lo. Essa relação por si só, já proporciona ao indivíduo, o desenvolvimento da afetividade, auto-estima, autoconfiança, limites, uma vez que a relação com o animal exige certas regras que não podem ser infringidas.
No que diz respeito aos pais dos praticantes, pôde-se notar que houve um grande interesse por parte dos mesmos. Tiveram a oportunidade de acompanharem a evolução de seus filhos durante o atendimento. Na reunião de finalização, foi possível perceber, que as mães ficaram bastante felizes com o progresso dos seus filhos, embora tivessem outros aspectos a serem melhorados. O contexto da reunião contribuiu também para as mães conversarem e refletirem sobre suas dificuldades, dúvidas, medos, angústias, sentimentos de culpa em relação a seus filhos.
De acordo com Madureira e Souza (2001, p. 6), “a necessidade de orientação e acompanhamento psicológicos aos pais de praticantes de equoterapia, é tão importante quanto os cuidados técnicos”. A família traz consigo, expectativas por um novo atendimento, melhoras, perspectivas, sentimentos de culpa, insegurança, medo, ansiedade, incerteza, entre outros.
A valorização da família auxilia no trabalho com o praticante, podendo assim, realizar um trabalho em conjunto com os pais, de modo a orientá-los em comportamentos referentes à história pessoal e familiar, favorecendo uma mudança em suas percepções e valores de suas realidades.
Enfim, compreender a Equoterapia em sua totalidade, é tarefa de todos os profissionais envolvidos. O dia-a-dia equoterápico está impregnado de buscas infinitas. As respostas às dúvidas também são complexas e desafiadoras. Todo esse esforço tem um motivo, indescritivelmente maravilhoso, o praticante (ROSA, 2002).

CONCLUSÃO
Com a implantação da Equoterapia na cidade de Franca, verificou-se através dos resultados, que os praticantes foram influenciados pelo atendimento equoterápico, adquirindo assim, melhoras significativas, principalmente nos aspectos psicológicos.
Foi possível perceber, que a implantação deste serviço, realmente foi de grande valia. É importante ressaltar que, tanto os voluntários, quanto os pais e praticantes, acreditaram no tratamento, procurando assim conduzi-lo com afinco e satisfação.
Pode-se considerar que a Equoterapia é uma área em construção, e o percurso das etapas dessa construção são bastante complexos.
Com a descoberta dos benefícios trazidos ao ser humano através dessa terapia, percebeu-se a necessidade em divulgar esta nova modalidade terapêutica, para que outros profissionais e pessoas possam utilizar desse novo método. Embora o cavalo seja um recurso, no qual quase todas as pessoas têm proximidade e acesso, ainda não se têm consciência dos benefícios que este animal pode proporcionar.
Posso dizer que a experiência em trabalhar com a Equoterapia foi muito importante tanto para minha vida, quanto para minha futura profissão.
Acredito que minha dedicação neste trabalho, contribuiu muito para meu aprendizado e, com certeza para o aprendizado dos praticantes.

Roberta Gimenes - Psicologa

O Médico Veterinário na Equoterapia


A Equoterapia precisa contar com um Médico Veterinário. O cavalo, base dessa terapia, é um ser vivo que, como qualquer outro, muitas vezes poderá precisar de um médico. Nesse caso, é importante que esse profissional esteja familiarizado com a rotina da mesma.Após um profundo estudo da Equoterapia, envolvendo desde a leitura até a assistência de sessões e do treinamento, o Médico Veterinário estará apto a exercer sua profissão com maior qualificação nessa área. Leia em "Mais Informações"...

Ele deverá, então, integrar-se à Equipe. Isso compreende o conhecimento do local, dos terapeutas (e/ou acadêmicos), do Ferrador, do Instrutor de Equitação, do Tratador, dos animais, enfim, de todos aqueles que participam da rotina da terapia. Essa integração aumentará em muito sua preparação para enfrentar qualquer situação na qual ele seja solicitado.

O preparo, capacitação e atualização constante são imprescindíveis ao Médico Veterinário que deseja trabalhar com Equoterapia. Assim como o cavalo de corrida possui particularidades diferentes de um cavalo de hipismo ou de trabalho, também o cavalo de Equoterapia possui as suas. No meio em que esse cavalo vive, inúmeras perguntas podem surgir para o Médico Veterinário. Terapeutas, proprietário, praticantes, funcionários e visitantes estarão sempre curiosos quanto a esse animal que tanto serve à saúde e à melhoria da qualidade de vida dos que praticam essa terapia. As respostas do Médico Veterinário devem ser simples, sinceras e voltadas para a realidade da Equoterapia. Para isso ele deverá sempre se manter informado e atualizado quanto a esse assunto.

A rotina de um Centro de Equoterapia precisa muitas vezes contar com o Médico Veterinário. A aquisição de um cavalo para as sessões, por exemplo, é uma questão que pode preocupar o proprietário. Nesse caso, ele consultará o profissional que estudou e conhece a fisiologia e, portanto, a funcionalidade desse animal. O Médico Veterinário precisa estar capacitado para indicar a melhor aquisição ao seu cliente. Ele precisará analisar fatores importantes no cavalo, como: aprumos, idade, sexo, temperamento, conformidade física, análise de suas andaduras, etc. Torna-se evidentemente necessário o estudo e atualização do Médico Veterinário.
Na hora de construir um Centro de Equoterapia, o Médico Veterinário poderá ser consultado. Ele poderá aconselhar quanto às dimensões das dependências (baias, selaria, potreiros, pistas, etc.), escolha das melhores pastagens, escolha da ração, tipo de material na construção das baias, posição de bebedouros e coxos, época de plantio e colheita das forrageiras. Com certeza o sucesso desse projeto garantirá sua futura atuação profissional no local, pois ele terá provado sua competência e familiarizado com as particularidades da rotina da Eqüoterapia.

O Médico Veterinário interessado nesse campo de trabalho, precisa constantemente estudar e pesquisar quanto à melhoria das condições de realização da Equoterapia. O seu paciente, o "terapeuta-eqüino", será seu maior alvo de estudo. Esse estudo deve priorizar a saúde e o bem estar do cavalo.

Quanto à Medicina Veterinária Curativa, faz-se imprescindível o estudo e pesquisa constantes desse profissional, a fim de conhecer e saber solucionar os transtornos clínicos mais freqüentes que acometem os cavalos destinados à Eqüoterapia. Toda a Clínica Eqüina deve ser dominada por esse profissional que também poderá executar cirurgias e demais intervenções médicas.

O Médico Veterinário precisa ter consciência da seriedade no trabalho de assistência à Equoterapia, assim como deve ser em qualquer outra área da Medicina Eqüina (salto, adestramento, corrida, trabalho, etc.). Essa seriedade envolve a pesquisa, a prática, a convivência, a atualização constante, a Filosofia (Ética Profissional, Moral, Bioética, etc.) e principalmente o amor aos "terapeutas-eqüinos", aos colegas de trabalho (demais participantes da equipe) e aos praticantes da terapia. Com o trabalho sério e eficiente, o Médico Veterinário poderá e deverá visar o êxito da terapia como seu objetivo maior enquanto responsável pela saúde do cavalo, base de todo o trabalho equoterapêutico, o que lhe será motivo de grande satisfação profissional e humana.

Autora: Luciana Leal Jorge (Link)

- O presente artigo é parte integrante do projeto Equoterapia realizado na Universidade Federal de Santa Maria. O mesmo conta com acadêmicos dos cursos: Educação Física, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Psicologia, Educação Especial, Medicina e Medicina Veterinária. Cada curso tem orientação específica. Os alunos de Educação Física são orientados pelo Prof. Dr. Fernando Copetti, sendo o mesmo orientador geral do projeto. As sessões de Equoterpia são realizadas no Parque de Exposições da UFSM e os animais bem como Instrutor de Equitação (para treinamento dos acadêmicos antes de atenderem os praticantes nas sessões) são cedidos cordialmente pela EQUFSM (Associação Eqüestre da UFSM).


Cavalo, Psicologia e Equoterapia

" II- O Psicólogo trabalhará visando promover o bem-estar do indivíduo e da comunidade, bem como a descoberta de métodos e práticas que possibilitem a consecução desse objetivo ( Princípios Fundamentais do Código de Ética do Psicólogo, 1987)".


É com base nesse e muitos outros princípios da sua ética profissional, que a Psicologia dispõe todo o seu arcabouço teórico e prático a serviço da Equoterapia. Um método não convencional, porém, não menos eficaz que outros, que promove a reabilitação de potencialidades das pessoas portadoras de necessidades especiais. Entre as contribuições teóricas e práticas estão as Teorias de Personalidade, a Psicopatologia, Teorias do Desenvolvimento, Técnicas de Avaliação Psicológica, Atendimento Psicológico. Leia em Mais Informações ...

UM SER DE HERANÇAS
De acordo com a Psicologia Analítica de Jung, o homem nasce, não somente com uma herança biológica. Recebe, também, uma herança psicológica. E, ambas, serão determinantes dos comportamentos e experiências desse ser. Essa herança psicológica é, então, chamada de inconsciente coletivo, "... não são aquisições individuais, são essencialmente os mesmos em qualquer lugar e não variam de homem para homem" (Jung, 1973). 
O inconsciente coletivo é constituído pelos arquétipos. Arquétipos são "estruturas psíquicas" sem forma ou conteúdo próprio, que servem para canalizar e/ou organizar o material psicológico, dando origem às fantasias individuais ou às histórias mitológicas de um povo. Os arquétipos possuem uma variedade incrível de símbolos associados à sua figura, mas, não representam de forma integral esses mesmos arquétipos. Contudo, quanto mais os símbolos puderem se harmonizar com os conteúdos inconscientes desses arquétipos, mais chances eles terão de evocarem no indivíduo uma resposta emocionalmente carregada. Portanto, as figuras simbólicas são as verdadeiras transformadoras de energia dos acontecimentos psíquicos.

O CAVALO COMO ARQUÉTIPO
A Psicologia ocupa-se com o estudo do comportamento humano. Apesar de algumas correntes dessa ciência, valerem-se da comparação entre o homem e os animais para a elaboração de um projeto da "psique" humana, pouco ou nada podem os psicólogos dessa área, dizer acerca do comportamento animal. Porém, a influência direta ou indireta desse sobre a vida do homem, pode e deve servir de material de pesquisa do seu próprio comportamento.
O cavalo é um animal que sempre influenciou indiretamente o homem através da sua figura arquetípica. É nesse sentido, então, que vamos pesquisar agora, um pouco sobre a carga simbólica do arquétipo cavalo e a sua influência sobre o comportamento do homem, durante a trajetória de sua existência e que se manifestaram através da mitologia, religião, histórias infantis, história nacional, folclore, etc.
Vejamos alguns desses fatos: - O cavalo com poderes mágicos: "Entre os buriatas, costuma-se amarrar o cavalo de um doente (que, segundo a crença, perdeu temporariamente a alma) perto do leito de seu amo, a fim de que dê sinais do retorno da alma do enfermo; pois, quando isso acontece, o cavalo o manifesta pondo-se a tremer"; " Quando Jesus nasceu, o burro era o meio de transporte utilizado em Jerusalém. Por isso, o Menino Jesus é sempre representado no colo de sua mãe sentada nas costas de um burro conduzido por José". O burro possui sobre as costas uma cruz formada por uma listra escura que percorre sua espinha dorsal e outra horizontal que vai de ombro a ombro. Por esse fato, várias culturas acreditam que o pêlo desse animal tem um poder de cura.
É nos acontecimentos descritos nesse tópico, que podemos comprovar, com maior nitidez, a força do arquétipo cavalo. O simbolismo do poder de cura, existente na sua figura, é fator de crença e fé profundas no restabelecimento da saúde de pessoas doentes. Por muito e muito tempo, a fé teve um lugar especial em todos os povos do mundo, porém, o pensamento ocidental, positivista, dicotômico, insiste, até hoje, em separar a mente do corpo e, consequentemente, coloca em pólos diferentes a fé e a razão. A fé, portanto, não goza mais do mesmo privilégio da razão.
A utilidade do arquétipo é, então, fazer a organização desses dois pólos e a condução deles para uma integração em direção à "cura". - Pégaso, o cavalo mitológico: "... Pégaso bebendo água no poço de Pirene, e, mal avistou a rédea dourada, o cavalo aproximou-se docilmente e se deixou cavalgar. Nele montado, Belerofonte elevou-se nos ares, não tardou a encontrar a Quimera e obteve uma fácil vitória sobre o monstro";
"A fonte de Hipocreue, situada na montanha onde viviam as musas, Hélicon, foi aberta por um coice daquele cavalo". Pela primeira passagem, podemos observar que Pégaso, o cavalo alado, ao ser cavalgado transpõe-se da Terra para o Céu, do plano de baixo para o de cima.
Ele é, portanto, um instrumento da mudança de um estado inferior para um superior. Além disso, é através do movimento da sua pata que ele faz brotar uma fonte de água que tradicionalmente, em qualquer cultura, representa a vida. Brotar é desabrochar, manifestar-se, dar saída a algo de dentro.
O cavalo, então, é portador da vida ou o meio pelo qual ela pode vir a surgir . - A Cavalaria: A própria história das instituições militares confunde-se com o uso do cavalo como arma de combate. Desde a antigüidade, o homem preocupa-se com a idéia de combater em vantagem de posição, de tal forma que lhe garanta superioridade em relação ao inimigo. Inicialmente, essa vantagem era obtida montando-se num elefante. Depois, partiu-se para a utilização de plataformas que eram empurradas e, posteriormente, surgiu a idéia de se montar no cavalo ¾ denominado de Caballus.
Atualmente, essa prática alterna-se com o uso de carros blindados ou carros de combate. Montar no cavalo significa estar em uma posição privilegiada, enxergando tudo e a todos por cima. O cavaleiro, então, passa a ter vantagem sobre seu inimigo. Com a Cavalaria, uma instituição militar, aparece a figura do cavaleiro pertencente à classe dos guerreiros. Tornar-se um guerreiro é lutar por uma causa . - Jesus e o jumentinho: "Aproximavam-se de Jerusalém. Perto do monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide à aldeia que está defronte.
Encontrareis logo uma jumenta amarrada e com ela seu jumentinho. Desamarrai-os e trazei-mos. Se alguém vos disser qualquer coisa, respondei-lhe que o Senhor necessita deles. Assim, neste acontecimento, cumpria-se o oráculo do profeta: Dizei à filha de Sião: eis que teu rei vem a ti, cheio de doçura, montado numa jumenta, num jumentinho, filho da que leva o jugo (Mateus 20, 21)." Nesse momento, o animal, na sua figura mais simples, coloca-se à disposição para realizar a termo a antiga profecia: ser o escolhido para carregar, em seu lombo, o Filho de Deus. Jesus, como qualquer outro ser humano, fora criado à imagem e semelhança de Deus ¾ o Ser Mais Perfeito ; - Um ideal de Independência: "No dia 7 de setembro de 1822, às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, Dom Pedro tomou conhecimento dessas ordens. Com o brado de "Independência ou Morte!", desligou o Brasil de Portugal, definitivamente."
Envolto num clima teatral e, portanto, simbólico, o cavalo (montado por Dom Pedro) é personagem de um dos fatos mais importantes da história de nosso país: o dia da Independência. Tornar-se independente aqui significa estar livre, ter autonomia, sair da tutela de outro. Qualquer alternativa contrária a esse sentimento quer dizer Morte, ausência de liberdade e/ou de vida

UM SER GALOPANTE
É fundamental a importância do estudo e do trabalho da figura arquetípica do cavalo na Equoterapia. Contudo, nosso "público alvo", os praticantes, são pessoas que, com pouquíssimas exceções, possuem o mínimo de entendimento de conceitos tão abstratos, como os tratados anteriormente. Como, então, trabalhá-los nas sessões de Equoterapia?
Sabemos, de antemão, que os praticantes de Equoterapia, as chamadas Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais (PPNE), são pessoas que possuem algum tipo de distúrbio físico (PCs, TCE, TRM ...), mental (Síndrome de Down, Oligofrenia ...) ou de comportamento (Síndrome de Asperger, Autismo, Hiperatividade ...).
Podemos, de forma geral, dizer que todos esses praticantes possuem alguma alteração no seu desenvolvimento. Os seres humanos, PPNE ou não, são seres dinâmicos durante toda a sua existência. Estão sempre em movimento, em constante evolução, em permanente desenvolvimento, pois num sentido figurado o homem é um ser galopante.
A todo momento, o homem aprende e modifica comportamentos. Isto se deve ao fato de que é um ser possuidor de necessidades vitais e, para satisfazer essas necessidades, conta com o sistema de autro-regulação do seu organismo, que detecta e encontra a melhor forma (o que não significa que é a forma mais adequada) de suprir tais carências, restaurando assim o equilíbrio. Todo movimento de carência / restauração de equilíbrio, resultará em um comportamento diferente, aprendido ou modificado. Suas necessidades são muitas, então, tantas quantas forem as suas carências, surgirão, na mesma proporção, comportamentos diferentes. Verifica-se aqui o processo de desenvolvimento do homem.

DESENVOLVENDO-SE
" O desenvolvimento mental, do mesmo modo que o crescimento físico, é um processo de esquematização, porque a mente é, na sua essência, a totalidade de uma crescente multidão de padrões ou esquemas de comportamento (A. Gesell, 1974)".
O processo de desenvolvimento é contínuo e leva tempo. Seu início é marcado no momento da concepção (fertilização da célula-ovo / organização germinativa) e avança numa seqüência mais ou menos ordenada, estendendo-se por toda a vida intra-uterina (organização pré-neural; flexão do tronco; engolir; movimentos pré-respiratórios; fechamento das mãos; etc.) e seguindo após o nascimento (funções vegetativas; controle ocular; equilíbrio de cabeça; preensão e manipulação; sentar; engatinhar; ficar de pé; andar; balbucio; fala; etc.) até que se atinja a maturidade.
Todo o desenvolvimento se dará através de quatro campos de comportamento. Esses campos são áreas interdependentes que favorecerão o desenvolvimento em sua totalidade e o seu estudo destina-se a esclarecer como o desenvolvimento se processa para cada indivíduo. São eles:
- Comportamento Adaptativo: é a capacidade de assimilar os elementos principais de uma situação, de utilizar comportamentos passados e presentes e modificá-los, na adaptação à situações novas e semelhantes (ex.: coordenação de olhos e mãos para alcançar e manusear).
- Comportamento Motor: são o motor grosseiro (as reações posturais, equilíbrio de cabeça, sentar, ficar de pé, engatinhar e andar) e o motor delicado (uso das mãos e dos dedos no movimento preensório dos objetos, além dos gestos para pegá-los e manuseá-los). - Comportamento de Linguagem: constitui todas as formas de comunicação e compreensão por gestos, sons e palavras.
- Comportamento Pessoal-Social: reações individuais às outras pessoas e à cultura. A raiz do processo de desenvolvimento se encontra no sistema nervoso. É necessário que haja a maturação de cada estrutura física do organismo para que ele se desenvolva.
Contudo, essa maturação fisiológica não é condição suficiente para a evolução dos comportamentos do homem. Há que se considerar também a influência do ambiente em todo esse processo. O organismo, por si só, não é auto-suficiente. Ele só existe dentro de um meio e seus comportamentos se derivam da relação mútua que há entre ele (organismo) e meio.
Por exemplo: "Eu vejo uma árvore... Não há vista sem algo para ser visto. Nem algo é visto se não há olho para vê-lo (Perls, 1973)". Em resumo, o potencial humano é, em grande medida, determinado biologicamente, porém, a forma como o homem vai usufruir desse potencial, utilizando-o na construção da sua pessoa, vai ser, em outra grande medida, influenciado pelo que o ambiente lhe oferece. É, então, no âmbito da interação entre as potencialidades e limitações do homem e a influência do meio exercida sobre ele, que vamos estruturar o tratamento equoterápico.

EQUOTERAPIA EM OUTRA PERSPECTIVA
Tratamos, até aqui, basicamente, de dois assuntos: o arquétipo cavalo e o desenvolvimento humano. Porém, ainda não está claro como podemos conciliar tais conceitos e aplicá-los no tratamento das PPNE. A Equoterapia trabalha com pessoas cujo desenvolvimento sofreu alterações em algum dos seus estágios. Dito de outra forma, temos pessoas cuja determinação biológica ou ambiental está alterada provocando diferenças no seu comportamento.
São, portanto, pessoas carentes de "um braço que as empurre" rumo ao desenvolvimento natural. Ou, num sentido nada figurado, de quatro patas que, através do seu movimento cinesioterapêutico, transmita cerca de 1.800 a 2.000 estímulos ao corpo dessa pessoa, que está inserida num ambiente simbolicamente preparado para a valorização das suas potencialidades. Esse é o projeto da Equoterapia. E, baseado nesse objetivo, é que ela se estrutura em três fases : Hipoterapia, Reabilitação e Pré-Esportiva. Porém, se for possível remodelar essa estrutura à luz do arquétipo cavalo, a Equoterapia seria, em outra perspectiva, assim:
- Fase do Cavalo Mágico: É a fase que antecede qualquer trabalho diretamente com o animal. Ela acontece quando se pensa na perspectiva do cavalo ser o instrumento de ajuda ao desenvolvimento das PPNE. É a fase de preparação de profissionais especializados na condução do tratamento.
É quando nasce a crença e há a procura, por parte da própria PPNE ou de sua família, pelo tratamento. É o momento da preparação do clima simbólico, necessário ao tratamento do praticante, e estende-se até o final da fase de sua avaliação.
- Fase do Pégaso: Essa fase inicia-se com a apresentação do praticante ao cavalo e vice-versa. É o momento do primeiro contato entre o par. É nessa fase que o cavalo se colocará à disposição do praticante, para o início de uma longa cavalgada. É quando o animal, com o movimento das suas patas, fará brotar a vida em quem acreditar que ali ela existe. Será, então, o começo do vôo de Pégaso com destino a um estado superior.
- Fase do Guerreiro: Essa é a fase do tratamento propriamente dito. É aqui que acontecerá o trabalho de ativação daquelas áreas de comportamento. Não é uma fase fácil. Há momentos de equilíbrio e desequilíbrio.
É o momento do praticante mesclar suas limitações e potencialidades, testar novos padrões de comportamento. É quando o praticante guerreiro é bombardeado por todos os lados pelas técnicas dos profissionais envolvidos nesse tratamento e, espera-se dele um contra-ataque, uma reação do seu desenvolvimento. E, no fim dessa fase, todos esperam que o praticante guerreiro saia vitorioso, assumindo as rédeas dessa guerra e parta para a fase seguinte.
- Fase da Perfeição: Agora, o praticante não mais se sente limitado como antes. É a fase da elevação da auto-estima. Não há mais o sentimento de deficiência. O cavalo passa a ser, então, a extensão do seu corpo e, com isso, ele pode realizar façanhas que, anteriormente, só os normais tinham condições de realizar. Houve a superação de obstáculos. - Fase Independente: É o último estágio do tratamento.
O praticante está apto, agora, a guiar-se sozinho. A confiança no cavalo é de outra ordem, não é baseada apenas na amizade estabelecida a partir daquele contato inicial. A confiança se pauta, nesse momento, no próprio auto-domínio e conseqüente domínio do animal.
Requer ao psicólogo, atenção especial à família que terá de conviver com novos parâmetros. E atenção especial, também ao praticante, que estranha-se diante da sua nova condição. É a fase da libertação dos antigos empecilhos da sua vida. É a fase da coroação do seu trabalho e da sua consagração como Pessoa, Ainda Que Com Necessidades Especiais. Mas, e daí?
Quem não as tem? Com exceção da primeira fase, essa nova estruturação segue uma seqüência puramente formal. Elas são essencialmente intercambiáveis, levando-se em conta vários fatores, como o tipo de distúrbio, o grau de alteração de desenvolvimento, a idade, a família, a condição social e, principalmente, o próprio praticante.





CONCLUSÃO
A Equoterapia é uma forma de tratamento que obriga o psicólogo a dividir com o cavalo e com o próprio praticante, os aplausos de um espetáculo que se utiliza de atrações, ao mesmo tempo, simples e de efeitos brilhantes. O suposto poder de promover melhorias à vida do homem já não se concentra somente nas mãos do psicólogo, devendo ser, também, repartido com esses dois outros figurantes. Esse, talvez, seja o fator preponderante da não convencionalidade desse tratamento.
E, com certeza, é o fator mais criticado pelo profissional que não o conhece. Mas, já nos foi apregoada a missão de descobrir novas possibilidades para o bem-estar do homem. Portanto, o psicólogo que adota o cavalo como seu colega de trabalho, assume um compromisso ético com a sua profissão e, principalmente, com a vida do seu amigo praticante.
"Em pleno meio-dia, levado pelo poderoso ímpeto de sua corrida, o cavalo galopa às cegas, e o cavaleiro, de olhos bem abertos, procura evitar os pânicos do animal, conduzindo-o em direção à meta que se propôs alcançar; à noite, porém, quando é o cavaleiro que por sua vez se torna cego, o cavalo pode então tornar-se vidente e guia. A partir daí, é ele que comanda, pois, só ele é capaz de transpor impunemente as portas do mistério inacessível à razão".
Escrito por:Davi Castelo Branco Avelar (Psicólogo do Centro de Equoterapia do Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais).